Em Piraí do Norte, no semiárido baiano, Ernst Gotsch comprou 500 hectares degradados e, com agricultura sintrópica, reconstruiu floresta produtiva que mistura lavoura e mata. Em poucos anos, a sombra trouxe cacau, diversidade de espécies e sinais de água: riachos antes secos retornaram e a fauna voltou para a região.
A floresta que hoje ocupa áreas antes exauridas no interior da Bahia começou como uma aposta contra a lógica mais comum do campo: simplificar o ambiente para produzir. No lugar de “limpar” o terreno e insistir em uma única cultura, a proposta foi fazer o oposto e tratar a diversidade como ferramenta de recuperação.
No centro dessa transformação estão o suíço Ernst Gotsch, que emigrou para o Brasil na década de 1980, e Nelson Araújo Filho, seu aprendiz. Em escalas diferentes, 500 hectares no caso de Gotsch e 1,8 hectares no de Araújo, os dois aplicaram um sistema que tenta imitar a floresta original de cada lugar e, ao mesmo tempo, manter produção agrícola.
A floresta produtiva que troca “monocultura” por convivência de espécies

Quando se fala em floresta produtiva, o ponto não é “voltar ao passado” como se a terra precisasse ser intocada para funcionar. A proposta é criar um ambiente em que lavoura e mata deixam de competir o tempo todo e passam a cumprir papéis complementares, com espécies ocupando diferentes alturas, diferentes sombras e diferentes ritmos de crescimento.
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Em vez de uma área uniforme, a paisagem vira um mosaico vivo. Árvores, arbustos, culturas alimentares e plantas de apoio coexistem, e isso muda o microclima do chão: mais cobertura, menos vento direto, menos ressecamento. A floresta, nesse sentido, não é um cenário, é o próprio “motor” do sistema, porque organiza luz, umidade e matéria orgânica.
Esse arranjo também reposiciona o que normalmente seria visto como problema. Fungos, insetos e bactérias deixam de ser automaticamente tratados como inimigos e passam a ser lidos como sinais. A ideia é que a presença de determinados organismos indica o estado da plantação e orienta decisões de manejo, em vez de empurrar tudo para uma guerra química constante.
O que é agricultura sintrópica e por que ela muda o solo

A técnica associada a essa abordagem ficou conhecida como agricultura sintrópica. A palavra chama atenção, mas o princípio é bem direto: observar como uma floresta se estrutura e tentar reproduzir seus processos, com plantios que acompanham fases de desenvolvimento e com manejo para manter o ciclo de matéria orgânica em movimento.
Na prática, isso significa trabalhar com sucessões de espécies e com estratos, pensando no que cresce rápido, no que cria sombra, no que protege o solo, no que produz alimento e no que sustenta o conjunto ao longo do tempo. A floresta funciona como uma rede de trocas, e o manejo busca manter essas trocas vivas. Não é “plantar árvores” e esperar, é conduzir o sistema para que ele se reorganize.
Esse tipo de condução muda o solo porque troca exposição por proteção. Solo nu tende a perder umidade, sofrer erosão e “desmanchar” sua estrutura com o tempo. Já um solo coberto, com raízes diversas e com matéria orgânica se renovando, tende a melhorar sua capacidade de infiltração e a estabilidade física. É aí que a floresta deixa de ser só “verde” e passa a ser um método de recuperar solo degradado.
Quando a floresta vira água: a volta dos riachos

Um dos relatos mais marcantes desse processo envolve água. Ao chegar às terras compradas, Gotsch afirma que onze riachos haviam desaparecido em consequência de desmatamento e erosão. A partir do reflorestamento e do redesenho do uso do solo, ele sustenta que os riachos voltaram a correr, reforçando a ideia que ele próprio resume como “plantar água”.

Há uma lógica ecológica possível por trás desse tipo de retorno, sem precisar transformar a história em milagre. Em ambientes degradados, a água da chuva pode escorrer rapidamente pela superfície, carregando partículas do solo e alimentando erosão, em vez de infiltrar. Quando a floresta retorna, a cobertura reduz o impacto direto da chuva, as raízes criam caminhos no solo e a matéria orgânica ajuda a reter umidade. Isso pode favorecer recarga e manutenção de umidade por mais tempo.
O que chama a atenção é o encadeamento: a floresta altera o microclima, o solo responde, e o ciclo local de água pode ganhar fôlego. Mesmo assim, vale manter a leitura cuidadosa: cada área tem suas condições, e o retorno de riachos depende de muitos fatores. O ponto principal é que a floresta, ali, foi tratada como infraestrutura ecológica, não como adorno.
Animais, pragas e indicadores: o retorno da vida
O reaparecimento de animais, inclusive aqueles descritos como raros ou considerados extintos na região, surge como consequência observada após a recomposição do ambiente. Quando a floresta volta a oferecer abrigo, alimento e corredores de vegetação, a fauna tende a responder. Isso não é automático em qualquer lugar, mas faz sentido que um território mais diverso convide de volta espécies que haviam perdido espaço.
Esse retorno também muda a maneira de enxergar “pragas”. Em sistemas simplificados, um inseto específico encontra fartura do mesmo alimento e se multiplica rapidamente, virando crise. Já em sistemas diversos, predadores, competidores e variações de alimento tendem a equilibrar populações. Daí a ideia de que pragas podem virar aliadas como termômetros do desequilíbrio, indicando onde o manejo precisa ajustar sombra, densidade, variedade ou cobertura.
Há ainda um efeito indireto importante: quando a floresta estrutura o ambiente, os ciclos de decomposição e de fertilidade podem ficar mais estáveis. Fungos e bactérias, longe de serem “vilões”, são parte do processo de transformar resíduos vegetais em nutrientes disponíveis. Esse é um dos motivos de a agricultura sintrópica insistir em usar a dinâmica natural como aliada: o equilíbrio biológico pode reduzir a dependência de soluções agressivas.
Por que o cacau virou símbolo da floresta que produz

Entre os cultivos associados ao trabalho de Gotsch, o cacau aparece como principal produto. Isso conversa com a lógica do sistema porque o cacau é uma planta que se desenvolve bem sob sombra, beneficiando-se da proteção oferecida por árvores e espécies de estratos superiores. Em outras palavras, o cacau ajuda a “pagar a conta” enquanto a floresta se consolida.
O destaque do cacau não significa que a floresta seja um monocultivo disfarçado. Pelo contrário: ele entra como uma peça dentro de um conjunto maior. A produção passa a depender do arranjo, e não de uma única espécie dominante. A sombra deixa de ser problema e vira tecnologia, porque regula temperatura, umidade e estresse das plantas.

Esse tipo de estratégia também explica por que áreas antes usadas para mandioca, aipim e milho, e depois degradadas, conseguem mudar de aparência quando entram em um modelo mais diverso. O resultado relatado é uma paisagem verde, com estratos e densidades diferentes, algo bem distante do padrão de terreno “limpo” que frequentemente se associa a produtividade.
De 500 hectares a 1,8 hectares: o que muda quando a escala muda
O caso de Gotsch chama atenção pela escala: 500 hectares em Piraí do Norte, Bahia. Já o de Nelson Araújo Filho mostra que o método não depende apenas de grandes propriedades, porque ele aplicou a mesma lógica em 1,8 hectares, algo equivalente a dois campos de futebol. Essa diferença de tamanho ajuda a responder uma dúvida comum: “isso só funciona para quem tem muita terra?”
A escala muda o desafio, mas não muda o princípio. Em área maior, o planejamento do mosaico, o acesso a mão de obra e o tempo de condução se tornam ainda mais críticos. Em área menor, a precisão de plantio e a intensidade de manejo podem ser maiores, e os resultados podem ser percebidos com mais nitidez no dia a dia. Em ambos os casos, a floresta é tratada como sistema agrícola, não como paisagismo.
Outro ponto relatado é o tempo de resposta: melhorias já seriam perceptíveis após três anos de implementação do sistema. Três anos, no campo, pode parecer pouco para quem imagina reflorestamento como algo que só dá retorno em décadas. Por isso a história provoca debate: ela sugere que, quando o foco está em processos ecológicos e em manejo contínuo, a floresta pode acelerar sinais de recuperação do solo e do ambiente.
Por que empresas passaram a procurar o método
Quando empresas multinacionais demonstram interesse em aprender e reproduzir um sistema, isso costuma acontecer por dois motivos que nem sempre convivem em harmonia: expectativa de resultado e necessidade de reputação. No caso descrito, o que atrai é a possibilidade de conciliar produção agrícola com reflorestamento, recuperando áreas degradadas e tornando-as produtivas sem depender do paradigma de simplificação extrema.
Do ponto de vista técnico, a floresta sintrópica chama atenção porque propõe um caminho de manejo: plantar, conduzir, podar, renovar e manter a cobertura ativa. Isso pode ser especialmente relevante onde o solo já foi exaurido, onde erosão avançou e onde a água se tornou o gargalo. Recuperar solo não é só corrigir química, é reconstruir estrutura e vida.
Ao mesmo tempo, o interesse corporativo não transforma automaticamente o modelo em solução universal. Sistemas agroflorestais exigem conhecimento local, adaptação de espécies ao ambiente e uma curva de aprendizado real. O mérito desse caso é mostrar um caminho possível, com base em observação e em replicação de processos de floresta, sem cair na promessa fácil de “fórmula mágica”.
A história de uma floresta que reaparece onde havia quase um deserto no interior da Bahia ganha força porque junta três coisas que raramente caminham juntas no imaginário popular: produção, recuperação ambiental e água voltando a circular. Com agricultura sintrópica, a experiência de Ernst Gotsch e Nelson Araújo Filho coloca a diversidade como estratégia e transforma o que antes era sinal de fracasso do solo em sinal de recomposição do ambiente.
Agora quero puxar uma conversa direta: se você tivesse uma área degradada, você apostaria em uma floresta produtiva ou ainda confiaria mais na lógica da monocultura?
Na sua região, você já viu nascente ou riacho voltar depois de alguma recuperação de vegetação, ou a água só diminuiu com o tempo? Contar o lugar e a experiência muda totalmente o debate.

Piraí nao é no Semi arido, é Mata atlântica. Quem tá no semiárido e Nelson Araujo
A questão é: será que os governos e as populações estarão interessadas em investir numa agricultura que regenera?! Ou todo trabalho e boa vontade vai ter que ficar nas costas do agricultor solitário que ainda vai ser chamado de **** pelos vizinhos por estar plantando árvores que não são comida humana e sim do solo, mas sem valor econômico?! E treinar e preparar os agricultores a trabalhar com esse método, quem vai fazer?! O Ernst sozinho ou o Nelson?! A sociedade precisa assumir o investimento nessa alternativa
Em 1995 passou essa história no Globo Rural. Ele,na época, tinha duas crianças.