Envelhecimento acelerado, menor expansão da força de trabalho e produtividade quase estagnada colocam o Brasil diante de uma mudança econômica decisiva, com efeitos sobre Previdência, mercado de trabalho, investimentos, arrecadação e capacidade de crescimento ao longo das próximas décadas.
Com o avanço do envelhecimento populacional, o crescimento brasileiro dependerá cada vez menos da entrada de novos trabalhadores e mais da capacidade de produzir melhor, enquanto aumenta a procura por aposentadorias, atendimento de saúde e outros serviços financiados pelo poder público.
Segundo as projeções mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a população do país deverá atingir o máximo de 220,4 milhões de habitantes em 2041 e, após esse ponto, recuar gradualmente até alcançar 199,2 milhões em 2070.
Entre 2000 e 2023, a participação das pessoas com 60 anos ou mais subiu de 8,7% para 15,6%, ao mesmo tempo que a idade média dos brasileiros chegou a 35,5 anos, mudança que já interfere no planejamento econômico nacional.
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Bônus demográfico perde força no Brasil
Ao longo do bônus demográfico, a proporção de pessoas em idade potencialmente ativa aumentou em relação ao restante da população, criando condições mais favoráveis para emprego, consumo e arrecadação, desde que houvesse vagas suficientes e ganhos duradouros de produtividade.
À medida que diminuem os nascimentos e cresce a sobrevivência em idades mais elevadas, esse impulso perde intensidade, movimento evidenciado pela queda da taxa de fecundidade de 2,32 filhos por mulher, em 2000, para 1,57 em 2023.
Nesse novo cenário, a expansão do contingente de trabalhadores tende a contribuir menos para o Produto Interno Bruto, o que obriga empresas e governos a obterem resultados maiores por pessoa ocupada e por cada hora efetivamente dedicada à produção.
Sem uma força de trabalho em crescimento contínuo, investimentos em educação, infraestrutura, inovação e tecnologia ganham importância estratégica, porque o país terá de ampliar sua economia principalmente por meio da eficiência, e não apenas pela incorporação de novos trabalhadores.
Produtividade do trabalho avança pouco
Dados do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, ligado à FGV IBRE, mostram que a produtividade agregada continuou avançando lentamente em 2025, embora tanto o emprego quanto o total de horas trabalhadas tenham aumentado durante o mesmo período.
Considerando as horas efetivamente trabalhadas, a produtividade cresceu 0,4% em 2025, enquanto os critérios baseados em horas habituais e população ocupada registraram avanços de 0,5% e 0,6%, respectivamente, conforme os indicadores divulgados pelo observatório.
Já no primeiro trimestre de 2026, a produtividade por hora efetivamente trabalhada recuou 0,5% na comparação anual, enquanto as medições por hora habitual e por pessoa ocupada apresentaram aumentos limitados a 0,5% e 0,4%.
Enquanto isso, o total de horas efetivamente trabalhadas avançou 2,4% e a população ocupada cresceu 1,5%, diferença que indica como a expansão recente ainda depende mais do uso adicional da mão de obra do que de ganhos de eficiência.
Envelhecimento amplia pressão sobre a Previdência
Com uma parcela maior de idosos, aumenta o número de beneficiários potenciais da Previdência, enquanto diminui proporcionalmente a base futura de contribuintes, combinação que pressiona as contas públicas quando o crescimento econômico e a formalização do emprego permanecem insuficientes.
Embora a reforma previdenciária de 2019 tenha alterado parâmetros de aposentadoria e ampliado o horizonte de financiamento do sistema, ela não eliminou os efeitos do envelhecimento, que tendem a recolocar novas adaptações no debate público.
Além da ampliação do número de beneficiários, o aumento da sobrevida prolonga o período médio de pagamento das aposentadorias, exigindo que futuras mudanças considerem a evolução demográfica sem provocar ajustes abruptos ou concentrados em uma única reforma.
A esperança de vida ao nascer chegou a 76,4 anos em 2023 e deverá atingir 83,9 anos em 2070, enquanto as pessoas com 60 anos ou mais poderão representar 37,8% de toda a população brasileira ao final desse intervalo.
Em termos absolutos, o grupo de idosos poderá alcançar 75,3 milhões de pessoas em 2070, cenário que exigirá planejamento para financiar benefícios previdenciários e ampliar serviços públicos sem comprometer outras áreas essenciais do orçamento nacional.
Crescimento econômico dependerá de eficiência
Para elevar a produtividade, a agenda inclui melhorar a educação básica e profissional, qualificar a infraestrutura, reduzir entraves regulatórios, estimular a concorrência, facilitar investimentos e acelerar a incorporação de tecnologias por empresas e órgãos públicos de diferentes setores.
Como essas medidas costumam produzir resultados graduais, o custo da demora cresce quando a quantidade de trabalhadores deixa de sustentar a expansão econômica, tornando cada ganho de eficiência mais relevante para renda, arrecadação, competitividade e equilíbrio fiscal.
Outra frente envolve ampliar a participação de mulheres, idosos interessados em permanecer ativos e grupos hoje afastados do mercado, desde que existam qualificação, condições adequadas de trabalho, proteção social e oportunidades formais em escala suficiente.
Em vez de contar apenas com o aumento da população ocupada, o Brasil precisará combinar responsabilidade previdenciária, inclusão produtiva e maior valor gerado por hora trabalhada, antes que o envelhecimento torne os ajustes econômicos mais caros e politicamente difíceis.
Com menos pessoas em idade de trabalhar e uma população idosa em rápida expansão, o país conseguirá acelerar essas mudanças antes que a pressão sobre a Previdência, os serviços públicos e o crescimento econômico se torne ainda mais difícil de administrar?
