No Brasil, a suspensão do tarifaço pela Suprema Corte reacende expectativa de alívio para café solúvel, uva, mel e pescados, que ficaram fora das isenções de 10% e 40%. Com 55% das exportações de 2024 cobertas, resta incerteza após Trump anunciar nova taxa global de 10% sem detalhar produtos atingidos.
O Brasil voltou a colocar no radar quatro segmentos que sentiram o impacto direto das tarifas americanas: café solúvel, uva, mel e pescados. A decisão da Suprema Corte de suspender o tarifaço anunciado por Trump reabre uma brecha para setores que dependem fortemente do mercado dos Estados Unidos e que não tinham sido incluídos nas isenções anteriores.
Ao mesmo tempo, o alívio ainda não é automático. Poucas horas depois do anúncio judicial, Trump falou em novas taxas globais de 10% e disse que assinaria uma ordem executiva, sem explicar quais mercadorias seriam atingidas. Para o Brasil, o resultado é um cenário de transição em que a regra muda, mas a insegurança permanece para quem exporta e para quem negocia contratos com prazos longos.
O que a suspensão do tarifaço muda na prática
Quando a Suprema Corte suspende um tarifaço, o efeito mais imediato é interromper a aplicação das alíquotas que estavam em vigor, ao menos até que a disputa jurídica seja resolvida ou que haja uma nova base legal para a cobrança.
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Para o Brasil, isso importa porque o custo adicional não afeta apenas o preço final, ele mexe com frete, seguros, margens, prazos de entrega e com a própria disposição do comprador americano de manter volumes.
Na ponta empresarial, tarifa não é um detalhe contábil, é um fator de decisão. Um importador dos EUA pode reduzir pedidos, exigir descontos, trocar origem do produto ou simplesmente adiar compras.
Por isso, a suspensão abre uma janela para retomar negociações, mas não elimina o risco, especialmente depois do anúncio de uma taxa global de 10% sem lista clara de produtos.
Por que parte do agro brasileiro ficou de fora das isenções
No fim de 2025, houve duas decisões que aliviaram parte das exportações. A primeira, em 14 de novembro, retirou a tarifa recíproca de 10% aplicada em abril para cerca de 200 produtos alimentícios de diversos países.
A segunda, em 20 de novembro, foi direcionada ao Brasil e suspendeu a sobretaxa de 40% anunciada em julho para mais de 200 itens, ampliando uma lista que já tinha quase 700 exceções.
Mesmo assim, a cobertura foi parcial. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estimou que a reversão alcançou 55% do valor exportado pelo Brasil aos EUA em 2024.
Entraram, por exemplo, o café em grão e a carne bovina, que figuram entre os itens mais vendidos ao mercado americano.
Já os 45% restantes incluíram setores que não lideram o ranking, mas têm dependência alta, como café solúvel, mel, pescados e uva.
Café solúvel: quando a tarifa muda o ranking e derruba volume
No caso do Brasil, o café solúvel tem um traço decisivo: presença histórica e contínua no varejo americano.
Em 2024, as vendas de solúvel para os EUA representaram 10% de toda a exportação da indústria brasileira de café, enquanto a maior parte do restante é de café em grão, que acabou contemplado por isenções.
O impacto do tarifaço foi sentido na dinâmica de mercado. Segundo o setor, no ano passado 38% do que os americanos importaram de café solúvel teve origem no Brasil, um nível que ajuda a explicar por que qualquer taxa adicional reorganiza concorrência, prateleira e contratos.
Após a taxa adicional de 40% imposta em julho, houve mudança no ranking de destinos e a Rússia assumiu posição de destaque em relação ao Brasil, algo apontado como inédito. E, desde então, o volume exportado para os EUA em agosto, setembro e outubro caiu cerca de 50% na comparação com o mesmo período de 2024.
Uva: exportação forte, exclusão e queda na negociação de preço
A uva entra nessa disputa por um motivo simples: ela estava sendo negociada com peso real no fluxo comercial com os EUA. Em 2024, o país foi destino de 12% de todas as frutas frescas exportadas pelo Brasil e, nesse recorte, apenas os exportadores de uva faturaram US$ 41,5 milhões, segundo a Abrafrutas.
Pelo AgroStat, 23% do total de uvas exportadas pelo Brasil em 2024 foram para os Estados Unidos, dado que evidencia como o mercado americano não é “mais um cliente”, ele é parte da sustentação do setor.
Com a escalada tarifária, veio o choque de demanda. Entre outubro e novembro, a comercialização de uvas para os EUA caiu 73% na comparação com o mesmo período de 2024. Embora existisse uma categoria de “frutas frescas” na lista de exceções publicada pela Casa Branca em novembro, a uva ficou fora, segundo confirmação do setor.
Uma explicação levantada foi o fato de os EUA também serem grandes produtores e projetarem supersafra, além da concorrência relevante de Chile e Peru.
Parte dos cachos que deixaram de ir para os EUA foi realocada para Europa e América do Sul, mas o prejuízo central apareceu na mesa de negociação: com menos demanda, cai o poder de barganha para defender preço.
Mel: dupla cobrança e dependência de um único comprador
Para o mel, a questão vai além do “tarifaço do momento”. Além da tarifa de 50% relacionada ao tarifaço, o mel brasileiro já estava sujeito a uma taxa de importação de 8,04% nos EUA, o que eleva o piso de custo mesmo antes de qualquer sobretaxa adicional.
Quando uma cadeia já opera com margens pressionadas, cada ponto percentual vira disputa por sobrevivência ao longo do caminho, do apicultor ao exportador.
O grau de dependência do mercado americano também chama atenção. De acordo com o AgroStat, os EUA representaram quase 80% de todas as exportações de mel natural do Brasil, um nível que concentra risco e reduz alternativas de curto prazo.
Houve relatos de contratos garantidos até dezembro de 2025 para parte das operações, o que ajuda a explicar por que mudanças repentinas em tarifa, lista de exceções e exigências burocráticas têm potencial de bagunçar planejamento, fluxo de caixa e renovação de acordos, especialmente em cooperativas e polos regionais.
Pescados: US$ 300 milhões por ano e impacto direto em comunidades
Nos pescados, o impacto é grande em valor e ainda maior em capilaridade social. Segundo a associação do setor, as vendas de pescados do Brasil para os Estados Unidos geram cerca de US$ 300 milhões por ano, e os americanos representaram quase metade de todas as exportações do alimento em 2024, conforme o AgroStat.
Isso significa que o efeito da tarifa não fica restrito a um punhado de grandes empresas, ele alcança uma rede extensa de fornecedores, processamento, logística e distribuição.
A leitura do setor é que as tarifas atingem com mais força onde a sensibilidade é maior, em pequenas e médias empresas e em cadeias que sustentam comunidades costeiras e ribeirinhas.
O tema também entrou no debate de estratégia comercial: o presidente da Abipesca defendeu urgência em recolocar o pescado brasileiro nas negociações bilaterais e resumiu a necessidade em uma frase curta, mas direta: “Precisamos de reciprocidade e de estratégia.”
A cada rodada em que o produto fica fora, a disputa por espaço tende a favorecer concorrentes internacionais que conseguem oferecer previsibilidade ao comprador americano.
Entidades e governo: segurança jurídica, silêncio estratégico e busca por informações
A reação institucional do Brasil foi heterogênea, e isso diz muito sobre o momento. A Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) avaliou que a decisão da Suprema Corte reforça a segurança jurídica e o respeito às competências legais nas relações comerciais internacionais.
Também apontou que medidas unilaterais, como o tarifaço, geram incerteza e efeitos em cadeia, do campo ao varejo.
Outras entidades adotaram postura mais cautelosa. Representantes de frutas, café solúvel e exportadores de café indicaram que ainda buscavam informações para entender os desdobramentos.
Já algumas associações e a CNA preferiram não se pronunciar naquele instante, sinal de que o Brasil ainda tentava medir o alcance real da suspensão e do anúncio de uma taxa global de 10%.
No governo, o vice-presidente Geraldo Alckmin classificou a decisão da Suprema Corte como importante e avaliou que a tarifa global de 10% preserva competitividade, enquanto Trump criticou publicamente a suspensão e prometeu avançar com novas cobranças.
O que o Brasil precisa observar a partir de agora
O ponto central, para o Brasil, é que a suspensão do tarifaço não resolve a disputa, ela reabre o jogo. A diferença entre “estar fora da isenção” e “voltar a ter chance” depende de detalhes que costumam aparecer em listas, anexos e ordens executivas: quais códigos de produto entram, qual alíquota vale, quando começa, se há exceções por categoria, e se o importador consegue internalizar a carga sem repassar integralmente.
Para quem exporta do Brasil, a prioridade vira gestão de incerteza. Isso passa por renegociar prazos, revisar cláusulas de preço ligadas a tarifa, diversificar destino quando possível e manter rastreabilidade e compliance para não perder espaço por motivos não tarifários.
E, do lado diplomático, a pressão setorial tende a crescer para que café solúvel, uva, mel e pescados não sejam novamente esquecidos nas próximas rodadas, justamente porque dependem de um mercado que paga volume, mas cobra previsibilidade.
No seu dia a dia, você sente que o Brasil deveria insistir mais em acordos para reduzir essa dependência do mercado americano, ou faz sentido priorizar os EUA mesmo com tanta oscilação? Se você trabalha com café, frutas, mel ou pescados, qual foi o efeito mais concreto que viu depois das tarifas: queda de pedido, renegociação de preço, troca de destino, ou dificuldade para fechar contrato novo?

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