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As Cachoeiras de Sangue da Antártida escondem um ecossistema vivo preso sob o gelo há mais de 2 milhões de anos, onde micróbios sobrevivem sem luz, sem oxigênio e sem nunca terem visto o Sol

Escrito por Ana Alice
Publicado em 09/04/2026 às 23:58
Entenda o mistério das Cachoeiras de Sangue na Antártida e o ecossistema subglacial com micróbios isolados sob o gelo. (Imagem: Ilustrativa)
Entenda o mistério das Cachoeiras de Sangue na Antártida e o ecossistema subglacial com micróbios isolados sob o gelo. (Imagem: Ilustrativa)
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Um fluxo avermelhado que escapa do gelo antártico levou cientistas a investigar um sistema subterrâneo raro, onde química, clima extremo e microrganismos antigos transformaram a geleira Taylor em um dos pontos mais estudados do continente.

As chamadas Cachoeiras de Sangue, na geleira Taylor, na Antártida, são alvo de pesquisas por reunirem um fenômeno geológico incomum e um sistema microbiano extremo.

A coloração vermelha não tem relação com sangue nem com algas, mas com uma salmoura rica em ferro que sai do interior do gelo e oxida ao entrar em contato com o oxigênio da atmosfera.

Esse fluxo intermitente vem de um sistema de água salgada aprisionado sob a geleira e associado a microrganismos que sobrevivem sem luz solar e sem depender de oxigênio livre como base do metabolismo.

Cor vermelha das Cachoeiras de Sangue na Antártida

O aspecto avermelhado que escorre pela borda da geleira Taylor resulta de uma reação química.

Quando a salmoura carregada de ferro emerge do interior do gelo, o ferro dissolvido entra em contato com o ar e forma óxidos de ferro, produzindo a aparência de ferrugem que mancha o gelo branco.

Pesquisas mais recentes substituíram interpretações antigas, levantadas no início do século 20, que associavam a cor à presença de algas.

O fluxo não ocorre como uma queda d’água permanente.

"Cachoeiras de Sangue" na geleira de Taylor, que escorre para o Lago Bonney, na região de McMurdo na Antártica (National Science Foundation/Peter Rejcek/Divulgação)
“Cachoeiras de Sangue” na geleira de Taylor, que escorre para o Lago Bonney, na região de McMurdo na Antártica (National Science Foundation/Peter Rejcek/Divulgação)

Na prática, trata-se de um extravasamento episódico de salmoura hipersalina, rica em ferro, que alcança a superfície em momentos específicos e deixa depósitos congelados de tonalidade vermelho-alaranjada na frente da geleira.

Foi esse contraste, observado desde a descoberta do local por Griffith Taylor, em 1911, que levou o fenômeno a ser estudado de forma contínua nos Vales Secos de McMurdo.

Salmoura sob a geleira Taylor

Estudos conduzidos por pesquisadores da University of Alaska Fairbanks e de outras instituições indicam que a fonte desse material é um sistema de salmoura aprisionado sob e dentro da geleira Taylor.

O mapeamento foi feito com radar de eco, técnica usada para detectar o caminho percorrido pelo fluido no interior do gelo.

Os dados apontam uma rota de centenas de pés a partir de um reservatório salino ligado a uma rede mais ampla de água subterrânea salobra na região.

A água permanece líquida apesar do frio intenso por causa de dois fatores combinados.

De um lado, a alta concentração de sais reduz o ponto de congelamento.

De outro, a liberação de calor associada ao próprio processo de congelamento ajuda a manter o fluxo em um ambiente onde a temperatura média anual do ar fica em torno de -17 °C.

Com base nesses estudos, pesquisadores descrevem a geleira Taylor como o glaciar mais frio conhecido a manter fluxo persistente de água.

Segundo explicações divulgadas pela NASA, a origem mais remota dessa salmoura remete a uma fase em que a área hoje ocupada pelos Vales Secos tinha ligação com o mar.

A região teria funcionado como um fiorde há milhões de anos.

Depois, com a mudança do clima, o recuo do mar e o avanço posterior da geleira, porções de água salgada e sais ricos em ferro ficaram aprisionadas e concentradas no subsolo gelado.

Microrganismos vivem sem luz solar

As análises do fluido expelido pela geleira mostram que o sistema abriga microrganismos capazes de sobreviver em escuridão permanente, sem fotossíntese, em água muito salgada e com disponibilidade limitada de nutrientes.

Em vez de usar luz para produzir energia, esses organismos recorrem a reações químicas envolvendo compostos de ferro e enxofre.

Trabalhos científicos descrevem esse metabolismo como um ciclo ligado à redução de ferro e sulfato.

Em termos práticos, isso significa que os micróbios exploram compostos inorgânicos presentes na salmoura e nas rochas abaixo do gelo para manter a atividade celular.

Por essa razão, o local passou a ser usado como exemplo de vida em condições extremas, distante dos ambientes em que a maior parte dos organismos terrestres se desenvolve.

A escala de isolamento também é tratada como um dos pontos centrais das pesquisas.

Fontes científicas e institucionais convergem ao apontar que esse ecossistema permaneceu separado do ambiente externo por um intervalo muito longo, medido em pelo menos 1,5 milhão de anos.

Outras descrições o situam, de forma mais ampla, em uma escala de mais de 2 milhão de anos ou de milhões de anos.

O ponto confirmado nas pesquisas é que se trata de uma comunidade microbiana antiga, preservada sob o gelo e adaptada a condições incomuns mesmo para a Antártida.

Astrobiologia e busca por vida fora da Terra

As Cachoeiras de Sangue também passaram a ser estudadas no campo da astrobiologia por funcionarem como um análogo planetário.

A NASA usa esse conceito para se referir a ambientes extremos da Terra que ajudam a orientar a busca por sinais de habitabilidade em outros corpos do Sistema Solar.

No caso da geleira Taylor, o interesse científico está na combinação entre água salgada líquida, isolamento físico, frio intenso, pouca energia disponível e vida microbiana sustentada por reações químicas, e não por luz.

Esse conjunto de características sustenta comparações com áreas geladas de Marte e com luas cobertas por gelo, como Europa, de Júpiter, e Enceladus, de Saturno.

As pesquisas, no entanto, não tratam essa semelhança como prova de vida fora da Terra.

Segundo agências e centros de estudo ligados ao tema, ambientes terrestres como Blood Falls ajudam a definir quais instrumentos, sinais químicos e tipos de amostras podem ser mais úteis na investigação de nichos potencialmente habitáveis em outros mundos.

Pesquisas científicas e preservação do local

A relevância científica do local também está ligada à preservação.

Como a descarga ocorre de forma episódica e o sistema é de difícil acesso, cada amostragem é tratada por pesquisadores como uma oportunidade restrita para estudar a química da salmoura, o comportamento dos microrganismos e a dinâmica do gelo em um ambiente polar extremo.

Além disso, o fenômeno fornece dados sobre circulação de água em geleiras frias, transporte de ferro e interação entre rocha, sal e vida microbiana sob a superfície antártica.

Ao mesmo tempo, as Cachoeiras de Sangue permanecem no centro de estudos que reúnem geologia, microbiologia e astrobiologia no mesmo cenário natural.

Sob uma frente de gelo aparentemente estática, há um sistema salino ativo, pressurizado e biologicamente habitado, revelado quando a salmoura alcança o exterior e oxida em contato com a atmosfera.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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