A Austrália está construindo 10 quilômetros de túneis a até 58 metros abaixo de Brisbane — duas máquinas gigantes de 1.350 toneladas furaram por baixo do rio e do centro da cidade sem que ninguém na superfície percebesse
O Cross River Rail é o maior projeto de infraestrutura da história do estado de Queensland, na Austrália. Segundo o site oficial do projeto, a obra consiste em uma nova linha ferroviária de 10,2 quilômetros que inclui 5,9 quilômetros de túneis gêmeos escavados debaixo do centro de Brisbane.
Além disso, o túnel Brisbane abriga quatro novas estações subterrâneas — Boggo Road, Woolloongabba, Albert Street e Roma Street — que vão transformar o transporte urbano de uma das cidades que mais cresce na Austrália.
No ponto mais profundo, as máquinas tuneladoras chegaram a 58 metros abaixo da superfície de Kangaroo Point e a 42 metros abaixo do leito do rio Brisbane.
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Portanto, enquanto os moradores de Brisbane caminhavam pelas ruas, faziam compras e iam trabalhar, duas máquinas gigantes furavam silenciosamente debaixo de seus pés.
Duas máquinas de 1.350 toneladas cada — e 165 metros de comprimento

Conforme reportado pela International Railway Journal, o projeto utilizou duas TBMs (Tunnel Boring Machines) batizadas de Else e Merle — homenagens a mulheres pioneiras de Queensland.
De fato, cada máquina pesa 1.350 toneladas e mede 165 metros de comprimento — quase dois campos de futebol colocados em fila. Na prática, são fábricas móveis que escavam, revestem e consolidam o túnel em um único processo contínuo.
A TBM Else completou sua jornada de 294 dias abaixo do rio Brisbane e do centro da cidade. Consequentemente, os engenheiros celebraram o breakthrough — o momento em que a máquina emerge do outro lado do túnel — como um dos marcos mais importantes da engenharia australiana.
Da mesma forma que a Índia furou 14 km através do Himalaia, a Austrália escolheu enfrentar a complexidade de escavar por baixo de uma cidade viva e em funcionamento.
Escavar debaixo de uma cidade é diferente de furar montanhas
Em comparação com túneis em montanhas, escavar debaixo de uma metrópole apresenta desafios únicos. Sobretudo porque acima das TBMs havia prédios, fundações, redes de esgoto, cabos de energia, tubulações de gás e até restos arqueológicos.
Nesse sentido, os engenheiros usaram sensores de vibração instalados em edifícios na superfície para monitorar em tempo real qualquer movimento causado pela escavação abaixo.
Além do mais, o solo de Brisbane varia entre argila mole, arenito e rocha dura — exigindo que as TBMs ajustassem constantemente sua velocidade e pressão de corte.
Para ter uma ideia, quando a máquina passava debaixo do rio Brisbane, a pressão da água acima era tão intensa que qualquer falha na vedação do túnel poderia causar uma inundação catastrófica.
Ainda assim, nenhum edifício sofreu danos e nenhum morador relatou vibrações perceptíveis durante os 294 dias de escavação.
Quatro estações subterrâneas que vão transformar o transporte de Brisbane

Igualmente impressionante é a construção das quatro estações subterrâneas. Segundo o projeto oficial, cada estação está sendo escavada como uma caverna gigante debaixo do centro da cidade.
A estação de Albert Street, por exemplo, ficará diretamente abaixo de um dos quarteirões mais movimentados de Brisbane. No entanto, os passageiros descerão escadas rolantes até plataformas modernas a dezenas de metros de profundidade.
Dessa forma, Brisbane terá um sistema de metrô subterrâneo pela primeira vez em sua história — um salto tecnológico para uma cidade que até agora dependia exclusivamente de trens de superfície.
De A$ 5 bilhões para A$ 10 bilhões — o custo do túnel Brisbane quase dobrou
Apesar disso, o projeto enfrentou problemas sérios de custo e cronograma. Segundo a Wikipedia, o orçamento original era de A$ 5,4 bilhões. No entanto, o custo total já ultrapassou A$ 10,5 bilhões — quase o dobro.
Além do mais, greves trabalhistas e atrasos na construção empurraram a data de abertura de 2026 para 2029.
Por outro lado, defensores do projeto argumentam que o impacto de longo prazo justifica o custo: a nova linha vai reduzir o congestionamento no centro de Brisbane, criar uma alternativa ao trânsito de superfície e conectar bairros que antes exigiam baldeação.
Em comparação, o Brasil tem 14 mil obras de infraestrutura paradas que custaram R$ 9 bilhões sem entregar resultado. O túnel Brisbane, mesmo com custo dobrado, está sendo concluído.
Brisbane de 2029 vai ser uma cidade diferente por baixo da superfície

De acordo com projeções do governo de Queensland, quando o Cross River Rail entrar em operação, a capacidade ferroviária de Brisbane vai aumentar em 30%. Segundo especialistas, isso deve tirar milhares de carros das ruas diariamente.
Na prática, moradores de subúrbios do sul e do norte poderão cruzar o centro da cidade sem trocar de trem — algo impossível no sistema atual.
Em resumo, debaixo de Brisbane existe um mundo paralelo em construção: túneis, estações, plataformas e trilhos que ninguém vê da superfície.
Para colocar em perspectiva, o comprimento total dos túneis de Brisbane equivale a mais de 100 quadras da cidade. Se fossem colocados em linha reta na superfície, os túneis iriam da praia de Copacabana até o Maracanã no Rio de Janeiro.
Os túneis também foram projetados para suportar inundações de superfície sem comprometer o sistema. Brisbane sofreu cheias históricas em 2011 e 2022, e os engenheiros construíram barreiras e sistemas de drenagem específicos para proteger a infraestrutura subterrânea.
Ao mesmo tempo, a ventilação dos túneis foi projetada para reciclar o ar interno a cada 3 minutos, mantendo temperatura e qualidade do ar confortáveis para os passageiros mesmo nos dias mais quentes do verão australiano.
Será que cidades brasileiras como São Paulo e Rio — que sofrem com congestionamento crônico — deveriam olhar para o modelo de Brisbane e investir em metrôs subterrâneos profundos?
Por fim, o Cross River Rail mostra que é possível construir infraestrutura transformadora debaixo de uma cidade inteira sem que os moradores percebam — desde que haja engenharia de ponta, investimento e vontade política. Contudo, o custo dobrado e os atrasos de 3 anos também lembram que megaprojetos subterrâneos raramente saem conforme o planejado.
