Pedreiro Silvestre Ramon Brizola voltou a estudar após 41 anos, conciliou trabalho e EJA e recebeu o diploma do ensino médio aos 63 anos.
Quatro décadas separaram Silvestre Ramon Brizola de uma sala de aula. Aos 63 anos, o pedreiro venezuelano que vive em Mato Grosso encerrou essa longa interrupção ao vestir beca e capelo pela primeira vez e receber o diploma de conclusão do ensino médio. Para chegar à formatura, ele conciliou a jornada profissional com seis meses de estudos pela Educação de Jovens e Adultos (EJA).
A cerimônia ocorreu na quarta-feira, 19 de agosto, e reuniu 22 trabalhadores que concluíram etapas da educação básica por meio de uma parceria entre a construtora São Benedito e o Serviço Social da Indústria de Mato Grosso (Sesi-MT). O formato permitiu que parte da formação acontecesse dentro da própria empresa, reduzindo uma das dificuldades enfrentadas por quem precisa trabalhar e estudar simultaneamente.
Sala de aula foi levada para dentro do local de trabalho
Em vez de exigir deslocamentos frequentes após o expediente, a organização do curso aproximou os estudos da rotina dos funcionários. Os encontros presenciais aconteciam uma vez por semana no próprio local de trabalho, enquanto a maior parte das atividades ficava disponível pela internet.
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Na metodologia adotada pelo Sesi-MT, 80% da carga horária é cumprida de maneira online e os outros 20% presencialmente. Nos dias sem encontro, cada aluno pode acessar a plataforma no horário e no local que melhor se encaixem em sua rotina.
Para trabalhadores que passaram anos longe da escola, essa flexibilidade abriu espaço para retomar uma formação interrompida por diferentes motivos. A proposta atende desde os anos finais do ensino fundamental até o ensino médio e pode ser seguida posteriormente por cursos de qualificação profissional.
Silvestre trabalha desde os 16 anos e chegou ao Brasil há oito
O novo diploma representa uma etapa incomum na trajetória de Silvestre. Ele começou a trabalhar aos 16 anos e permaneceu 41 anos afastado dos estudos antes de retornar à educação formal.
Nascido na Venezuela, chegou ao Brasil há oito anos em busca de novas oportunidades. Atualmente funcionário da construtora envolvida no projeto, encontrou justamente no ambiente profissional a possibilidade de concluir uma etapa escolar que havia ficado para trás.

Na formatura, a emoção estava ligada também a uma experiência inédita. Silvestre contou que era a primeira vez que se sentia reconhecido como estudante e defendeu que a idade não deve impedir alguém de continuar quando surge uma oportunidade.
“Não importa a idade. Se temos a oportunidade de continuar, não podemos parar”, afirmou.
Outra trabalhadora também recuperou um desejo adiado desde a infância
Entre os 22 formandos estava Luisa Rosa de Oliveira, de 59 anos, funcionária de serviços gerais. Sua história de afastamento da escola começou muito antes da vida adulta.
Natural de São Paulo, ela deixou os estudos ainda criança depois de passar por sucessivas mudanças de endereço. Posteriormente, trabalho e responsabilidades familiares dificultaram uma tentativa de retorno.
A vontade, porém, permaneceu.
Luisa relatou que pensava havia bastante tempo em estudar novamente, mas costumava adiar a decisão por causa do cansaço da rotina profissional. Ter aulas no próprio emprego mudou essa equação, porque reduziu a necessidade de encaixar mais um deslocamento na semana.
Filha ajudou a mãe nas atividades escolares
O retorno de Luisa criou uma inversão dentro da própria família. Durante anos, ela havia se dedicado a garantir que os filhos estudassem; quando chegou sua vez de voltar à escola, passou a contar com a ajuda da filha.
Daiane Rosa acompanhou o processo e auxiliou a mãe nas atividades. Ela lembrou que Luisa precisou trabalhar desde cedo e não teve as mesmas oportunidades educacionais que procurou oferecer aos próprios filhos.
A conclusão do curso representou, assim, mais do que o cumprimento de uma carga horária. O acesso às aulas permitiu recuperar um objetivo que havia sido repetidamente adiado pela necessidade de trabalhar e cuidar da família.
EJA tenta encaixar educação na rotina de quem já está no mercado de trabalho
A experiência dos formandos ajuda a explicar a organização escolhida para o programa.

Segundo Pollyana Coelho, gerente do Sesi Escola Várzea Grande, o modelo procura ampliar o acesso de trabalhadores à educação básica e criar condições para que a formação seja compatível com a vida profissional.
Os conteúdos online concentram a maior parte do curso, enquanto os encontros presenciais mantêm o acompanhamento direto dos alunos. Dependendo do calendário, esses momentos podem ocorrer uma vez por semana.
A parceria pode avançar além da escolarização básica. Depois da conclusão dos anos finais do ensino fundamental ou do ensino médio, os participantes podem encontrar possibilidades de qualificação voltadas às demandas profissionais.
Diploma encerra uma espera de 41 anos para o pedreiro
Para Silvestre, a formatura colocou lado a lado duas identidades que durante décadas permaneceram separadas: a de trabalhador e a de estudante.
O pedreiro que começou a trabalhar ainda adolescente precisou esperar até os 63 anos para participar de uma cerimônia desse tipo. Foram apenas seis meses na etapa mais recente dos estudos, mas eles vieram depois de um intervalo de 41 anos fora da escola.
Ao receber o diploma, Silvestre não estava sozinho. Outros 21 trabalhadores chegaram ao mesmo momento por trajetórias diferentes, entre eles Luisa, que também precisou reorganizar uma vida inteira de responsabilidades para retomar os estudos.
A conclusão do ensino médio não apaga o tempo em que a educação precisou ficar em segundo plano. Para Silvestre, porém, transformou uma oportunidade surgida dentro do próprio trabalho em um marco pessoal que ele nunca havia experimentado: ser reconhecido, aos 63 anos, também como estudante.
