O bairro medieval encontrado sob um canteiro de obras em Ghent reúne mais de 200 esqueletos, fundações de igreja, quartéis, uma ponte de madeira e resíduos domésticos, preservados abaixo da fortaleza erguida por ordem de Carlos V após a revolta da cidade belga contra novos impostos municipais no século XVI.
Um bairro medieval soterrado há quase cinco séculos reapareceu durante obras na Spaanskasteelplein, em Ghent, na Bélgica. A escavação, encerrada no início de março de 2026, revelou mais de 200 esqueletos, fundações de uma igreja, construções militares, objetos domésticos e uma ponte de madeira.
As informações foram publicadas pelo Daily Galaxy em 23 de julho de 2026. Segundo o material, o antigo assentamento foi demolido por ordem do imperador Carlos V em 1540, depois que moradores de Ghent se revoltaram contra o aumento de impostos exigido pelo governante.
Obras abriram caminho para uma escavação de grandes proporções

O sítio arqueológico foi identificado em um terreno destinado à construção de apartamentos. Antes do início das novas estruturas, arqueólogos passaram a investigar as camadas preservadas sob o local onde existiu o chamado Castelo Espanhol de Ghent.
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A área revelou vestígios de diferentes períodos históricos sobrepostos. Sob paredes e estruturas militares, permaneciam ruas, sepulturas, fundações e divisões de propriedades ligadas ao bairro medieval que cercava a Abadia de São Bavão.
Carlos V mandou destruir o bairro após uma revolta
Em 1540, Ghent entrou em conflito com Carlos V após rejeitar novos impostos. Como resposta, o imperador reprimiu a revolta e ordenou a demolição da abadia e da comunidade estabelecida ao redor do complexo religioso.
No lugar das casas e edifícios religiosos, foi erguida uma fortaleza destinada a controlar a cidade. A construção não representava apenas uma instalação militar, mas também uma demonstração de poder e uma punição imposta à população rebelada.
Fortaleza cobriu casas, ruas e cemitérios
A implantação do castelo alterou completamente a configuração do distrito. Moradias, caminhos, igrejas e áreas funerárias desapareceram sob muralhas, quartéis e outras estruturas defensivas.
Pedras retiradas das construções demolidas foram reaproveitadas na própria fortaleza. Elementos esculpidos e peças decorativas podem ter sido incorporados às paredes ou utilizados para preencher o terreno durante as obras militares.
Muralhas ajudaram a proteger o bairro medieval
Embora tenha provocado a destruição da comunidade, o castelo também criou uma cobertura que protegeu parte das camadas arqueológicas. As muralhas robustas limitaram intervenções posteriores em pontos mais profundos do solo.
Enquanto outras regiões de Ghent foram reconstruídas repetidamente, partes do bairro medieval permaneceram seladas. Esse processo permitiu que arqueólogos identificassem linhas de alvenaria correspondentes a edifícios, vielas e antigas divisões de terrenos.
Cemitério tinha mais de 200 esqueletos
As sepulturas foram encontradas organizadas em fileiras próximas às fundações de uma igreja. Entre os restos mortais estavam homens, mulheres e crianças de diferentes idades, indicando que o local provavelmente funcionava como um cemitério paroquial civil.
Os enterros foram datados entre os séculos XIII e XVI. Algumas das pessoas sepultadas podem ter mantido relações com a Abadia de São Bavão, enquanto outras provavelmente pertenciam às famílias que viviam no bairro medieval e frequentavam a igreja.
Ossos podem revelar doenças, alimentação e rotina

A análise dos esqueletos poderá fornecer informações sobre idade, lesões, doenças, nutrição e desgaste físico. Ossos e dentes também podem conservar sinais químicos relacionados à dieta e ao ambiente em que essas pessoas viveram.
Esse trabalho depende de exames laboratoriais detalhados e não produz respostas imediatas sobre cada indivíduo. O principal valor inicial da descoberta está na combinação entre os restos humanos, a posição das sepulturas, a igreja e as construções ao redor.
Quartéis registraram a presença dos soldados
Acima das camadas medievais, os arqueólogos localizaram paredes associadas aos alojamentos militares da fortaleza. Objetos encontrados próximos às estruturas confirmam a presença cotidiana de soldados no local depois da destruição do antigo bairro.
Entre os materiais recuperados estavam recipientes de vidro e fragmentos de garrafas de vinho. Esses itens ajudam a reconstruir hábitos de consumo, armazenamento e alimentação dentro do complexo militar construído por ordem de Carlos V.
Fossa preservou comida e objetos domésticos
Uma antiga câmara subterrânea usada para receber dejetos e resíduos domésticos guardava tigelas de vidro, ossos de animais, sementes e pólen. O conteúdo acumulado ao longo do uso cotidiano funciona como um registro involuntário da vida na fortaleza.
Os ossos podem indicar quais carnes eram consumidas, enquanto sementes e pólen podem revelar frutas, ervas, plantações e outras espécies vegetais. Até o lixo descartado pelos soldados passou a oferecer pistas sobre alimentação e costumes de quase cinco séculos atrás.
Solo encharcado conservou uma ponte de madeira
Os arqueólogos também encontraram uma ponte de madeira que atravessava o fosso interno do castelo. A preservação surpreendeu porque esse tipo de material normalmente se deteriora com rapidez quando permanece enterrado por longos períodos.
Nesse caso, o solo saturado de água reduziu a presença de oxigênio e dificultou a ação de fungos e microrganismos. As mesmas condições ajudaram a proteger outros materiais orgânicos encontrados dentro da antiga fossa.
Camadas mais profundas remontam a períodos anteriores
A escavação não revelou apenas elementos medievais e militares. Cerâmicas romanas, ferramentas de sílex, utensílios domésticos e objetos metálicos foram encontrados em níveis mais antigos do terreno.
Esses materiais indicam que a área já era utilizada muito antes da formação do bairro medieval e da construção do Castelo Espanhol. O terreno reúne, portanto, diferentes capítulos da ocupação humana em Ghent preservados em camadas sucessivas.
Abadia de São Bavão começou no século VII

A história da Abadia de São Bavão remonta ao século VII, quando uma comunidade religiosa foi fundada na região. O complexo cresceu ao longo dos séculos e chegou a incluir uma igreja românica, atingindo grande influência durante o século XI.
A abadia organizava parte da vida religiosa e social da comunidade instalada ao redor. Por isso, as fundações da igreja e o cemitério ajudam a conectar os esqueletos ao espaço urbano existente antes da intervenção de Carlos V.
Parte do sítio permanecerá preservada sob o terreno
Depois da escavação, está prevista a construção de apartamentos na área. Uma parte do empreendimento, porém, deverá permanecer sem porões para evitar a destruição das camadas arqueológicas ainda existentes abaixo da superfície.
A decisão permitirá que materiais não retirados continuem preservados no próprio local. A expectativa é que arqueólogos do futuro possam examinar esses vestígios com técnicas mais avançadas e obter informações que hoje ainda não podem ser alcançadas.
Cidade apagada volta a ocupar seu lugar na história
A descoberta mostra que o castelo criado para apagar uma revolta não conseguiu eliminar completamente a comunidade que existia antes dele. Esqueletos, fundações, ruas, alimentos e objetos comuns devolveram forma ao bairro medieval escondido sob Ghent.
O achado também levanta uma questão sobre como cidades devem lidar com estruturas enterradas durante novas obras. Você acredita que todo o sítio deveria ser preservado ou considera possível conciliar a construção dos apartamentos com a proteção parcial das ruínas? Compartilhe sua opinião nos comentários.
