Observações feitas com o radiotelescópio MeerKAT localizaram emissões de rádio no gigante Beta Pictoris b, um planeta com cerca de dez vezes a massa de Júpiter; descoberta abre uma nova forma de investigar campos magnéticos de mundos fora do Sistema Solar
Durante décadas, astrônomos conseguiram encontrar milhares de planetas fora do Sistema Solar observando pequenas alterações na luz das estrelas, movimentos gravitacionais e, em casos mais raros, fotografando diretamente esses mundos. Agora, uma equipe de pesquisadores afirma ter conseguido algo diferente: captar emissões de rádio e localizá-las diretamente em um exoplaneta.
O protagonista da descoberta é Beta Pictoris b, um gigantesco planeta localizado em um sistema a aproximadamente 63,4 anos-luz da Terra.
Os sinais foram detectados pelo MeerKAT, conjunto de radiotelescópios instalado na África do Sul, durante quatro períodos de observação realizados em 2025 e 2026. Segundo o estudo, foram encontrados pulsos rápidos e recorrentes, fortemente polarizados, além de uma emissão persistente entre 0,85 e 3,5 GHz.
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O feito é importante por um detalhe que muda completamente a história: emissões de rádio já haviam sido identificadas anteriormente em sistemas que possuíam exoplanetas, mas não era possível determinar de maneira inequívoca se a origem estava no próprio planeta ou na estrela.
Desta vez, os pesquisadores conseguiram apontar para o planeta.
E apesar de a palavra “sinal” imediatamente alimentar a imaginação sobre possíveis civilizações extraterrestres, não há qualquer indicação de uma transmissão artificial. A explicação proposta é muito mais física — e, para a astronomia, talvez ainda mais útil.
Não são alienígenas: os sinais parecem nascer de auroras gigantescas
O comportamento das ondas de rádio detectadas em Beta Pictoris b é compatível com um fenômeno conhecido como instabilidade maser ciclotrônica de elétrons, ou ECMI na sigla em inglês.
É um mecanismo associado à interação de partículas eletricamente carregadas com campos magnéticos e que também está relacionado às emissões de rádio produzidas por auroras em planetas do nosso próprio Sistema Solar.
Em outras palavras, Beta Pictoris b pode estar produzindo uma versão colossal de fenômenos que, na Terra, estão ligados às auroras boreais e austrais.
Os pulsos observados são rápidos, recorrentes e apresentam forte polarização circular — características usadas pelos pesquisadores para interpretar a emissão como sendo de natureza auroral.
Mas detectar uma aurora a mais de 63 anos-luz de distância não foi a única consequência da observação.
O sinal permitiu aos cientistas investigar algo invisível: o campo magnético do planeta.
Campo magnético de pelo menos 1.250 gauss surpreende astrônomos
A frequência máxima registrada possui uma relação física com a intensidade do campo magnético na região onde a emissão é produzida.
A partir desse dado, a equipe calculou que Beta Pictoris b possui um campo de pelo menos 1,25 kilogauss, ou cerca de 1.250 gauss, na região responsável pelas ondas de rádio.
É uma intensidade milhares de vezes superior à ordem de grandeza do campo magnético encontrado na superfície da Terra.
Segundo os autores, trata-se da primeira medição direta da intensidade de um campo magnético em um exoplaneta.
Esse talvez seja o aspecto mais importante da descoberta.
Um sinal de rádio chama atenção. A possibilidade de transformar essa emissão em uma ferramenta para medir campos magnéticos de mundos que estão a dezenas ou centenas de anos-luz de distância pode ter consequências muito maiores para a astronomia.
Campos magnéticos ajudam a revelar processos que acontecem no interior dos planetas e também influenciam a maneira como suas atmosferas interagem com partículas lançadas pelas estrelas.
Até agora, grande parte desse conhecimento fora do Sistema Solar precisava depender de modelos e inferências.
Beta Pictoris b oferece uma oportunidade de testar essas previsões com uma observação direta.
Beta Pictoris b é um gigante com cerca de dez vezes a massa de Júpiter
O planeta não se parece com a Terra.
Descoberto em 2008, Beta Pictoris b é um jovem gigante gasoso com massa estimada em aproximadamente dez vezes a de Júpiter, segundo a descrição utilizada pela ScienceAlert.
Ele também gira extremamente rápido.
Uma rotação completa leva apenas cerca de 8 a 9 horas, característica que pode estar relacionada à geração de seu poderoso campo magnético.
Beta Pictoris b faz parte de um sistema planetário que abriga pelo menos três planetas conhecidos: Beta Pictoris b, Beta Pictoris c e Beta Pictoris d.
Para determinar de onde exatamente vinham as ondas, a equipe utilizou objetos extremamente distantes e brilhantes em rádio, os quasares, como pontos de referência para ajustar a posição da emissão no céu.
Depois dessas correções, a fonte de rádio coincidiu com a posição de Beta Pictoris b e ficou significativamente incompatível com a localização da estrela hospedeira e de Beta Pictoris c.
Essa separação é justamente o que torna o resultado diferente das tentativas anteriores.
Astrônomos já haviam encontrado sinais suspeitos antes, mas havia uma dúvida fundamental
A busca por emissões de rádio de exoplanetas não começou agora.
Em 2020, por exemplo, pesquisadores relataram uma possível emissão relacionada ao sistema de Tau Boötis. O resultado era interessante, mas os próprios cientistas reconheceram que não conseguiam excluir completamente a possibilidade de a emissão ter origem estelar.
Outras observações também relacionaram atividade de rádio a sistemas contendo planetas.
O problema permanecia praticamente o mesmo: detectar ondas provenientes de um sistema planetário é uma coisa; demonstrar que o planeta é a própria fonte da emissão é outra.
É essa barreira que o estudo de Beta Pictoris b afirma ter ultrapassado.
A diferença pode parecer pequena fora da astronomia, mas é decisiva. Se a técnica funcionar em outros sistemas, radiotelescópios poderão deixar de apenas identificar atividade em torno de estrelas e passar a investigar diretamente as magnetosferas de planetas distantes.
Próxima geração de radiotelescópios pode permitir procurar outros mundos
Os pesquisadores já apontam para um próximo passo.
Segundo o estudo repercutido pela ScienceAlert, existem sete outros exoplanetas gigantes distribuídos por cinco sistemas estelares próximos que podem se tornar candidatos para observações semelhantes.
O problema é sensibilidade.
Os autores estimam que instrumentos aproximadamente cinco a sete vezes mais sensíveis poderiam colocar esses mundos ao alcance desse tipo de detecção.
Isso transforma Beta Pictoris b não apenas em uma curiosidade astronômica, mas potencialmente no primeiro representante de uma nova maneira de estudar exoplanetas.
A radioastronomia poderá ajudar a responder questões sobre magnetosferas, interiores planetários e interação entre planetas e suas estrelas sem que seja necessário chegar perto desses mundos — algo evidentemente impossível com a tecnologia disponível hoje.
Há, porém, uma ressalva essencial.
O trabalho de Kevin N. Ortiz Ceballos, Edo Berger e Yvette Cendes foi disponibilizado como preprint no arXiv e ainda não havia passado pelo processo de revisão por pares quando a descoberta foi divulgada. O resultado, portanto, é relevante e tecnicamente detalhado, mas ainda deverá passar pela avaliação independente da comunidade científica.
Se a interpretação for confirmada, Beta Pictoris b terá aberto uma janela que até agora permanecia praticamente fechada: a possibilidade de “escutar” diretamente o campo magnético de planetas localizados muito além do Sistema Solar.
Fonte principal: reportagem da ScienceAlert, publicada em 22 de setembro de 2026, baseada no estudo Discovery of radio emission from the exoplanet β Pictoris b, disponibilizado no arXiv.
