Victory Yinka-Banjo concluiu o ensino médio em uma escola de Surulere, em Lagos, e se inscreveu em dezenas de instituições porque achava que nenhuma a aceitaria. A cobertura da CNN é de 30 de abril de 2021. Ela queria estudar biologia computacional.
Ela se inscreveu em tantas universidades por um motivo pouco heroico. Achava que seria rejeitada em todas. Foi essa a explicação que a estudante nigeriana Victory Yinka-Banjo, então com 17 anos, deu à CNN ao comentar as 19 ofertas de bolsa integral que recebeu de universidades dos Estados Unidos e do Canadá, em reportagem publicada em 30 de abril de 2021.
O conjunto das propostas somava mais de 5 milhões de dólares, segundo documentos citados pela emissora. Entre as instituições estavam Yale, Princeton, Harvard, Brown, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Stanford, Johns Hopkins e a Universidade da Virgínia.
De onde ela veio

Victory estudou na Princeton Schools, em Surulere, bairro de Lagos, maior cidade da Nigéria. Concluiu o ensino médio em 2020.
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A família tem trajetória acadêmica e profissional consolidada. A mãe, Chika Yinka-Banjo, é professora sênior da Universidade de Lagos, e o pai, Adeyinka Banjo, é executivo da área de compras e cadeia de suprimentos no setor privado. Na escola, ela ocupou os cargos de representante estudantil máxima e de presidente do conselho de representantes dos alunos.
As notas que abriram as portas
O desempenho acadêmico dela é o que sustenta a história. No exame de conclusão do ensino médio da África Ocidental, aplicado na Nigéria e em países vizinhos, ela obteve a nota máxima nas nove disciplinas que prestou.
No exame internacional de Cambridge, inscreveu-se em seis matérias e alcançou distinção em todas as seis. No teste padronizado exigido pelas universidades americanas, o SAT, fez 1540 pontos de um total possível de 1600. No exame de proficiência em inglês, obteve 8,5 de 9. Semanas antes, havia sido classificada como melhor do mundo em inglês como segunda língua, na modalidade de expressão oral, pelo sistema de exames internacionais de Cambridge.
O que ela disse sobre as ofertas
A reação dela mistura orgulho e incredulidade. Ao ser procurada pela emissora, afirmou que ainda parecia inacreditável e explicou que se candidatou a tantas instituições justamente porque não imaginava que alguma a aceitaria.
Sobre o efeito das propostas, foi mais direta. Disse que elas a fizeram andar mais ereta, sorrir mais e dar tapinhas nas próprias costas com mais frequência, e acrescentou que estava começando a perceber que merecia aquilo. Também comentou o grau de dificuldade envolvido, observando que os processos de admissão daquelas universidades são extremamente seletivos e aceitam apenas os melhores.
O que ela pretendia estudar

O curso escolhido não é dos mais óbvios para quem acumula notas máximas em várias áreas. Ela queria cursar biologia computacional, campo que combina biologia, ciência da computação e estatística.
À época da reportagem, ainda não havia decidido para onde iria. Contou que seguia pesquisando sobre as instituições no topo da lista dela, entre elas Stanford, Harvard, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Duke e Johns Hopkins, comparando cada uma delas com atenção antes de escolher.
As ofertas canadenses
Nem todas as propostas vieram dos Estados Unidos. No Canadá, ela recebeu duas bolsas de destaque, ambas altamente concorridas no circuito internacional.
A primeira foi a Lester B. Pearson, da Universidade de Toronto, destinada a estudantes internacionais de desempenho excepcional. A segunda foi a Karen McKellin International Leader of Tomorrow, da Universidade da Colúmbia Britânica, voltada a alunos estrangeiros que demonstram liderança e enfrentam barreiras financeiras. Ela também constava como bolsista de um programa de apoio a candidatos internacionais desde 2020.
O ponto que a mãe fez questão de destacar
A mãe dela apresentou uma observação que muda a leitura do caso e que costuma passar despercebida em manchetes sobre estudantes africanos aprovados em universidades americanas.
Segundo Chika Yinka-Banjo, é relevante notar que a filha não é uma nigeriana-americana, categoria que costuma entrar nessas instituições com a vantagem de ter nascido e crescido nos Estados Unidos. Ela completou o ensino médio na Nigéria, e a mãe manifestou o desejo de que a história servisse para inspirar outros jovens do país a acreditar que também conseguem.
Os números que divergem entre as publicações

Vale registrar uma discordância nas coberturas. A CNN, e praticamente todos os veículos que a reproduziram, informam 19 ofertas de bolsa integral.
Já o portal nigeriano The Source registra que 20 instituições dos Estados Unidos e do Canadá ofereceram admissão a ela, e que 17 dessas ofertas incluíam bolsa integral. A diferença provavelmente decorre da distinção entre carta de aceitação e concessão efetiva de bolsa, categorias que nem sempre coincidem nos processos americanos.
O que uma bolsa integral cobre
O valor total de 5 milhões de dólares assusta, mas vale entender de onde ele vem. Bolsa integral em universidade americana de elite não cobre apenas mensalidade.
O pacote costuma incluir também moradia, alimentação, seguro-saúde, material didático e, em alguns casos, passagem aérea e ajuda de custo. Considerando que a graduação dura quatro anos e que o custo anual dessas instituições passa facilmente dos 70 mil dólares, cada oferta individual já se aproxima de 300 mil dólares. É a soma de 19 pacotes desse porte que produz o número de 5 milhões, e não uma quantia que ela receberia em dinheiro.
O que a história mostra e o que não mostra
Convém ser preciso sobre o alcance do caso. Ele demonstra que estudante formado inteiramente em escola nigeriana consegue competir com candidatos do mundo inteiro nos processos mais seletivos que existem, o que é exatamente o ponto que a mãe dela fez questão de sublinhar.
O que não demonstra é que o caminho esteja disponível a qualquer um. O percurso dependeu de escola particular que oferecia currículo internacional de Cambridge, de acesso a exames padronizados caros, de programa de apoio a candidaturas internacionais e de família com formação universitária capaz de orientar o processo. Nada disso reduz o mérito das notas, que são dela. Apenas descreve as condições que tornaram possível chegar até a inscrição. As informações desta matéria correspondem a abril de 2021.
E você, sabia que uma bolsa integral em universidade americana cobre bem mais que a mensalidade? Conta aqui nos comentários se conhece alguém que estudou fora com bolsa, e diga o que na sua opinião falta para que mais estudantes brasileiros disputem esse tipo de vaga.
