Eddie Smith Jr. transformou uma pequena fabricante de barcos em dificuldades em uma companhia rentável por décadas. Quando chegou o momento de definir sua sucessão, rejeitou propostas milionárias e criou um modelo para preservar o negócio, os empregos e financiar projetos sociais no futuro.
Ele poderia ter vendido tudo.
Quando Eddie Smith Jr. assumiu a Grady-White Boats, em 1968, tinha apenas 26 anos, economias próprias, dinheiro emprestado pelo pai e uma empresa em dificuldades diante dele.
Décadas depois, aquela aposta se transformaria em uma fabricante reconhecida no setor náutico, com centenas de funcionários e cerca de 50 anos consecutivos de lucratividade. Mas a decisão que mais chama atenção veio quando Smith já estava na casa dos 80 anos: em vez de aceitar ofertas superiores a US$ 400 milhões, ele escolheu outra forma de decidir o futuro da companhia.
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Aos 26 anos, ele comprou uma empresa que lutava para sobreviver
Fundada em 1959, a Grady-White enfrentava dificuldades no fim da década de 1960, justamente quando o setor começava a mudar rapidamente com a expansão dos barcos produzidos em fibra de vidro.
Smith enxergou oportunidade onde havia risco.
Para adquirir a empresa, colocou suas próprias economias no negócio e recorreu a um empréstimo feito pelo pai. Nos primeiros anos, segundo relato publicado pela People, chegou a trabalhar até 100 horas por semana enquanto tentava reorganizar a operação e colocar a fabricante novamente de pé.
O processo não trouxe uma transformação imediata. Foram anos de reinvestimento, mudanças na produção e construção de uma marca voltada principalmente para barcos de pesca e lazer.
Com o tempo, o cenário mudou completamente.
A Grady-White tornou-se uma das fabricantes conhecidas do setor nos Estados Unidos e passou a acumular décadas de resultados positivos, mantendo sua produção em Greenville, na Carolina do Norte.
O negócio cresceu, mas vender nunca virou o objetivo principal

Depois de quase seis décadas sob o controle da mesma família, o tamanho da companhia começou a despertar o interesse de compradores.
Quando Smith passou a estudar alternativas para sua sucessão, surgiram propostas superiores a US$ 400 milhões pela Grady-White.
Financeiramente, vender poderia significar encerrar sua trajetória empresarial com uma das maiores decisões patrimoniais de sua vida.
Ele recusou.
Smith temia que um novo controlador alterasse práticas que haviam se tornado parte da empresa, incluindo participação nos lucros, investimentos nos funcionários, padrões de qualidade e a relação mantida com clientes, revendedores e a comunidade local.
Havia ainda uma questão pessoal que tornava a sucessão mais delicada.
A morte do filho mudou os planos para o futuro da companhia
Durante anos, Smith imaginou que o negócio continuaria dentro da família.
Seu filho, Chris Smith, era apontado como sucessor. O plano, porém, foi interrompido após Chris ser diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, a ELA, em 2019.
Ele morreu em 2021.
Um ano antes, em fevereiro de 2020, Eddie também havia perdido a esposa, Jo Allison Smith, com quem permaneceu casado por cerca de 57 anos.
Sem o sucessor que imaginava para o negócio, Smith precisava encontrar uma estrutura que permitisse à Grady-White continuar funcionando depois dele sem transformar a empresa apenas em um ativo a ser vendido.
Em vez de receber US$ 400 milhões, ele criou uma estrutura para manter a empresa independente
A resposta foi anunciada em julho de 2026.
Smith transferiu o controle da Grady-White para um modelo formado por um Perpetual Purpose Trust, estrutura criada para preservar os objetivos da empresa no longo prazo, e uma organização sem fins lucrativos.
O trust passou a controlar as ações com direito a voto, protegendo a independência da fabricante. Ao mesmo tempo, 95% do interesse econômico da companhia foi destinado à estrutura sem fins lucrativos.
Na prática, a Grady-White continuará produzindo e vendendo barcos normalmente.
A diferença está no destino de parte importante do valor gerado.
Depois das reinversões necessárias para manter e ampliar o negócio, os recursos distribuídos pela companhia poderão financiar projetos ligados principalmente a educação, saúde, conservação ambiental e necessidades de comunidades do leste da Carolina do Norte.
A decisão transforma o lucro em um legado que pode continuar depois dele
Smith não abandonou uma empresa sem valor.
Fez a escolha depois de receber propostas acima de US$ 400 milhões e após transformar um negócio em dificuldades em uma companhia que atravessou décadas de crescimento e rentabilidade.
A nova estrutura também mantém executivos profissionais responsáveis pela operação, enquanto Smith passa a ocupar uma posição de CEO emérito, conselheiro e representante da marca.
A intenção é impedir que a empresa construída desde 1968 termine vendida apenas para maximizar o retorno financeiro de seus proprietários.
Aos 83 anos, depois de passar quase seis décadas dentro do mesmo negócio, Eddie Smith Jr. decidiu que o último capítulo da Grady-White não seria escrito pelo maior cheque oferecido por ela.
Seria escrito pelo que a empresa poderá financiar depois que ele já não estiver lá.

