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Agricultores enfiam um tubo perfurado no arrozal, deixam a água baixar até 15 cm abaixo do solo, irrigam só na hora certa e economizam até 30% de água sem derrubar a colheita

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 01/03/2026 às 15:27
Assista o vídeoTécnica AWD no arroz irrigado usa tubo perfurado para controlar nível de água e reduzir até 30% do consumo hídrico. (Imagem: IRRI)
Técnica AWD no arroz irrigado usa tubo perfurado para controlar nível de água e reduzir até 30% do consumo hídrico. (Imagem: IRRI)
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Método simples usado no arroz irrigado troca alagamento contínuo por ciclos controlados de molhar e secar, guiados por um tubo perfurado no solo.

Técnica reduz consumo de água e pode manter a produtividade, enquanto também é associada à queda de emissões de metano.
Mudança depende mais de manejo e medição do que de máquinas novas.

Irrigação AWD no arroz muda a lógica do alagamento permanente

Produtores de arroz irrigado vêm adotando uma mudança simples na rotina do campo: em vez de manter a lavoura permanentemente alagada, eles passam a alternar períodos de inundação e de secagem controlada, guiados por um tubo perfurado inserido no solo.

A técnica, conhecida como alternate wetting and drying (AWD), permite monitorar o nível de água abaixo da superfície e decidir o momento de irrigar quando ele atinge um limite, geralmente em torno de 15 centímetros.

Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa do Arroz (IRRI), esse manejo pode reduzir em cerca de 30% o consumo de água na produção de arroz, sem penalidade de produtividade, ao mesmo tempo em que diminui custos operacionais ligados ao uso do recurso.

Tubo perfurado no arrozal vira referência para decidir a hora de irrigar

Técnica AWD usa tubo perfurado no arrozal para reduzir até 30% da água e manter produtividade com menor emissão de metano.
Técnica AWD usa tubo perfurado no arrozal para reduzir até 30% da água e manter produtividade com menor emissão de metano.

O centro da prática está em um instrumento visual e barato, mas decisivo para padronizar o controle: o chamado “tubo de campo”.

Trata-se de um cilindro perfurado, fincado no arrozal, que permite enxergar a linha d’água no perfil do solo mesmo quando a superfície já não está coberta.

Ao observar a descida do nível dentro do tubo, o agricultor identifica quando o solo atingiu a condição de drenagem planejada e, então, volta a inundar a área.

O procedimento transforma uma decisão que antes era feita “no olho”, com alto risco de desperdício ou estresse hídrico, em um acompanhamento claro e repetível.

Economia de água na lavoura aparece quando a reposição deixa de ser contínua

Na irrigação tradicional do arroz em sistema alagado, manter lâmina de água constante costuma ser associado a controle de plantas daninhas e à estabilidade do ambiente para a cultura, mas o modelo tem um custo hídrico elevado.

Em regiões onde há restrições de captação, tarifas pelo uso de água, disputas com abastecimento urbano ou simplesmente falta de disponibilidade em períodos de seca, a diferença entre perder e poupar alguns milhares de litros por dia se torna determinante para viabilizar a safra.

A AWD surge nesse cenário como uma estratégia de manejo que reduz o volume aplicado ao longo do ciclo, ao drenar o campo periodicamente e reirrigar apenas quando a água no solo atinge a marca estabelecida.

Nível a 15 centímetros no solo ajuda a evitar que a secagem passe do ponto

Técnica AWD usa tubo perfurado no arrozal para reduzir até 30% da água e manter produtividade com menor emissão de metano.
Técnica AWD usa tubo perfurado no arrozal para reduzir até 30% da água e manter produtividade com menor emissão de metano.

O limite de “até 15 centímetros” abaixo da superfície do solo funciona como referência operacional que ajuda a evitar que a secagem passe do ponto.

Na prática, a área não é conduzida como um “sequeiro”; a lavoura continua irrigada, porém com intervalos em que o alagamento desaparece e o solo entra em fase de drenagem, sem que a planta fique sem água na zona radicular por tempo prolongado.

O tubo perfurado permite enxergar esse processo com precisão, tornando o manejo mais seguro para quem precisa economizar sem colocar a produtividade em risco.

Por que a AWD reduz consumo de água e custos de energia no bombeamento

A economia de água acontece porque o sistema deixa de repor continuamente perdas do alagamento permanente, que incluem percolação e outras formas de saída do recurso do sistema.

Ao permitir que o nível baixe antes da próxima irrigação, parte da água aplicada anteriormente é aproveitada por mais tempo no perfil do solo, e a necessidade de bombeamento ou de abertura de comportas diminui.

Quando essa lógica se repete ao longo de toda a safra, o resultado acumulado pode ser uma redução expressiva do volume total utilizado, o que tem efeito direto sobre o custo de energia e sobre a dependência de mananciais, canais e reservatórios.

Redução de metano entra no debate climático sobre arroz irrigado

Além do ganho hídrico, a técnica também é observada por seu impacto ambiental.

O IRRI aponta que a AWD tem comprovação de redução de emissões de gases de efeito estufa na rizicultura, especialmente metano, em uma faixa estimada entre 30% e 70%, sem provocar redução de rendimento.

A explicação está ligada ao modo como o metano se forma em solos inundados: em ambiente constantemente alagado e sem oxigênio, microrganismos específicos produzem o gás.

Ao introduzir fases secas, o sistema muda temporariamente as condições do solo, inibindo parte da atividade desses microrganismos e reduzindo a formação do metano.

Manejo do arroz irrigado passa a depender mais de medição do que de hábito

Técnica AWD usa tubo perfurado no arrozal para reduzir até 30% da água e manter produtividade com menor emissão de metano.
Técnica AWD usa tubo perfurado no arrozal para reduzir até 30% da água e manter produtividade com menor emissão de metano.

Esse tipo de resultado amplia o interesse por um manejo que, ao mesmo tempo, responde a dois problemas frequentemente citados na agricultura irrigada: a pressão por água e a exigência crescente por práticas de menor impacto climático.

Para produtores e cadeias de alimentos, a possibilidade de associar economia no campo a redução de emissões passa a ter peso na relação com compradores, em programas de sustentabilidade e em iniciativas de mitigação.

Ainda assim, o ponto que costuma chamar a atenção fora do ambiente técnico é a simplicidade do gatilho de decisão: um tubo no chão e uma medida de profundidade.

Campo deixa de “manter sempre cheio” e vira rotina de observação e resposta

O método também altera a forma como a irrigação é planejada no cotidiano da lavoura.

Em vez de “manter sempre cheio”, o manejo vira um exercício de observação e resposta, com ciclos que dependem de solo, clima, condução da área e disponibilidade hídrica.

A presença do tubo perfurado faz com que a decisão não dependa apenas do aspecto superficial do arrozal, que pode enganar em períodos quentes ou com vento, quando a lâmina some rapidamente, enquanto o subsolo ainda mantém água suficiente para sustentar a planta.

Com o monitoramento direto do nível abaixo do solo, o momento da reposição fica mais alinhado ao que realmente está acontecendo na zona onde as raízes operam.

Produtividade mantida com menos água vira fator de viabilidade em regiões secas

Do ponto de vista agronômico, a principal promessa da AWD não é aumentar rendimento, e sim manter a produção com menos água, o que por si só muda a conta de viabilidade em regiões sob estresse hídrico.

Em áreas onde o arroz compete por recursos com outras culturas, onde o calendário de irrigação é limitado por regras de uso, ou onde sistemas de bombeamento encarecem a operação, reduzir o volume sem perder produtividade representa um ganho que não depende de grandes máquinas novas ou mudanças radicais na lavoura.

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O instrumento central do processo é barato, e o princípio do manejo é compreensível para quem está no campo, embora exija disciplina e acompanhamento.

Infraestrutura existente continua, mas o “quando irrigar” muda completamente

A adoção, porém, não significa abandonar a infraestrutura existente.

Em muitos casos, canais, comportas e rotinas de irrigação continuam, mas com um ajuste no “quando” e no “quanto” repor.

O resultado é uma irrigação menos baseada na constância do alagamento e mais baseada em um indicador prático do estado hídrico do solo.

Ao transformar esse controle em rotina, o produtor passa a trabalhar com um parâmetro fixo que reduz improvisos e torna o manejo comparável entre talhões e entre safras.

Técnica simples chama atenção porque quebra a imagem do arroz sempre alagado

O apelo da técnica também se explica pela facilidade de comunicação para o público fora do agro: o arroz, associado historicamente a campos alagados, aparece ligado a um procedimento que parece contrariar a imagem tradicional e, ainda assim, protege a colheita e poupa água.

Para quem acompanha a pauta de clima, a mesma prática se conecta a um tema global de emissões, ao mexer diretamente em um dos principais gases gerados em sistemas agrícolas inundados.

Em um cenário de escassez hídrica recorrente e de cobrança por eficiência, o tubo perfurado no arrozal se torna símbolo de uma mudança que acontece mais por gestão do que por revolução de equipamentos.

Se uma decisão tão relevante pode ser tomada olhando para a água dentro de um tubo enterrado, quantas outras rotinas agrícolas ainda dependem mais de hábito do que de medição?

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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