Dos cinco Beluga ST produzidos, quatro já foram aposentados em cidades como Bordeaux e Toulouse, um será transformado em sala de aula no Reino Unido, e apenas o F-GSTC “3” continua voando com futuro indefinido
Após anos desempenhando um papel estratégico no transporte de grandes componentes aeronáuticos, o Airbus Beluga ST (A300-600ST) caminha para sua retirada definitiva. A aeronave foi durante décadas um dos elementos centrais da complexa logística industrial da Airbus, garantindo que peças produzidas em diferentes países chegassem às linhas de montagem dentro de prazos extremamente rigorosos.
Depois de tentar uma segunda vida no mercado civil de cargas especiais — iniciativa que não teve sucesso comercial — o modelo agora enfrenta um futuro incerto, com apenas uma unidade ainda operacional.
Uma aeronave criada para resolver um desafio industrial
O Beluga ST entrou em serviço em 1995, desenvolvido a partir da plataforma do Airbus A300-600. Seu objetivo era claro: transportar componentes de grande porte entre as fábricas da Airbus espalhadas pela Europa.
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Apesar de seu formato pouco convencional, o design priorizava funcionalidade. O compartimento de carga superdimensionado permitia transportar estruturas que simplesmente não caberiam em aeronaves cargueiras tradicionais.
Com capacidade para até 47 toneladas e espaço interno suficiente para acomodar peças de até 30 metros de comprimento, o Beluga ST podia transportar, por exemplo, uma asa completa por voo.
Durante anos, isso foi suficiente para sustentar o ritmo de produção da fabricante.

O aumento da produção exigiu uma solução maior
Com o crescimento da demanda por aeronaves comerciais e a intensificação do modelo de produção baseado em logística just in time, o Beluga ST começou a mostrar limitações.
Rotas como a que liga Broughton (Reino Unido) — onde são fabricadas as asas — às linhas de montagem final em Toulouse (França) e Hamburgo (Alemanha) tornaram-se cada vez mais exigentes.
Para manter os prazos com o modelo antigo, a Airbus teria que:
- Aumentar o número de aeronaves na frota
- Ou ampliar significativamente as horas de voo
Diante desse cenário, a empresa optou por substituir gradualmente os ST pelo BelugaXL, versão ampliada capaz de transportar duas asas por viagem, dobrando a eficiência em determinadas rotas críticas.
A frota de seis BelugaXL assumiu oficialmente o papel principal na logística interna da Airbus e permanece ativa nessa função.
A tentativa de uma segunda vida comercial
Mesmo após deixar a operação logística principal, os Beluga ST ainda tinham potencial operacional. Projetados para cerca de 40.000 horas de voo, a Airbus estimava, em 2022, que as aeronaves retiradas da logística interna ainda poderiam voar por até 20 anos adicionais.
Com essa perspectiva, foi criada a Airbus Beluga Transport (AiBT), uma companhia aérea dedicada ao transporte de cargas superdimensionadas.
Em novembro de 2023, a AiBT obteve o Certificado de Operador Aéreo (AOC) e iniciou operações comerciais. O foco era atender um nicho específico:
- Transporte de satélites
- Motores aeronáuticos
- Helicópteros
- Maquinário industrial pesado
O momento parecia estratégico. Aeronaves tradicionalmente utilizadas nesse segmento, como os Antonov An-124, estavam sendo direcionadas para demandas relacionadas ao conflito entre Rússia e Ucrânia, reduzindo sua disponibilidade no mercado internacional.

Falta de demanda e encerramento imediato
Apesar do contexto aparentemente favorável, o mercado não respondeu como esperado. Aproximadamente um ano após o início das operações, a Airbus anunciou o encerramento imediato da Airbus Beluga Transport.
Segundo a empresa, não houve demanda externa suficiente para sustentar economicamente o transporte aéreo de cargas de grande dimensão com o Beluga ST.
O projeto, portanto, foi encerrado antes de atingir maturidade comercial.
A situação atual das cinco aeronaves
Ao todo, foram produzidas cinco unidades do Beluga ST. Hoje, apenas uma permanece em operação:
- F-GSTC (“3”) — única aeronave ainda ativa.
As demais já foram aposentadas ou aguardam definição de destino:
- F-GSTA (“1”) — aposentado em Bordeaux, em 21 de abril de 2021.
- F-GSTB (“2”) — retirado em 18 de dezembro de 2025, também em Bordeaux.
- F-GSTD (“4”) — aposentado em Toulouse, em 17 de setembro de 2025.
- Quinta unidade — encerrou operações em Broughton, em 29 de janeiro.
- F-GSTF (“5”) — terá destino educacional, sendo convertido em uma sala de aula interativa voltada a estudos STEM no Reino Unido.
O futuro da unidade ainda ativa permanece indefinido.
Espanha não preservará nenhum exemplar
A Espanha também não deverá manter nenhuma unidade do modelo em exposição permanente.
Situação semelhante ocorreu anteriormente com o Super Guppy, antecessor do Beluga ST. Embora estivesse previsto que uma unidade fosse destinada ao Museu do Ar de Getafe, a proposta foi rejeitada por falta de espaço. A aeronave acabou sendo vendida à NASA, onde continuou operando por anos.
O mesmo ocorreu com o protótipo do Airbus A400M, que estava em Sevilha. Em vez de ser preservado, foi desmontado. Enquanto isso, outras unidades do programa encontram-se expostas no Museu Aeroscopia, na França, e em instalações da Airbus em Bremen.

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