Escavação sob uma antiga prisão de Jerusalém revelou uma estrutura defensiva de 2.100 anos, preservada sob sucessivas camadas históricas. O achado monumental será integrado a uma nova galeria, onde um piso de vidro permitirá observar as ruínas exatamente no local em que permaneceram enterradas.
Uma obra destinada a transformar uma antiga prisão de Jerusalém em espaço de exposição revelou uma estrutura defensiva construída há cerca de 2.100 anos, preservada sob o edifício conhecido como Kishle, que integra o complexo do Museu da Torre de Davi.
Escondida sob o piso de uma das alas, a fundação da muralha hasmoneia possui quase 50 metros de extensão e aproximadamente 5 metros de largura, dimensões que a colocam entre os trechos contínuos mais expressivos já escavados desse sistema de fortificação.
Para alcançar a estrutura, os arqueólogos retiraram manualmente do salão uma quantidade de terra e entulho equivalente ao volume de duas piscinas olímpicas, trabalho que expôs uma longa base de pedras responsável por sustentar parte das antigas defesas de Jerusalém.
-
Escócia ergue duas cabeças de cavalo com 30 metros de altura e 300 toneladas cada, reveste as esculturas com 928 painéis únicos de aço inoxidável e transforma o interior em uma aventura com escadas, cabos e plataformas suspensas que levam visitantes até a boca de um dos maiores monumentos equinos do mundo
-
Mosaico romano de mais de 150 m² e cerca de 1.700 anos é desenterrado por acaso durante a ampliação de uma rodovia em Israel, revelando animais exóticos, peixes, navios mercantes e monstros marinhos no caminho das máquinas
-
Em vez de desmontar teatro histórico de 3.700 toneladas que ocupava o terreno de um novo complexo, engenheiros ergueram o prédio, apoiaram tudo em 32 roletes e moveram a estrutura por 51 metros no coração da Times Square
-
Brasil importa bombas fabricadas sob medida na Dinamarca por R$ 1,5 milhão para ilha a 545 quilômetros de Recife e cria reserva para usina que puxa água do Atlântico, abastece 65% de Fernando de Noronha e produz até 1,7 milhão de litros por dia
Segundo a Associated Press, a muralha protegia uma área urbana maior do que os limites atuais da Cidade Velha, revelando como o traçado da capital se expandia além das fronteiras que hoje orientam a percepção de moradores, pesquisadores e visitantes.
Muralha de 2.100 anos ficará sob piso de vidro
Após a descoberta, o espaço deixou de ser tratado apenas como uma área arqueológica e passou a integrar o projeto da nova galeria, que prevê a instalação de um piso flutuante de vidro diretamente sobre as ruínas preservadas.
Sob essa superfície elevada, os visitantes poderão atravessar o salão enquanto observam a construção antiga abaixo dos próprios pés, sem contato direto com os blocos e sem retirar a muralha do ponto exato em que ela foi encontrada.
Em vez de transferir as pedras para vitrines isoladas, o Museu da Torre de Davi pretende manter todo o conjunto em seu contexto original, incorporando a estrutura à futura Ala Schulich de Arqueologia, Arte e Inovação.
Ao combinar circulação pública e preservação, o projeto aproxima a arqueologia da experiência cotidiana do museu, permitindo que diferentes períodos históricos permaneçam visíveis no mesmo ambiente, sem apagar as marcas deixadas por cada uso anterior do edifício.
Antiga prisão de Jerusalém reuniu diferentes funções
Muito antes de se tornar parte de um museu, o Kishle já concentrava quase dois séculos de transformações, pois foi erguido em 1830 como base militar e, posteriormente, adaptado para funcionar como prisão em uma área estratégica de Jerusalém.
Durante o Mandato Britânico, o prédio continuou sendo usado pelas autoridades até a década de 1940, período cujos vestígios ainda permanecem nas paredes, no teto e nos corredores que sobreviveram às sucessivas mudanças de ocupação.
Entre essas marcas estão inscrições feitas por detentos em inglês, hebraico e árabe, além de restos das grades de ferro das antigas celas, elementos que continuarão expostos quando o espaço receber a nova função museológica.
Embora grande parte do edifício permaneça ligada à polícia israelense, uma das alas foi desativada e transferida ao Museu da Torre de Davi, movimento que abriu caminho para as escavações e para a adaptação do local.
Escavações atravessaram diferentes períodos históricos
Os primeiros trabalhos arqueológicos começaram no fim da década de 1990, mas foram interrompidos durante a Segunda Intifada, deixando partes importantes do salão ainda cobertas por terra, entulho e estruturas acumuladas ao longo de diferentes épocas.
Anos depois, a pesquisa foi retomada por equipes que voltaram a remover manualmente o material depositado no interior do prédio, alcançando áreas do local nunca examinadas por completo e revelando uma sequência contínua de ocupações históricas.
Além da fundação hasmoneia, os arqueólogos encontraram cavidades associadas ao tingimento de tecidos durante a Idade Média, prova material de que o mesmo espaço recebeu atividades econômicas muito antes da construção militar do século XIX.
Reunidos no mesmo ambiente, esses vestígios mostram como o local mudou repetidamente de função, passando por usos defensivos, artesanais, militares, prisionais e, agora, museológicos, sem que as camadas anteriores fossem completamente apagadas pela passagem do tempo.
Fortificação pertence ao período do Reino Hasmoneu
Construída durante o período do Reino Hasmoneu, a muralha surgiu após a revolta dos macabeus e algumas décadas depois dos acontecimentos ligados à origem do Hanukkah, integrando um sistema defensivo que cercava a Jerusalém daquele momento histórico.
Com quase 50 metros de comprimento, o trecho escavado corresponde aproximadamente à metade de um campo de futebol, enquanto a base de 5 metros de largura sustentava paredes maiores do que as muralhas atuais da Cidade Velha.
Registros históricos citados pela Associated Press descrevem dezenas de torres de vigilância distribuídas ao longo do antigo sistema defensivo, algumas com mais de 10 metros de altura e posicionadas para acompanhar o relevo ao redor da área urbana.
Essas dimensões ajudam a explicar por que a fundação precisava ser tão larga, já que os blocos sustentavam uma barreira capaz de proteger a cidade contra cercos, disputas territoriais e mudanças sucessivas de governo naquele período.
Base preservada revela a escala da antiga defesa
Durante a escavação, os pesquisadores perceberam que a parte superior da muralha havia sido desmontada até uma altura relativamente uniforme, enquanto a fundação permaneceu protegida sob construções posteriores e atravessou séculos sem desaparecer completamente ao longo do tempo.
Essa preservação permitiu analisar um trecho longo e contínuo, em vez de pequenos fragmentos isolados, oferecendo uma leitura mais clara do traçado defensivo e da relação entre a fortificação, o terreno e as construções erguidas posteriormente.
Ao observar a sequência das pedras, os arqueólogos puderam compreender melhor a escala do conjunto e a maneira como a muralha acompanhava o espaço que, muitos séculos depois, receberia instalações militares, celas, corredores e áreas administrativas.
Preservada no subsolo, a estrutura também funciona como uma ligação física entre períodos normalmente apresentados separadamente, reunindo para o público a Jerusalém hasmoneia, as atividades medievais e a antiga prisão em uma única área visitável.
Nova galeria manterá as marcas dos prisioneiros
A proposta da nova galeria não se limita a exibir a muralha, pois o projeto também preservará as inscrições deixadas pelos prisioneiros e os restos das grades que ainda registram os usos do Kishle nos séculos XIX e XX.
Enquanto o piso de vidro permitirá enxergar as ruínas abaixo, paredes, teto e corredores continuarão apresentando marcas mais recentes, criando uma leitura vertical da história, desde a fortificação antiga até o período de funcionamento da prisão.
A intervenção será realizada após o encerramento da etapa arqueológica, e a adaptação do salão deve exigir pelo menos dois anos de obras para instalar a superfície elevada e preparar a circulação segura dos visitantes.
Durante esse processo, a instituição pretende garantir a preservação das ruínas no subsolo, evitando o contato direto com os blocos e mantendo acessíveis as evidências materiais que transformaram o antigo espaço de confinamento em área de exposição.
Quando a galeria estiver aberta, o público atravessará uma antiga prisão transformada em museu, observando sob os pés uma muralha de 2.100 anos e, ao redor, inscrições e grades que registram outros capítulos da história do edifício.
Diante de tantas camadas preservadas no mesmo espaço, você atravessaria um piso transparente sabendo que, poucos centímetros abaixo, permanece uma muralha construída há mais de dois milênios para proteger uma cidade muito maior do que a atual Cidade Velha?
