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China não quer mais investir nos EUA e orienta bancos a reduzir US$ 682,6 bilhões em Treasuries, após juros saltarem a 4,25% e 4,88%, em meio a tensões com Trump, risco de congelamento de reservas e avanço do sell America

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 12/02/2026 às 17:43
China orienta bancos a reduzir US$ 682,6 bi em Treasuries, pressiona juros dos EUA e reforça movimento global de diversificação do dólar.
China orienta bancos a reduzir US$ 682,6 bi em Treasuries, pressiona juros dos EUA e reforça movimento global de diversificação do dólar.
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Orientação chinesa a bancos mexe com Treasuries e amplia debate sobre diversificação de reservas em meio a volatilidade do dólar e ruídos políticos em Washington, enquanto investidores reavaliam risco geopolítico, prêmios de juros e a liquidez do mercado de títulos públicos dos Estados Unidos.

Reguladores chineses orientaram instituições financeiras a limitar novas compras de títulos do Tesouro dos Estados Unidos e, em alguns casos, a reduzir posições já existentes, num movimento que ocorre enquanto o mercado acompanha oscilações nas taxas e a leitura de risco geopolítico volta ao centro do debate.

A sinalização ganhou força depois de uma sessão marcada por alta nos rendimentos dos papéis americanos, com a Treasury de 10 anos chegando a 4,25% ao ano e a de 30 anos avançando para 4,88% ao ano, níveis que refletem a queda de preços típica quando a taxa sobe.

A recomendação foi direcionada principalmente a bancos com exposição considerada elevada, segundo relatos de mercado, e mira a concentração de risco em ativos denominados em dólar, num momento em que gestores descrevem uma migração gradual de portfólios para fora dos Estados Unidos, o chamado sell America.

Orientação a bancos mira concentração e volatilidade

O recado dado por autoridades financeiras chinesas reforça um processo que vinha se desenhando há anos: reduzir vulnerabilidades associadas ao financiamento americano, sem necessariamente romper com o mercado de Treasuries, que segue sendo a referência global de liquidez e segurança.

No funcionamento desse mercado, a relação é direta: quando investidores vendem títulos, o preço cai e a taxa de retorno sobe, por isso movimentos aparentemente pequenos em pontos-base podem sinalizar mudança de humor, especialmente quando a origem é um grande detentor estrangeiro.

Ainda que o impacto imediato dependa do volume efetivamente colocado à venda, a orientação foi interpretada como um alerta de gestão de risco, num contexto em que decisões políticas e episódios de tensão aumentam a sensibilidade do investidor a ativos em dólar.

Exposição da China em Treasuries e recuo desde 2013

Dados oficiais dos Estados Unidos indicam que a China encerrou novembro com US$ 682,6 bilhões em Treasuries, menor patamar desde 2008, e bem abaixo do pico próximo de US$ 1,3 trilhão registrado no fim de 2013, o que evidencia um recuo prolongado.

Hoje, Pequim aparece como a terceira maior detentora estrangeira, atrás do Japão, com cerca de US$ 1,2 trilhão, e do Reino Unido, que soma aproximadamente US$ 890 bilhões, números que também refletem o papel de Londres como centro financeiro para investidores globais.

Ao mesmo tempo, o total de participações estrangeiras em títulos do governo americano atingiu recorde no fim do ano passado, com altas atribuídas, entre outros, a Noruega, Canadá e Arábia Saudita, que compensaram as reduções chinesas em algumas leituras de mercado.

Risco geopolítico e temor de congelamento de reservas

A preocupação com reservas em moeda estrangeira ganhou nova dimensão após a invasão da Ucrânia pela Rússia, quando países ocidentais congelaram parte relevante dos ativos externos do banco central russo, tornando mais visível o risco de sanções em crises de grande escala.

Nesse ambiente, a China busca reduzir exposição a um ativo que, embora líquido, está sob jurisdição americana, o que cria um componente político difícil de ignorar quando as relações com Washington se deterioram, especialmente sob uma escalada de retórica e disputas comerciais.

Os termômetros subiram com novas turbulências atribuídas ao presidente Donald Trump, que voltou a pressionar publicamente o Federal Reserve e reabriu frentes sensíveis na política externa, adicionando ruído à formação de preço em mercados que dependem de previsibilidade institucional.

“Sell America” ganha tração e pressiona estratégias cambiais

Gestores usam “sell America” para descrever a troca de posições em dólar por alternativas, estratégia que pode incluir outros mercados de renda fixa, moedas e bolsas fora dos Estados Unidos, movimento que tende a ganhar tração quando a confiança na estabilidade fiscal americana oscila.

No entanto, reduzir Treasuries e, ao mesmo tempo, fortalecer a moeda doméstica é um dilema para a China, porque uma valorização rápida do yuan pode reduzir competitividade externa, encarecendo exportações e apertando margens justamente num país que depende de vendas ao exterior.

Por outro lado, a diversificação pode ser vista como um colchão, já que a dívida dos Estados Unidos segue elevada e a necessidade de refinanciamento é constante, elemento que o investidor considera ao calibrar risco de longo prazo e precificação de juros.

Shutdown nos EUA e incerteza sobre dados econômicos

A percepção de instabilidade ganhou um capítulo adicional quando os Estados Unidos enfrentaram o maior shutdown de sua história, uma paralisação parcial que durou 43 dias e atrasou a divulgação de dados econômicos importantes, afetando séries como emprego e inflação.

Nesse período, analistas lembraram que o Fed costuma se dizer “dependente de dados” para conduzir a política monetária, o que elevou a incerteza sobre a leitura oficial da economia justamente quando o mercado já estava sensível a qualquer sinal de desaceleração.

A turbulência também alimentou revisões de estratégia em algumas tesourarias e gestoras, que passaram a discutir se o prêmio oferecido pelos ativos americanos compensa os riscos percebidos, sobretudo quando a taxa sobe em meio a vendas e aumenta o custo de financiamento do governo.

Índia reduz Treasuries e amplia diversificação em emergentes

O movimento não se restringe à China, e a Índia também reduziu sua exposição a Treasuries no início de 2026, atingindo o menor nível em cinco anos, numa estratégia associada à diversificação de reservas e ao suporte à moeda diante de um dólar mais fraco globalmente.

Embora cada país tenha motivações próprias, o ponto comum é a busca por menor dependência de um único emissor e por mais flexibilidade diante de choques, num cenário em que decisões políticas podem alterar rapidamente a percepção de risco e o fluxo de capitais.

Com a China dando sinais de cautela e outros emergentes ajustando posições, até que ponto esse redesenho silencioso das reservas internacionais pode mudar o equilíbrio do financiamento americano e a dinâmica global do dólar?

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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