Crise energética, escassez e colapso produtivo colocam em xeque um dos maiores símbolos de luxo do mundo, enquanto trabalhadores enfrentam realidade cada vez mais dramática na ilha
A poucos passos do movimento intenso de Havana Velha, o cenário dentro de uma tradicional loja de charutos revela uma realidade silenciosa e preocupante. Prateleiras vazias, portas fechadas e um mercado que, até pouco tempo atrás, simbolizava luxo e tradição, agora luta para sobreviver. Esse contraste, por si só, já evidencia a profundidade da crise que atinge Cuba.
Nesse contexto, a situação se agravou drasticamente após o bloqueio de petróleo imposto pelos Estados Unidos, que interrompeu o fluxo de energia essencial para a economia cubana. Como consequência direta, a indústria de charutos — uma das mais emblemáticas do país — passou a enfrentar um colapso sem precedentes.
De acordo com informações divulgadas por “Al Jazeera”, conforme reportagem internacional recente, o impacto do bloqueio vai muito além da política e atinge diretamente a produção, logística e até a sobrevivência de milhares de trabalhadores do setor.
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Impacto direto: falta de combustível paralisa produção, transporte e colheita de tabaco
Antes de tudo, é importante entender a dimensão do problema. Cuba depende de importações para cerca de 60% de seu petróleo. No entanto, desde janeiro, após ameaças de tarifas por parte do governo dos EUA a países fornecedores, esse fluxo praticamente cessou.
Como resultado, apenas um único navio russo conseguiu chegar à ilha, transportando cerca de 730 mil barris de petróleo — quantidade suficiente para abastecer o país por pouco mais de uma semana. Ou seja, trata-se de um alívio temporário diante de uma crise estrutural.
Além disso, os efeitos são visíveis no cotidiano: apagões frequentes, incluindo três colapsos totais da rede elétrica somente neste ano. Consequentemente, setores inteiros da economia foram afetados, especialmente a agricultura.
Atualmente, cerca de 50% das plantações de tabaco em Pinar del Río — principal região produtora — dependem de sistemas de irrigação elétricos. Sem energia, a produção sofre quedas significativas.
Por outro lado, o transporte também se tornou um gargalo crítico. A escassez de combustível dificulta o envio das folhas de tabaco até Havana, onde são tradicionalmente enroladas à mão em fábricas estatais. E, como se não bastasse, a falta de eletricidade compromete o funcionamento dessas instalações.
Dessa forma, a cadeia produtiva inteira entra em colapso, evidenciando como a crise energética impacta diretamente um dos setores mais importantes da economia cubana.
Produção despenca, preços disparam e mercado global começa a sentir os efeitos

Apesar das dificuldades, o tabaco ainda representa o principal produto de exportação de Cuba. Em 2024, o país registrou uma receita recorde de quase US$ 827 milhões com a venda de charutos.
Entretanto, esse número esconde uma realidade preocupante. A produção caiu drasticamente nos últimos anos. Para se ter ideia, em 2024 foram exportados cerca de 50 milhões de charutos, pouco mais da metade dos 93,9 milhões registrados em 2018.
Além disso, os dados agrícolas mostram um cenário ainda mais crítico. Em 2022, o furacão Ian destruiu até 90% dos galpões de secagem de tabaco em Pinar del Río. Como consequência, apenas 5.150 hectares foram plantados naquele ano — o menor nível já registrado.
Mesmo com tentativas de recuperação, o governo cubano não conseguiu atingir a meta de 12.152 hectares para a safra 2025-2026, que já havia sido reduzida anteriormente devido às chuvas intensas.
Diante da escassez, uma estratégia adotada foi o aumento de preços. Na Espanha, por exemplo, um charuto Cohiba Siglo VI passou de 37,80 euros em janeiro de 2022 para 105 euros atualmente — um aumento impressionante de aproximadamente 178%.
Contudo, essa alta não se reflete na renda dos trabalhadores. Pelo contrário: muitos continuam recebendo salários extremamente baixos, evidenciando um desequilíbrio crescente dentro do setor.
Trabalhadores sofrem com salários baixos, êxodo populacional e crise social profunda
Enquanto os números do mercado ainda impressionam, a realidade nas ruas de Havana é bem diferente. Trabalhadores da indústria relatam dificuldades cada vez maiores para sobreviver.
Um exemplo emblemático é o de uma funcionária com 16 anos de experiência na produção de charutos, que recebe cerca de 6.000 pesos cubanos por mês — o equivalente a aproximadamente US$ 12 no mercado informal. Para efeito de comparação, um único charuto Cohiba pode custar até US$ 116, ou seja, quase 10 vezes o salário mensal dessa trabalhadora.
Além disso, a crise energética impacta diretamente o dia a dia da população. Com o transporte público praticamente paralisado pela falta de combustível, muitos trabalhadores são obrigados a caminhar longas distâncias — em alguns casos, até 4 quilômetros — apenas para chegar em casa.
Nesse cenário, não surpreende o aumento do êxodo populacional. Desde a pandemia, Cuba perdeu até um quarto de sua população, em um dos maiores fluxos migratórios de sua história recente.
Como consequência, a falta de mão de obra qualificada se tornou outro problema crítico. Algumas fábricas, que antes operavam com 400 funcionários, hoje funcionam com apenas 80 — ou seja, apenas um quinto da capacidade original.
O futuro dos charutos cubanos está ameaçado? Especialistas divergem sobre o destino da indústria
Diante desse cenário, especialistas apontam que o futuro da indústria de charutos cubanos é incerto. Por um lado, há quem acredite que a escassez pode aumentar ainda mais o valor dos produtos, transformando-os em itens ainda mais exclusivos no mercado global.
Por outro lado, há um limite para essa estratégia. Segundo analistas do setor, aumentos constantes de preços podem afastar consumidores ao longo do tempo, reduzindo a demanda.
Além disso, fatores como mudanças climáticas, crises econômicas recorrentes e escassez de trabalhadores indicam que os desafios devem continuar — ou até se intensificar.
Enquanto isso, concorrentes regionais como Nicarágua e República Dominicana ganham espaço no mercado internacional, oferecendo charutos de qualidade a preços mais acessíveis.
Portanto, o que se desenha é um cenário de transformação global no setor, onde o domínio histórico de Cuba pode estar, finalmente, sendo questionado.

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