Anomalias magnéticas medidas por aviões e drones ajudam cientistas a identificar falhas, intrusões de magma e possíveis depósitos minerais no subsolo.
Um novo processamento de dados permitiu observar com mais clareza uma grande formação subterrânea no Território do Norte, na Austrália, sem exigir escavações, perfurações ou outra campanha aérea. O resultado demonstra como as anomalias magnéticas podem transformar alterações extremamente pequenas no campo da Terra em pistas sobre rochas localizadas a quilômetros de profundidade.
O avanço ocorreu na análise da Australia Magnetic Anomaly, estrutura cujo formato lembra o contorno do continente australiano. A formação já era conhecida, mas algoritmos modernos retiraram distorções de levantamentos anteriores e revelaram detalhes relacionados a materiais vulcânicos e sedimentares depositados há mais de 1,5 bilhão de anos.
Anomalias magnéticas funcionam como assinaturas das rochas
Duas amostras com aparência semelhante podem produzir respostas magnéticas muito diferentes. Isso acontece porque alguns minerais, entre eles magnetita, titanomagnetita, hematita e pirrotita, interferem localmente no campo que envolve o planeta.
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Na Geofísica, a anomalia corresponde à diferença entre o valor previsto para uma região e aquele efetivamente registrado pelos instrumentos. Embora algumas variações sejam de apenas poucos nanoteslas, magnetômetros sensíveis conseguem captá-las e fornecer indícios sobre composição, profundidade, tamanho e orientação das formações enterradas.
As rochas também podem conservar uma magnetização adquirida quando se formaram ou durante acontecimentos geológicos posteriores. Dessa maneira, o sinal atual carrega informações sobre condições existentes há milhões ou até bilhões de anos.

Aviões registram anomalias magnéticas perto da superfície
Em levantamentos regionais, aeronaves percorrem trajetórias paralelas, geralmente a cerca de 100 metros do terreno. O magnetômetro fica afastado da estrutura principal do avião para diminuir as interferências provocadas por metais, circuitos elétricos e outros componentes.
Durante o percurso, o sensor produz dezenas ou centenas de registros a cada segundo. Ao final do voo, porém, os cientistas ainda possuem somente um grande volume de dados brutos, misturando a resposta das rochas com oscilações naturais do campo terrestre e ruídos gerados pela própria operação.
Programas de processamento corrigem variações de navegação, compensam a influência da aeronave e retiram a parcela principal do magnetismo produzido no núcleo do planeta. Depois dessas etapas, os sinais associados à crosta tornam-se mais evidentes.
Computadores transformam medições em mapas subterrâneos
Filtros matemáticos ajudam a separar respostas originadas perto do solo daquelas relacionadas a corpos rochosos mais profundos. Técnicas de inversão geofísica calculam, então, quais combinações de materiais poderiam produzir os valores encontrados pelos sensores.
Esses cálculos permitem criar representações bidimensionais e tridimensionais. Os mapas podem destacar falhas, diques, zonas de cisalhamento, antigas intrusões de magma, limites entre diferentes rochas e áreas com possível concentração mineral.
Apesar da comparação frequente com um raio X, o resultado não equivale a uma fotografia direta do interior terrestre. Uma mesma medição pode ser explicada por estruturas com diferentes formatos, dimensões, profundidades ou quantidades de minerais magnéticos.
Anomalias magnéticas precisam de outras técnicas científicas
Para reduzir dúvidas, a magnetometria costuma ser combinada com métodos que analisam propriedades distintas. A gravimetria identifica diferenças de densidade, enquanto técnicas elétricas e eletromagnéticas avaliam a capacidade dos materiais de conduzir ou resistir à passagem de corrente.
Os levantamentos sísmicos investigam como ondas atravessam as rochas. A gamaespectrometria mede a emissão natural de elementos como potássio, urânio e tório, ajudando a diferenciar formações que apresentam respostas magnéticas parecidas.
A integração desses resultados orienta os locais que merecem estudos mais detalhados e reduz a área destinada a perfurações. Assim, a técnica diminui incertezas e direciona a investigação, embora não forneça todas as respostas de maneira isolada.
Dados antigos podem produzir descobertas novas
O estudo australiano mostra que acervos coletados décadas atrás ainda podem guardar informações desconhecidas. Softwares mais recentes conseguem remover artefatos, ampliar a resolução e testar modelos computacionais que não estavam disponíveis na época das medições.
Esse reaproveitamento evita a repetição imediata de campanhas caras e permite revisar extensas regiões com ferramentas mais avançadas. Países que preservam levantamentos geofísicos históricos, incluindo o Brasil, possuem bases de dados que podem voltar a ser exploradas cientificamente.
O potencial atual da Geofísica, portanto, não depende apenas de sensores novos. Parte dos avanços pode surgir de uma interpretação diferente de registros que já estavam armazenados.
Drones refinam áreas indicadas pelas anomalias magnéticas
Aviões tripulados são eficientes para investigar grandes territórios. Depois da identificação de uma área relevante, drones equipados com magnetômetros podem voar mais próximos do chão e produzir um retrato de maior resolução.
Esses equipamentos detalham locais selecionados antes de etapas mais caras, como sondagens. Na prospecção mineral, o método auxilia na localização de falhas, fraturas e outras estruturas associadas a ambientes onde podem ocorrer ouro, cobre, níquel e minério de ferro.
A técnica não confirma sozinha a existência de uma jazida. Ela indica regiões com características geológicas que justificam novas análises.
Brasil possui levantamentos desde a década de 1950
Os primeiros aerolevantamentos brasileiros remontam ao início dos anos 1950, em São João del-Rei, Minas Gerais. Sensores magnéticos e radiométricos foram utilizados para investigar grandes extensões e apoiar a busca por minerais radioativos.

Atualmente, parte dos dados produzidos por programas públicos está disponível no Serviço Geológico do Brasil. Os levantamentos contribuíram para pesquisas em Carajás, no Quadrilátero Ferrífero, no Tapajós, em Rondônia, Goiás, Bahia e no Escudo Sul-rio-grandense.

Registros magnéticos também tiveram importância na história da ciência. As faixas descobertas no fundo dos oceanos durante as décadas de 1950 e 1960 ajudaram a comprovar a expansão do assoalho oceânico e fortaleceram a Teoria da Tectônica de Placas.
Anomalias magnéticas não são a AMAS
As variações usadas para estudar o subsolo são produzidas pelas rochas da crosta e possuem caráter regional. Elas não devem ser confundidas com a Anomalia Magnética do Atlântico Sul, conhecida como AMAS.
A AMAS está ligada a processos no núcleo externo da Terra e à configuração global do campo magnético. Seus efeitos incluem menor proteção contra partículas energéticas em uma extensa área sobre o Atlântico Sul, situação relevante para satélites e espaçonaves.
Já as anomalias magnéticas crustais permitem reconstruir formações geológicas, selecionar áreas de interesse mineral e examinar partes profundas do planeta. Ao reunir sensores, física, geologia e computação, os cientistas transformam variações invisíveis em mapas sobre a estrutura e a história da Terra.
Com informações do Olhar Digital
