Esqueleto de Ricardo III foi encontrado sob um estacionamento em Leicester, teve identidade confirmada por DNA e virou centro de visitantes.
Em agosto de 2012, uma escavação arqueológica em um estacionamento de Leicester, na Inglaterra, revelou um dos achados históricos mais surpreendentes do século XXI: os restos mortais de Ricardo III, rei da Inglaterra morto na Batalha de Bosworth em 1485. O local não era um castelo, uma catedral monumental ou um túmulo real preservado, mas uma área urbana comum usada como estacionamento. Segundo a University of Leicester, a busca pelos restos mortais do rei sob um estacionamento fez história e atraiu manchetes em todo o mundo.
A descoberta encerrou uma dúvida que atravessou séculos. Ricardo III havia sido morto em 22 de agosto de 1485, na fase final da Guerra das Rosas, e enterrado na igreja dos frades franciscanos conhecidos como Grey Friars, em Leicester. Com a dissolução do convento no século XVI, a igreja foi demolida, o local mudou de uso e o túmulo desapareceu da paisagem urbana. Segundo a University of Leicester, rumores chegaram a sustentar que os ossos do rei teriam sido retirados e jogados no rio Soar, versão que se manteve por muito tempo no imaginário local.
A escavação começou oficialmente em 24 de agosto de 2012, com participação da University of Leicester Archaeological Services, da prefeitura de Leicester e do projeto Looking for Richard, ligado a Philippa Langley e à Richard III Society. O objetivo inicial era localizar a antiga igreja de Grey Friars e testar a hipótese de que o corpo do rei ainda pudesse estar enterrado naquela área.
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Primeira vala aberta no estacionamento revelou sinais que mudaram a escavação inteira
O ponto mais impressionante do caso é que o achado apareceu logo no início da escavação. Segundo o King Richard III Visitor Centre, os restos mortais de Ricardo III foram encontrados na primeira vala aberta, apenas seis horas depois do início de uma escavação planejada para durar duas semanas.
A Leicester Cathedral registra que, em 25 de agosto de 2012, um osso da perna foi descoberto na primeira trincheira aberta. Poucos dias depois, entre 4 e 5 de setembro de 2012, o esqueleto completo foi revelado e removido para análise.

Segundo a University of Leicester, os arqueólogos perceberam que o corpo tinha características compatíveis com um sepultamento apressado. A universidade informa que não havia caixão, o corpo não havia sido cuidadosamente acomodado e a posição dos ossos indicava um enterro simples dentro da área do coro da antiga igreja de Grey Friars.
A localização foi decisiva. A universidade afirma que a sepultura estava dentro do coro da igreja, uma área religiosa de grande importância. Isso reforçou a hipótese de que os restos poderiam pertencer a alguém de status elevado, exatamente como os relatos históricos indicavam sobre o enterro de Ricardo III após Bosworth.
Curvatura na coluna, datação e DNA ajudaram a confirmar que o corpo era do rei
Após a retirada dos restos mortais, começou a etapa científica que transformou o achado em uma confirmação histórica. Segundo o King Richard III Visitor Centre, especialistas da University of Leicester usaram amostras de DNA para ligar o esqueleto a descendentes de Ricardo III. A datação por carbono também situou os ossos entre 1455 e 1540, intervalo compatível com a morte do rei em 1485.
A análise indicou ainda que os ossos pertenciam a um homem entre o fim dos 20 e o início dos 30 anos. Ricardo III morreu aos 32 anos, outro dado que reforçou a compatibilidade entre o esqueleto encontrado e o monarca desaparecido.

O esqueleto também apresentava uma curvatura na coluna. Segundo o King Richard III Visitor Centre, o exame confirmou que Ricardo III tinha escoliose, mas não sustentou representações posteriores que atribuíam a ele deformidades como braço atrofiado.
Em 4 de fevereiro de 2013, a University of Leicester anunciou que, após análises científicas extensas, podia confirmar que os restos encontrados eram de Ricardo III. Segundo o King Richard III Visitor Centre, a universidade confirmou a identidade com 99,999% de precisão.
Rei morto em batalha foi encontrado em uma área que quase ninguém associaria a um túmulo real
Ricardo III foi o último rei da Casa de York e morreu em uma das batalhas mais decisivas da história inglesa. Segundo a University of Leicester, ele foi morto em Bosworth Field, em Leicestershire, em 22 de agosto de 1485, quando liderou uma investida de cavalaria contra as forças de Henrique Tudor.
Mesmo assim, o corpo não permaneceu em um mausoléu real. Foi levado a Leicester e enterrado com pouca cerimônia na igreja dos Grey Friars. A Leicester Cathedral registra que o sepultamento teria ocorrido em 25 de agosto de 1485, no coro do antigo convento.
Com o passar dos séculos, a área foi sendo remodelada. A Leicester Cathedral registra que o priorado foi suprimido em 1538, os frades foram expulsos e o edifício acabou demolido. Depois, o terreno passou por novas ocupações, ruas foram abertas e construções modernas alteraram completamente a leitura histórica do espaço.
O resultado foi um dos contrastes arqueológicos mais fortes do Reino Unido: um rei medieval, morto em batalha e perdido por séculos, foi localizado sob um estacionamento urbano comum, ao lado de prédios modernos no centro de Leicester.
Antiga escola ao lado da descoberta virou centro de visitantes sobre a vida, morte e redescoberta de Ricardo III
Depois da confirmação da identidade, Leicester transformou o achado em um espaço permanente de visitação. Segundo o King Richard III Visitor Centre, uma antiga escola vizinha ao local da descoberta, a Alderman Newton’s Grammar School, foi comprada pela prefeitura de Leicester após a descoberta dos restos no estacionamento em agosto de 2012.
O edifício ficava ao lado do ponto onde os restos do rei foram encontrados e havia permanecido vazio desde 2008, quando a Leicester Grammar School deixou o local. A prefeitura adquiriu o imóvel em novembro de 2012 com o objetivo de criar um centro de visitantes dedicado à busca, à descoberta e à identificação de Ricardo III.
O King Richard III Visitor Centre abriu ao público em 26 de julho de 2014. Segundo o próprio centro, a antiga escola vitoriana foi transformada em um espaço expositivo moderno, mantendo características arquitetônicas do prédio e usando tecnologia do século XXI para contar a vida, a morte e a redescoberta do rei.
O centro fica em 4A St Martins, Old Town, Leicester, e integra a narrativa do antigo convento de Grey Friars, da escavação arqueológica e da identificação científica. O local se consolidou como uma das principais atrações históricas da cidade justamente por ocupar a região onde o mistério foi resolvido.
Reenterro em 2015 levou milhares de pessoas à Catedral de Leicester
A história não terminou com a identificação científica. Após debates públicos e disputas sobre o destino final dos restos mortais, Ricardo III foi reenterrado na Catedral de Leicester em março de 2015. Segundo a Leicester Cathedral, os restos chegaram à catedral em 22 de março de 2015, após passarem pelo campo de Bosworth e por localidades ligadas ao último trajeto do rei.
Entre 23 e 25 de março de 2015, o caixão permaneceu em repouso na catedral. A Leicester Cathedral informa que mais de 20 mil pessoas visitaram o local para prestar homenagem ao rei durante esse período.
O serviço de reenterro aconteceu em 26 de março de 2015. Segundo a Leicester Cathedral, os restos de Ricardo III foram novamente colocados sob a terra em um espaço criado dentro da catedral. A cerimônia teve transmissão ao vivo pelo Channel 4 para uma audiência mundial estimada em 350 milhões de pessoas.
No dia seguinte, em 27 de março de 2015, a nova lápide do túmulo foi revelada ao público. O processo encerrou uma jornada histórica que começou com uma hipótese arqueológica, passou por uma vala aberta em um estacionamento e terminou com o reenterro formal de um rei inglês mais de cinco séculos depois de sua morte.
Descoberta de Ricardo III virou um dos maiores casos modernos de arqueologia urbana
O caso de Ricardo III se tornou um marco porque uniu documentação histórica, arqueologia urbana, análise de ossos, datação por carbono e DNA. A busca partiu de uma área aparentemente comum, mas localizada sobre a região do antigo convento onde os registros históricos indicavam que o rei havia sido enterrado.
A University of Leicester afirma que a descoberta capturou manchetes em todo o mundo. O impacto veio da raridade do achado: não era apenas a localização de uma estrutura antiga, mas a identificação de um rei desaparecido havia mais de 500 anos.
A descoberta também reposicionou Leicester no mapa do turismo histórico. O que antes era um estacionamento passou a ser associado a uma das investigações arqueológicas mais conhecidas do Reino Unido, com centro de visitantes, túmulo na catedral e uma rota histórica ligada ao último rei inglês morto em batalha.
O antigo terreno asfaltado deixou de ser apenas uma área urbana comum. Ele passou a representar o ponto em que ciência, história e arqueologia resolveram um mistério que atravessou gerações e transformaram uma vala aberta no chão em uma das descobertas mais famosas da Inglaterra moderna.

