Os Sundarbans ocupam o delta dos rios Ganges, Brahmaputra e Meghna, entre Índia e Bangladesh, e formam a maior floresta contínua de mangue do planeta. Os tigres-de-bengala que vivem ali adaptaram-se a uma vida quase anfíbia e nadam longas distâncias entre os canais.
Um bosque de água salgada cortado por uma rede de canais de maré, bancos de lama e ilhas cobertas de árvores que resistem ao sal. É assim que a Unesco descreve os Sundarbans, que se estendem pelos deltas dos rios Ganges e Brahmaputra, entre a Índia e Bangladesh, e formam a maior floresta de mangue do mundo.
O tamanho é o que dá a dimensão: 10 mil quilômetros quadrados de terra e água, conforme registra a ficha do Centro do Patrimônio Mundial da Unesco. Para efeito de comparação, o município de São Paulo tem cerca de 1.521 quilômetros quadrados, o que coloca o manguezal em torno de seis vezes e meia a maior cidade brasileira. E dentro dele vivem tigres que aprenderam a nadar.
O único mangue do mundo com tigre

Este é o dado que separa os Sundarbans de qualquer outro manguezal do planeta. Segundo a ficha da Unesco sobre o parque nacional indiano, o habitat de mangue abriga a maior população isolada de tigres do mundo, e esses animais se adaptaram a uma vida quase anfíbia.
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A descrição oficial é explícita quanto ao comportamento: eles são capazes de nadar longas distâncias e se alimentam de peixe, caranguejo e lagartos monitores. Não é anedota de guia turístico, está no texto do órgão que classificou a área como Patrimônio Mundial. Levantamentos científicos apontam travessias de 15 a 20 quilômetros por rios de maré, embora estudo publicado sobre a área indiana registre também relutância dos animais em cruzar canais muito largos, o que combinado ao tráfego comercial de barcos e à elevação do nível do mar cria risco real de fragmentação da população.
Dez mil km², mas divididos como?
Aqui aparece uma inconsistência curiosa dentro da própria Unesco. A ficha do Sundarbans National Park, do lado indiano, afirma que mais da metade dos 10 mil quilômetros quadrados está na Índia e o restante em Bangladesh. Já a ficha do sítio The Sundarbans, do lado bengali, informa exatamente o contrário: 60% da propriedade estaria em Bangladesh e o resto na Índia.
Levantamentos acadêmicos tendem a confirmar a segunda versão. Um deles calcula a área florestal total em 10.277 quilômetros quadrados, sendo 4.260 na Índia, ou 41,45%, e 6.017 em Bangladesh, ou 58,55%. A área total é consenso, a divisão entre os dois países não é. Vale ainda uma distinção técnica: os Sundarbans são a maior floresta contínua de mangue do mundo, mas a maior cobertura total de manguezais de um único país é da Indonésia, cujas áreas estão espalhadas pelo arquipélago em vez de formar um bloco único.
Quantos tigres existem ali, afinal

A contagem é outro ponto em que os números públicos não conversam entre si, e a diferença é grande demais para ser ignorada. A ficha da Unesco referente ao lado bengali estima a população de tigres-de-bengala entre 400 e 450 indivíduos, com densidade maior que a de qualquer outra população de tigres do mundo.
Estimativas baseadas em armadilhas fotográficas apontam para menos da metade disso. Um levantamento cita 214 animais no total, sendo 100 na porção indiana e 114 na bengali. Outro estudo, publicado em periódico científico, estima 76 tigres apenas na área indiana, com intervalo entre 59 e 110, e menciona que registros oficiais dos departamentos florestais dos dois países falavam em cerca de 250 e 440 animais, enquanto dados de câmera indicavam algo em torno de 180. A diferença entre 180 e 450 não é detalhe estatístico, é a diferença entre uma população estável e uma população em risco, e ela depende do método usado na contagem.
Tigres menores em água cada vez mais salgada
O ambiente moldou o animal. Estudos sobre a região registram que os tigres dos Sundarbans pesam em torno de 100 quilos, bem abaixo da média de 180 quilos observada em populações continentais, fenômeno descrito como nanismo adaptativo, que ajuda na sobrevivência em terreno alagado e hostil.
O contexto ambiental piora a conta. A salinidade dos rios da região aumentou cerca de 15% em duas décadas, segundo o mesmo levantamento, com efeito sobre a saúde dos tigres e sobre a disponibilidade de presas. A elevação do nível do mar e o encolhimento da própria floresta empurram tigres e pessoas para o mesmo espaço, aumentando a chance de encontros.
A fama de comedores de homens tem número

A Unesco registra que os tigres da região são conhecidos como devoradores de homens, e atribui isso à frequência relativamente alta de encontros com a população local. Os números históricos são duros.
Registros de conflito da década de 1860 indicam 4.218 pessoas mortas por tigres em apenas seis anos. Entre os anos 1950 e 1970, cerca de 800 pessoas foram mortas ao longo de duas décadas no território ainda não dividido. Quem entra na floresta para pescar, coletar mel ou cortar madeira é quem corre o risco, e é justamente essa a rotina de trabalho das comunidades que vivem no entorno.
O que mais vive dentro do manguezal
Tigre é o animal que dá manchete, mas está longe de ser o único. A Unesco descreve o local como um dos ambientes naturais biologicamente mais produtivos do planeta e lista 260 espécies de aves, além do crocodilo de estuário e da píton indiana entre as espécies ameaçadas.
A diversidade vegetal também é registrada: 334 espécies de plantas, 165 de algas e 13 de orquídeas. A espécie símbolo do ecossistema é a Heritiera fomes, conhecida como sundari, árvore que provavelmente deu nome à região. Há ainda golfinhos do Ganges nos canais. O sítio entrou na Lista do Patrimônio Mundial pelos critérios ix e x, que tratam de processos ecológicos em curso e de conservação da biodiversidade, com o lado indiano inscrito em 1987.
As canções que nasceram do medo do tigre
A relação entre gente e floresta produziu um patrimônio cultural próprio, transmitido de geração em geração. O Jhumur é uma arte performática tribal com melodias e letras que refletem crenças locais, dificuldades e a convivência com a natureza, retratando com frequência desastres naturais e ataques de tigres.
O Bonbibir Pala é um drama folclórico que celebra a proteção da deusa Bonbibi sobre a região, narrando seu reinado e estabelecimento ali. Já o Bhatiyali é a música folclórica de barqueiros e pescadores, com canções sobre tempestades, ataques de tigres e as características dos cursos de água que precisam navegar. São três formas de arte em que o tigre aparece não como símbolo, mas como risco de trabalho. A Unesco trata esse conjunto como patrimônio vivo associado ao sítio natural.
Dez mil quilômetros quadrados de floresta salgada, canais de maré que mudam com o ciclo da água e uma população de tigres que ninguém consegue contar com precisão. É um dos poucos lugares do mundo onde o principal predador terrestre nada melhor do que a maioria dos turistas.
Conta nos comentários: você faria um passeio de barco por um lugar onde tigres cruzam rios a nado? E na sua opinião, o que deveria ter prioridade em um território assim, a conservação da floresta e da fauna ou a segurança de quem depende dela para pescar e coletar mel todos os dias?
