Um fluxo avermelhado que escapa do gelo antártico levou cientistas a investigar um sistema subterrâneo raro, onde química, clima extremo e microrganismos antigos transformaram a geleira Taylor em um dos pontos mais estudados do continente.
As chamadas Cachoeiras de Sangue, na geleira Taylor, na Antártida, são alvo de pesquisas por reunirem um fenômeno geológico incomum e um sistema microbiano extremo.
A coloração vermelha não tem relação com sangue nem com algas, mas com uma salmoura rica em ferro que sai do interior do gelo e oxida ao entrar em contato com o oxigênio da atmosfera.
Esse fluxo intermitente vem de um sistema de água salgada aprisionado sob a geleira e associado a microrganismos que sobrevivem sem luz solar e sem depender de oxigênio livre como base do metabolismo.
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Cor vermelha das Cachoeiras de Sangue na Antártida
O aspecto avermelhado que escorre pela borda da geleira Taylor resulta de uma reação química.
Quando a salmoura carregada de ferro emerge do interior do gelo, o ferro dissolvido entra em contato com o ar e forma óxidos de ferro, produzindo a aparência de ferrugem que mancha o gelo branco.
Pesquisas mais recentes substituíram interpretações antigas, levantadas no início do século 20, que associavam a cor à presença de algas.
O fluxo não ocorre como uma queda d’água permanente.

Na prática, trata-se de um extravasamento episódico de salmoura hipersalina, rica em ferro, que alcança a superfície em momentos específicos e deixa depósitos congelados de tonalidade vermelho-alaranjada na frente da geleira.
Foi esse contraste, observado desde a descoberta do local por Griffith Taylor, em 1911, que levou o fenômeno a ser estudado de forma contínua nos Vales Secos de McMurdo.
Salmoura sob a geleira Taylor
Estudos conduzidos por pesquisadores da University of Alaska Fairbanks e de outras instituições indicam que a fonte desse material é um sistema de salmoura aprisionado sob e dentro da geleira Taylor.
O mapeamento foi feito com radar de eco, técnica usada para detectar o caminho percorrido pelo fluido no interior do gelo.
Os dados apontam uma rota de centenas de pés a partir de um reservatório salino ligado a uma rede mais ampla de água subterrânea salobra na região.
A água permanece líquida apesar do frio intenso por causa de dois fatores combinados.
De um lado, a alta concentração de sais reduz o ponto de congelamento.
De outro, a liberação de calor associada ao próprio processo de congelamento ajuda a manter o fluxo em um ambiente onde a temperatura média anual do ar fica em torno de -17 °C.
Com base nesses estudos, pesquisadores descrevem a geleira Taylor como o glaciar mais frio conhecido a manter fluxo persistente de água.
Segundo explicações divulgadas pela NASA, a origem mais remota dessa salmoura remete a uma fase em que a área hoje ocupada pelos Vales Secos tinha ligação com o mar.
A região teria funcionado como um fiorde há milhões de anos.
Depois, com a mudança do clima, o recuo do mar e o avanço posterior da geleira, porções de água salgada e sais ricos em ferro ficaram aprisionadas e concentradas no subsolo gelado.
Microrganismos vivem sem luz solar
As análises do fluido expelido pela geleira mostram que o sistema abriga microrganismos capazes de sobreviver em escuridão permanente, sem fotossíntese, em água muito salgada e com disponibilidade limitada de nutrientes.
Em vez de usar luz para produzir energia, esses organismos recorrem a reações químicas envolvendo compostos de ferro e enxofre.
Trabalhos científicos descrevem esse metabolismo como um ciclo ligado à redução de ferro e sulfato.
Em termos práticos, isso significa que os micróbios exploram compostos inorgânicos presentes na salmoura e nas rochas abaixo do gelo para manter a atividade celular.
Por essa razão, o local passou a ser usado como exemplo de vida em condições extremas, distante dos ambientes em que a maior parte dos organismos terrestres se desenvolve.
A escala de isolamento também é tratada como um dos pontos centrais das pesquisas.
Fontes científicas e institucionais convergem ao apontar que esse ecossistema permaneceu separado do ambiente externo por um intervalo muito longo, medido em pelo menos 1,5 milhão de anos.
Outras descrições o situam, de forma mais ampla, em uma escala de mais de 2 milhão de anos ou de milhões de anos.
O ponto confirmado nas pesquisas é que se trata de uma comunidade microbiana antiga, preservada sob o gelo e adaptada a condições incomuns mesmo para a Antártida.
Astrobiologia e busca por vida fora da Terra
As Cachoeiras de Sangue também passaram a ser estudadas no campo da astrobiologia por funcionarem como um análogo planetário.
A NASA usa esse conceito para se referir a ambientes extremos da Terra que ajudam a orientar a busca por sinais de habitabilidade em outros corpos do Sistema Solar.
No caso da geleira Taylor, o interesse científico está na combinação entre água salgada líquida, isolamento físico, frio intenso, pouca energia disponível e vida microbiana sustentada por reações químicas, e não por luz.
Esse conjunto de características sustenta comparações com áreas geladas de Marte e com luas cobertas por gelo, como Europa, de Júpiter, e Enceladus, de Saturno.
As pesquisas, no entanto, não tratam essa semelhança como prova de vida fora da Terra.
Segundo agências e centros de estudo ligados ao tema, ambientes terrestres como Blood Falls ajudam a definir quais instrumentos, sinais químicos e tipos de amostras podem ser mais úteis na investigação de nichos potencialmente habitáveis em outros mundos.
Pesquisas científicas e preservação do local
A relevância científica do local também está ligada à preservação.
Como a descarga ocorre de forma episódica e o sistema é de difícil acesso, cada amostragem é tratada por pesquisadores como uma oportunidade restrita para estudar a química da salmoura, o comportamento dos microrganismos e a dinâmica do gelo em um ambiente polar extremo.
Além disso, o fenômeno fornece dados sobre circulação de água em geleiras frias, transporte de ferro e interação entre rocha, sal e vida microbiana sob a superfície antártica.
Ao mesmo tempo, as Cachoeiras de Sangue permanecem no centro de estudos que reúnem geologia, microbiologia e astrobiologia no mesmo cenário natural.
Sob uma frente de gelo aparentemente estática, há um sistema salino ativo, pressurizado e biologicamente habitado, revelado quando a salmoura alcança o exterior e oxida em contato com a atmosfera.

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