Projeto de dessalinização submarina nos EUA pretende usar a pressão natural do oceano para produzir água potável em larga escala. A iniciativa envolve cápsulas instaladas no fundo do Pacífico e pode ampliar a oferta hídrica em regiões afetadas por secas prolongadas.
Um projeto de dessalinização submarina em desenvolvimento na Califórnia prevê o uso da pressão natural do oceano para transformar água do mar em água potável em grande escala.
A iniciativa é liderada pela empresa OceanWell e envolve a instalação de cápsulas tecnológicas a cerca de 400 metros de profundidade no oceano Pacífico, na região da Baía de Santa Mônica, no sul do estado.
A proposta é apresentada como uma alternativa para ampliar a oferta hídrica em uma área marcada por períodos recorrentes de seca.
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Batizada de Water Farm 1 (WF1), a estrutura foi planejada como uma “fazenda de água” instalada no fundo do mar.
Segundo a empresa, o projeto prevê cerca de 60 cilindros submersos, posicionados a aproximadamente 7 quilômetros da costa de Malibu.
Cada módulo teria cerca de 12 metros de comprimento e operaria como uma unidade independente de dessalinização.
De acordo com informações divulgadas pela OceanWell, a meta é alcançar uma produção de 60 milhões de galões de água potável por dia, volume equivalente a cerca de 227 milhões de litros diários.
Se essa capacidade for confirmada na operação, o sistema poderá reforçar o abastecimento de parte do sul da Califórnia, região que enfrenta pressão sobre os recursos hídricos e disputas pelo uso da água entre centros urbanos, agricultura e preservação ambiental.
Como funcionaria a dessalinização no fundo do mar
A principal diferença entre o modelo proposto e as usinas tradicionais está na forma de pressurização da água durante a filtragem.
Em plantas instaladas em terra, bombas elétricas de alta potência são usadas para empurrar a água do mar contra membranas de osmose reversa.
Esse processo consome grande quantidade de energia e representa uma parte relevante do custo operacional.
No sistema desenvolvido pela OceanWell, a etapa de pressurização é transferida para o próprio ambiente marinho.

A cerca de 400 metros abaixo da superfície, a pressão hidrostática chega a aproximadamente 40 atmosferas.
Segundo a empresa, essa força é suficiente para empurrar a água através das membranas de filtração sem depender do mesmo nível de bombeamento mecânico exigido nas instalações convencionais.
Com base em dados apresentados pela companhia, esse arranjo pode reduzir o consumo de energia em até 40% em comparação com usinas costeiras tradicionais.
Esse percentual, no entanto, está associado às estimativas do projeto e à configuração planejada para a operação submarina.
Outro ponto destacado pela empresa é a localização da infraestrutura.
Enquanto plantas convencionais exigem galpões, tubulações e equipamentos industriais próximos ao litoral, a solução proposta manteria os módulos totalmente submersos, conectados à terra por tubulações responsáveis pelo transporte da água tratada.
Sistema de filtração e remoção de contaminantes
O núcleo do projeto é formado por membranas de osmose reversa, tecnologia já utilizada em processos de dessalinização em diversos países.
No caso da WF1, essas membranas operariam aproveitando a pressão natural do fundo do mar.
Segundo a OceanWell, o sistema foi projetado para reter não apenas o cloreto de sódio, principal componente do sal marinho, mas também outros contaminantes presentes na água.
Entre eles, a empresa cita bactérias, vírus, pesticidas, resíduos químicos e partículas microscópicas de plástico.
A companhia também afirma que a tecnologia pode remover compostos do grupo PFAS, conhecidos pela persistência no ambiente.
De acordo com as informações divulgadas pela empresa, o padrão de pureza obtido no processo pode atender aos requisitos sanitários exigidos para água potável nos Estados Unidos.

Além da filtragem, o projeto inclui medidas voltadas à operação em ambiente marinho.
A OceanWell informa ter desenvolvido um sistema chamado LifeSafe, descrito como um mecanismo de circulação pensado para reduzir o impacto sobre organismos microscópicos presentes na água.
Em relação à salmoura, resíduo concentrado gerado após a dessalinização, a empresa afirma que a devolução ao oceano seria feita em águas profundas e frias.
Segundo a OceanWell, essa escolha faz parte da estratégia para reduzir efeitos ambientais associados à operação.
A distância em relação à costa também foi definida, de acordo com a companhia, para limitar interferências diretas em áreas costeiras sensíveis.
Custos e manutenção no fundo do oceano
Embora a proposta tenha ganhado visibilidade pela forma de operação, a manutenção dos equipamentos em grande profundidade é apontada como um dos principais pontos de atenção.
Componentes como membranas filtrantes precisam de substituição periódica.
Esse procedimento tende a ser mais complexo em estruturas instaladas no fundo do mar do que em unidades terrestres.
Nessas condições, inspeções e reparos podem exigir o uso de robôs submersíveis ou operações especializadas de engenharia oceânica.
Especialistas que acompanham projetos de infraestrutura marinha costumam apontar esse tipo de exigência como um fator de impacto sobre custos e logística.
Outro aspecto relevante é a necessidade de monitoramento constante da estrutura.
Em ambiente marinho profundo, os módulos ficam submetidos continuamente à pressão da água e à corrosão, o que amplia a necessidade de controle operacional e de manutenção preventiva.
Segundo o cronograma divulgado pela empresa, a expectativa é que o sistema completo esteja conectado à infraestrutura terrestre e opere em escala plena até 2030.

O projeto avançou após a formação de um consórcio com o Distrito Municipal de Água de Las Virgenes, responsável pelo abastecimento de parte da região de Los Angeles.
A iniciativa também recebeu investimento da empresa japonesa Kubota, fabricante conhecida por atuar nas áreas de equipamentos industriais e agrícolas.
A participação de parceiros institucionais e privados é tratada pela OceanWell como parte da estratégia para viabilizar a fase de desenvolvimento e implantação.
Dessalinização entra no debate sobre segurança hídrica
A dessalinização já integra a matriz de abastecimento de diversos países, sobretudo em regiões com baixa disponibilidade de água doce.
Em locais com clima árido, o processo tem sido usado para ampliar a oferta hídrica, embora continue cercado por discussões sobre consumo de energia, custos operacionais e impactos ambientais.
Nesse cenário, a proposta de deslocar parte da infraestrutura para o fundo do mar surge como uma tentativa de enfrentar dois desses pontos: o gasto energético e a ocupação da faixa costeira por grandes instalações industriais.
A viabilidade do modelo, porém, ainda dependerá do desempenho prático da tecnologia em operação contínua.
