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Aliado da China e do Brasil no Brics, Índia toma decisão estratégica sobre terras raras e mira setor dominado por Pequim, que controla até 90% do processamento global de 17 minerais essenciais para carros elétricos, chips e IA

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 08/06/2026 às 15:26
Atualizado em 08/06/2026 às 15:52
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Índia inclui terras raras no índice industrial e mira minerais críticos usados em carros elétricos, chips, defesa e IA.
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Mudança no índice industrial indiano amplia o acompanhamento das terras raras e reforça a atenção sobre minerais críticos usados em carros elétricos, semicondutores, turbinas eólicas, defesa e inteligência artificial.

A Índia incluiu oficialmente as terras raras na nova série do Índice de Produção Industrial, em mudança anunciada em 01 de junho de 2026 pelo Ministério de Estatística e Implementação de Programas, em Nova Déli.

Com a revisão, o ano-base do indicador passou de 2011–2012 para 2022–2023, e a cesta acompanhada pelo governo foi ampliada para refletir segmentos mais presentes na estrutura industrial atual do país.

A decisão insere os elementos de terras raras em um dos principais indicadores usados pelas autoridades indianas para medir o desempenho da produção industrial e acompanhar mudanças na atividade econômica.

Na prática, o país passa a observar com mais detalhe um setor ligado a veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores, sistemas de defesa, satélites, equipamentos eletrônicos e infraestrutura associada à inteligência artificial.

Esse movimento ocorre durante a disputa global por minerais críticos, área em que a China concentra parte relevante das etapas de refino, separação e processamento.

Segundo a Agência Internacional de Energia, a concentração geográfica avançou nos últimos anos, e a China respondeu por parcela expressiva do crescimento da oferta refinada de grafite, cobalto e terras raras entre 2020 e 2024.

Por que a Índia mudou o índice industrial

A nova série do Índice de Produção Industrial foi apresentada pelo governo indiano como uma forma de tornar o indicador mais compatível com a composição atual da economia do país.

De acordo com o Ministério de Estatística, a revisão incorpora uma cesta atualizada de produtos, novos pesos setoriais e maior cobertura de atividades industriais, após recomendação de um comitê técnico.

Além das terras raras, a atualização passa a observar segmentos como fornecimento de gás, abastecimento de água, saneamento, gestão de resíduos e atividades industriais relacionadas a cadeias tecnológicas mais recentes.

Já sob a nova base, o índice registrou crescimento de 4,9% em abril de 2026, na comparação com abril de 2025, conforme os dados divulgados pelo governo indiano.

A mudança não altera, por si só, a capacidade de refino de terras raras da Índia, mas cria uma base estatística mais detalhada para acompanhar a evolução desse segmento.

Mina de terras raras mostra a escala da extração de minerais críticos usados em carros elétricos, chips e IA. (Imagem: Wikimedia Commons/Wikipedia).
Mina de terras raras mostra a escala da extração de minerais críticos usados em carros elétricos, chips e IA. (Imagem: Wikimedia Commons/Wikipedia).

Em economias industriais, indicadores desse tipo são usados por governos para identificar gargalos, medir produção, avaliar políticas públicas e orientar investimentos em setores considerados relevantes pelas autoridades.

Terras raras entram no centro da política industrial

As terras raras formam um grupo de 17 elementos químicos usados em tecnologias de alto valor agregado, com aplicações em transporte, energia, eletrônica, defesa e equipamentos industriais.

Entre esses elementos estão neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, utilizados em ímãs permanentes de alto desempenho presentes em motores elétricos, aerogeradores, equipamentos médicos, sistemas aeroespaciais e tecnologias militares.

A relevância econômica desses elementos cresceu com a eletrificação dos transportes, a ampliação das energias renováveis e a demanda por componentes usados em equipamentos eletrônicos e sistemas de alta tecnologia.

Segundo a Agência Internacional de Energia, um carro elétrico típico exige cerca de seis vezes mais insumos minerais do que um veículo convencional, enquanto uma usina eólica terrestre demanda muito mais minerais do que uma planta a gás de mesma capacidade.

Em 2024, a demanda por minerais ligados à energia teve alta de 6% a 8% para níquel, cobalto, grafite e terras raras, de acordo com a AIE.

A agência atribui esse avanço principalmente a aplicações em veículos elétricos, baterias, redes elétricas e fontes renováveis, setores que dependem de cadeias industriais estáveis e diversificadas.

No caso indiano, o desafio envolve não apenas a disponibilidade de jazidas, mas também a transformação dos recursos geológicos em produtos usados pela indústria.

Processos como separação, refino, fabricação de ligas, produção de pós magnéticos e obtenção de ímãs exigem domínio químico, escala industrial, controle ambiental e integração com fabricantes de veículos, eletrônicos, energia e defesa.

Reservas indianas e gargalos de processamento

A Índia possui recursos relevantes de terras raras, principalmente associados à monazita presente em areias costeiras e em depósitos localizados no interior do território.

Em resposta ao Parlamento, o Departamento de Energia Atômica informou em 12 de março de 2026 que o país detém o terceiro maior volume de recursos de terras raras do mundo, com base em dados do USGS.

O mesmo comunicado aponta cerca de 7,23 milhões de toneladas equivalentes de óxidos de terras raras contidas em 13,15 milhões de toneladas de monazita.

As ocorrências estão distribuídas por áreas de Kerala, Tamil Nadu, Odisha, Andhra Pradesh, Maharashtra, Gujarat, Jharkhand, Bengala Ocidental e outras regiões, além de depósitos em Gujarat, Rajasthan, Chhattisgarh e Jharkhand.

Apesar do volume de recursos, o governo indiano informou que grande parte dessas reservas tem baixo teor e está associada à radioatividade, o que torna a extração mais demorada e tecnicamente complexa.

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Na mesma resposta oficial, as autoridades afirmaram que a Índia possui capacidades de mineração, separação, refino até óxidos e extração metálica, mas ainda não tem escala intermediária e avançada suficiente para ligas e ímãs.

Esse quadro ajuda a explicar a inclusão das terras raras em uma base estatística industrial mais ampla, voltada a acompanhar atividades consideradas relevantes pelo governo indiano.

Com dados mais detalhados, Nova Déli busca aproximar a política mineral de programas voltados a semicondutores, eletrônicos, baterias, veículos elétricos, indústria aeroespacial e equipamentos de defesa.

Brasil, China e Brics no tabuleiro dos minerais críticos

A decisão indiana também se relaciona com a posição de outros países do Brics no setor de minerais críticos e terras raras.

A China lidera a cadeia global de processamento, enquanto o Brasil aparece no levantamento do Serviço Geológico dos Estados Unidos como detentor da segunda maior reserva estimada de terras raras, com 21 milhões de toneladas em óxidos equivalentes.

No mesmo levantamento, o USGS aponta a China com 44 milhões de toneladas em reservas e a Índia com 6,9 milhões de toneladas, além de produção mineral chinesa estimada em 270 mil toneladas em 2024.

O Brasil, embora tenha grande potencial geológico segundo o levantamento, aparece com produção estimada de apenas 20 toneladas no mesmo ano.

A diferença entre reservas e produção indica que a disponibilidade mineral não resulta automaticamente em participação relevante na cadeia industrial de terras raras.

Para ampliar essa participação, países com grandes depósitos precisam desenvolver mineração, separação, refino, transformação química e fabricação de componentes, etapas que concentram maior valor agregado dentro da cadeia produtiva.

No Brasil, a agenda de terras raras ganhou espaço por causa das reservas mapeadas e da possibilidade de conexão com cadeias de energia limpa, defesa, eletrônica e mobilidade elétrica.

Já a Índia tem direcionado políticas públicas para reduzir dependência externa e ampliar capacidades domésticas em etapas que permanecem concentradas em poucos fornecedores globais.

Programa bilionário mira ímãs permanentes

A estratégia indiana também avançou fora do campo estatístico, com medidas voltadas à produção de componentes usados por indústrias de tecnologia, energia, defesa e transporte.

Em 26 de novembro de 2025, o governo aprovou um programa de 72,8 bilhões de rúpias, equivalente a cerca de US$ 816 milhões, para estimular a fabricação doméstica de ímãs permanentes de terras raras.

Segundo a Reuters, a Índia importou 53.748 toneladas métricas de ímãs de terras raras no ano fiscal encerrado em março de 2025, enquanto a demanda nacional deve dobrar até 2030.

O plano prevê apoio a novas fábricas com capacidade total de 6 mil toneladas por ano, distribuída entre cinco empresas selecionadas por concorrência.

A inclusão das terras raras no Índice de Produção Industrial ocorre, portanto, ao lado de programas voltados à produção de ímãs, semicondutores, baterias, eletrônicos e componentes industriais.

Com essas medidas, o governo indiano tenta transformar recursos minerais em base produtiva, reduzir vulnerabilidades de importação e ampliar sua presença em cadeias tecnológicas dependentes de insumos críticos.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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