Transformação ambiental em área crítica do Sistema Cantareira mostra como agrofloresta com café e espécies nativas pode recuperar solo degradado e melhorar infiltração de água no interior paulista, em meio a metas nacionais e compromissos globais de restauração ecológica.
O agricultor Dercílio Pupin transformou um pasto degradado de quatro hectares em Piracaia, no interior de São Paulo e em área ligada ao Sistema Cantareira, em uma agrofloresta com café e espécies nativas, depois de encontrar o terreno seco, compactado e quase sem árvores.
Quando chegou à região, em 2013, Pupin planejava produzir alimentos orgânicos, mas se deparou com sinais claros de desgaste ambiental acumulado, justamente às vésperas de uma crise hídrica que, em 2014, levou o Cantareira a operar em níveis críticos.
O Sistema Cantareira é um dos principais mananciais que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo e, em períodos de maior dependência, já forneceu água para cerca de 8,8 milhões de pessoas, número frequentemente citado em levantamentos sobre a crise daquele período.
-
Sem dinheiro para trator nem Tobata, um agricultor de Presidente Getúlio comprou uma moto velha de leilão e criou um triciclo agrícola que carrega até 900 kg de adubo na roça; em cinco anos, já vendeu oito para vizinhos
-
Um único tanque no lago de uma usina rende 90 mil quilos de tilápia a cada seis meses, e a empresa quer multiplicar isso por 500 para levar Mato Grosso do Sul do 11º lugar ao topo do país
-
Rússia reconhece Brasil livre de febre aftosa sem vacinação em 10 de junho de 2026, fortalece o agronegócio brasileiro e abre caminho para mais carne, pescado, castanhas e novos negócios com um mercado bilionário
-
Piscicultura vira novo gigante do agro brasileiro e transforma a tilápia no “boi da água”, em uma cadeia que já movimenta R$ 11 bilhões por ano e supera 1 milhão de toneladas produzidas
No terreno comprado por Pupin, a degradação vinha de anos de uso intensivo para pecuária, com solo exposto e pouca cobertura vegetal, cenário que tende a reduzir infiltração de água, acelerar erosão e fragilizar nascentes, especialmente em áreas de cabeceira.

Segundo o agricultor, em entrevista ao blog do Projeto Colabora, o antigo proprietário mantinha mais de 300 cabeças de gado e o pastejo ocorria “de forma desorganizada”, inclusive perto de olhos d’água, o que, na prática, aumenta pisoteio, compactação e perda de vegetação protetora ao redor de cursos d’água.
O que a degradação do solo muda na prática
Em termos ambientais, solo degradado é aquele que perde estrutura e fertilidade por pressão humana, deixando de oferecer serviços ecossistêmicos como armazenamento de água e suporte à produção de alimentos, além de se tornar mais vulnerável ao escoamento superficial.
Nessas condições, chuvas intensas tendem a escorrer com mais rapidez, enquanto períodos secos se tornam mais severos, porque a terra compactada infiltra menos água e retém menos umidade, o que afeta tanto a produtividade agrícola quanto a estabilidade de nascentes.
Agrofloresta com café e espécies da Mata Atlântica
Para reverter o quadro, Pupin aderiu a ações locais e passou a estruturar a área com princípios de agrofloresta, combinando culturas agrícolas com árvores e espécies nativas, em arranjos que buscam recuperar o solo enquanto mantêm uma produção economicamente viável.
“No ano que a gente chegou aqui, era tudo clareira, não tinha uma árvore quase”, relatou ele, ao descrever o início do trabalho, que começou com planejamento do plantio, proteção de áreas sensíveis e introdução gradual de diversidade vegetal.
Com o avanço do sistema, Pupin passou a perceber mudanças no terreno e no comportamento da água, e descreveu que “nas áreas de agrofloresta, já há lugares onde a floresta está um pouco mais avançada, tem uma infiltração melhor [da água] no solo”.
A lógica do manejo, nesse tipo de sistema, é que o aumento de cobertura vegetal e a presença de diferentes estratos de plantas favoreçam matéria orgânica, sombreamento e ciclagem de nutrientes, criando condições para a recuperação do solo ao longo do tempo.
Metas do Planaveg e recuperação de vegetação nativa

O caso de Piracaia se conecta a iniciativas de restauração que ganharam escala no país nos últimos anos, em parte por pressão climática, em parte por compromissos ambientais assumidos pelo Brasil, e também pelo custo crescente de produzir em áreas degradadas.
Lançado em 2017, o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) estabeleceu a meta de recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030 e, além disso, implementar cinco milhões de hectares de sistemas agrícolas integrados.
Dados reunidos pelo Observatório da Restauração e Recuperação indicaram, em balanços divulgados nos últimos anos, que a área mapeada em restauração ainda é pequena diante do compromisso, enquanto a expansão agrícola seguiu avançando sobre áreas já abertas.
Em um retrato citado em reportagens e levantamentos de monitoramento, o país teria ampliado cerca de 9,35 milhões de hectares em monoculturas e registrado por volta de 79 mil hectares de áreas restauradas em recortes usados para acompanhar a agenda de restauração.
Pastagens degradadas e produtividade no Brasil
A diferença entre meta e realidade fica mais evidente quando se observa o estoque de pastagens degradadas, já que parte expressiva do desmatamento histórico no país se relaciona à abertura de áreas para pecuária, que nem sempre se mantém produtiva por muitos anos.

Estimativas frequentemente atribuídas a análises com base em dados do MapBiomas apontam 95,5 milhões de hectares de pastos degradados, um número que costuma ser usado para dimensionar o potencial de recuperar produtividade sem pressionar novas áreas de vegetação nativa.
“Grande parte da área desmatada no país é para a pecuária, e essas pastagens estão degradadas”, afirma Ane Alencar, pesquisadora associada a redes de monitoramento ambiental, ao explicar por que a recuperação dessas áreas aparece como oportunidade e desafio.
Nesse contexto, o reaproveitamento de pastagens degradadas entrou no discurso de políticas públicas federais, incluindo falas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que defende o tema como forma de elevar produção sem avançar sobre florestas e territórios indígenas.
Ao tratar do assunto, Lula afirmou que a recuperação pode “dobrar a produtividade [agrícola], sem mexer com os indígenas e as florestas”, reforçando uma linha de ação que depende de financiamento, assistência técnica e mecanismos de mercado para ganhar escala.
Metas globais de restauração e biodiversidade

O desafio, porém, não se limita ao Brasil, já que avaliações internacionais estimam que mais de 70% dos ecossistemas terrestres livres de gelo foram transformados para uso humano, cenário associado à perda de biodiversidade e ao agravamento do aquecimento global.
Uma avaliação global sobre degradação de terras divulgada por organismos internacionais estimou que cerca de 3,2 bilhões de pessoas já foram afetadas pelos impactos da degradação, sobretudo por efeitos indiretos sobre água, alimentos e meios de vida.
Nos compromissos internacionais, a New York Declaration on Forests, lançada em 2014 e endossada por diferentes atores, incorporou metas como frear a perda de florestas e contribuir para restaurar 350 milhões de hectares de paisagens degradadas até 2030.
Já o acordo da biodiversidade aprovado em 2022, o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, trouxe a meta de colocar em restauração efetiva ao menos 30% das áreas de ecossistemas degradados terrestres, aquáticos continentais e marinhos até 2030.

-
-
-
-
6 pessoas reagiram a isso.