Revisão sistemática publicada na npj Science of Learning analisou 4.597 alunos e encontrou resultados positivos para tutores de inteligência artificial, sobretudo diante do ensino tradicional. O desempenho, porém, perdeu vantagem clara frente a outras ferramentas digitais, reforçando que método pedagógico, autonomia e participação ativa do estudante continuam decisivos no aprendizado.
A inteligência artificial produziu um resultado expressivo em uma experiência de ensino de matemática na China: estudantes que utilizaram um sistema de tutoria inteligente para aprender o teorema de Pitágoras registraram ganhos de aprendizagem 4,19 vezes maiores que os de uma turma submetida ao ensino convencional. O número chama atenção, mas precisa ser colocado dentro de um cenário científico mais amplo.
O caso integra uma revisão sistemática publicada em 14 de maio de 2025 na revista científica npj Science of Learning, do grupo Nature.. Os pesquisadores analisaram 28 estudos envolvendo 4.597 estudantes da educação básica e concluíram que tutores baseados em IA podem favorecer a aprendizagem, embora a vantagem diminua quando eles são comparados a outras ferramentas digitais de ensino.
Experimento na China registrou ganho 4,19 vezes maior
O resultado mais chamativo veio de um estudo realizado na China com o sistema Yixue Squirrel AI. O experimento colocou estudantes para aprender o teorema de Pitágoras durante três dias, totalizando cinco horas de aprendizagem. Foram 90 alunos no grupo que utilizou o tutor inteligente e 73 no grupo que recebeu ensino tradicional.
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Segundo os dados reunidos pela revisão, os ganhos de aprendizagem do primeiro grupo foram 4,19 vezes superiores aos registrados entre os estudantes da turma de comparação. Isso não significa que os alunos aprenderam 4,19 vezes todo o conteúdo nem que qualquer ferramenta de inteligência artificial produzirá o mesmo efeito. O número corresponde ao ganho medido naquele experimento específico.
Sete de oito comparações favoreceram tutores inteligentes
A revisão oferece um quadro mais amplo do que esse único experimento. Entre oito estudos que compararam sistemas inteligentes de tutoria diretamente com formas tradicionais de ensino, sete identificaram efeitos positivos significativos no desempenho dos estudantes, geralmente com efeitos classificados pelos pesquisadores entre médios e grandes.
Esse conjunto ajuda a explicar por que a inteligência artificial desperta interesse crescente na educação. Sistemas de tutoria inteligente podem acompanhar respostas, detectar dificuldades, ajustar atividades e modificar o nível de suporte de acordo com o progresso de cada estudante. Essa capacidade de adaptação diferencia essas plataformas de materiais digitais estáticos.
Comparação com outras ferramentas digitais muda o resultado
A vantagem deixa de ser tão evidente quando o grupo de comparação também utiliza tecnologia educacional. A CNN Brasil destacou que, entre quatro estudos que colocaram tutores inteligentes diante de ferramentas digitais sem inteligência artificial, apenas um encontrou vantagem clara para a solução baseada em IA.
A própria revisão científica chega a uma conclusão semelhante: os efeitos dos sistemas inteligentes são geralmente positivos, mas ficam atenuados quando a comparação deixa de ser com aulas tradicionais e passa a envolver sistemas digitais de tutoria que já oferecem recursos de aprendizagem. Isso sugere que simplesmente acrescentar IA a uma plataforma não garante automaticamente um salto educacional.
Revisão não avaliou simplesmente alunos usando ChatGPT
Uma distinção é importante para interpretar os resultados corretamente. Os 28 estudos analisados não representam uma comparação genérica entre estudantes usando ou não ferramentas como ChatGPT e Gemini. O foco científico foi em Intelligent Tutoring Systems, os chamados sistemas inteligentes de tutoria, desenvolvidos especificamente para acompanhar e adaptar processos de aprendizagem.
Esses sistemas podem ajustar tarefas às características, às dificuldades e ao ritmo do aluno, oferecendo orientações conforme seu desempenho. Portanto, atribuir todos os resultados da revisão a qualquer chatbot de inteligência artificial seria ampliar a conclusão além do que os pesquisadores efetivamente analisaram.
Dar a resposta correta não significa necessariamente ensinar
Essa diferença aparece também na análise feita pela CNN Brasil. Ricardo Villar, vice-presidente de AI Solutions da Software.com.br, argumentou que um chatbot genérico pode resolver uma questão sem necessariamente conduzir o estudante pelo processo de compreensão que levou à resposta.
O problema surge quando a tecnologia elimina justamente a etapa cognitiva que deveria ser exercitada. Se o estudante recebe a solução completa antes de formular hipóteses, cometer erros, testar caminhos e explicar o próprio raciocínio, a eficiência da ferramenta pode se transformar em um atalho que reduz a participação ativa no aprendizado.
Inteligência artificial pode funcionar melhor quando orienta em vez de substituir
Sistemas educacionais desenhados para aprendizagem podem seguir uma lógica diferente. Em vez de simplesmente revelar uma resposta, eles podem oferecer pistas graduais, identificar um erro, solicitar uma nova tentativa ou adaptar a dificuldade do exercício. Dessa forma, a inteligência artificial atua como suporte dentro do processo, e não necessariamente como substituta do esforço intelectual.
A revisão científica aponta justamente para a importância das condições em que esses sistemas são utilizados. Os autores destacam que diferentes modalidades pedagógicas podem produzir resultados diferentes e defendem modelos capazes de combinar tecnologia com habilidades de pensamento de ordem superior. O desenho pedagógico aparece, portanto, como parte essencial do resultado.
Estudos ainda são curtos para respostas definitivas
Outra limitação está na duração dos experimentos. Os 28 estudos analisados utilizaram desenhos quase experimentais e apresentaram períodos de intervenção variados. O próprio caso chinês responsável pelo número de 4,19 vezes durou apenas três dias, com cinco horas totais de aprendizagem.
Por isso, os pesquisadores afirmam que ainda são necessários trabalhos com intervenções mais longas, amostras maiores e grupos estudantis mais diversos. A revisão também identifica uma lacuna relevante: nenhum dos trabalhos analisados havia tratado diretamente das implicações éticas do uso da inteligência artificial na educação.
Maioria dos estudos se concentrou em matemática, ciências e tecnologia
A composição da amostra também precisa ser considerada. Segundo a revisão, 82% dos estudos estavam relacionados a disciplinas STEM, grupo que reúne ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Mais da metade dos trabalhos envolveu estudantes do ensino médio, enquanto uma parcela menor analisou alunos do ensino fundamental.
Geograficamente, 54% dos artigos vieram dos Estados Unidos, enquanto 27% tiveram origem na Ásia, incluindo pesquisas em China, Taiwan, Tailândia, Coreia, Turquia e Arábia Saudita. Os resultados, portanto, são relevantes, mas não devem ser interpretados como prova de que os mesmos efeitos ocorrerão igualmente em todas as disciplinas, faixas etárias e sistemas educacionais.
Personalização traz potencial, mas também novos riscos
A capacidade de adaptar exercícios e feedback ao desempenho de cada aluno é uma das características mais promissoras da inteligência artificial aplicada ao ensino. Na prática, isso pode significar oferecer mais suporte a quem encontra dificuldade e reduzir gradualmente a ajuda conforme o estudante desenvolve autonomia.
A CNN Brasil destaca, porém, que essa personalização também envolve desafios de infraestrutura, acesso e proteção de dados. Ricardo Villar apontou diferenças entre escolas com maior capacidade de investimento e redes que enfrentam limitações de internet e equipamentos. Se o acesso às melhores ferramentas permanecer desigual, a tecnologia também poderá reproduzir diferenças já existentes no sistema educacional.
O resultado de 4,19 vezes é impressionante, mas não encerra a discussão
A principal mensagem dos 28 estudos não é que colocar inteligência artificial diante de qualquer estudante produzirá automaticamente resultados melhores. O experimento com o teorema de Pitágoras mostra que um tutor inteligente bem aplicado pode gerar ganhos consideráveis em determinadas condições, enquanto as demais comparações revelam que parte dessa vantagem desaparece diante de boas ferramentas digitais já existentes.
O desafio passa a ser definir quanto a tecnologia deve ajudar sem retirar do aluno aquilo que efetivamente produz aprendizagem: pensar, testar, errar, revisar e construir uma resposta. Na sua opinião, a inteligência artificial deveria orientar o raciocínio dos estudantes ou entregar respostas completas quando eles pedirem? Conte nos comentários como você acredita que essa tecnologia deveria entrar nas salas de aula.

