Diane Tirado dizia ter sido dispensada por dar zero a trabalhos não entregues, mas registros posteriores apontaram problemas com planos educacionais, reclamações e conduta profissional.
A professora demitida Diane Tirado ganhou repercussão nos Estados Unidos em 2018 ao afirmar que havia perdido o emprego depois de se recusar a dar nota mínima de 50% a estudantes que não entregavam trabalhos.
A regra realmente constava no manual da escola, mas documentos posteriores mostram que a dispensa ocorreu em meio a uma série de outras reclamações envolvendo sua atuação profissional.
Tirado trabalhava como professora de história do 8º ano na West Gate K-8 School, integrante do sistema público de St. Lucie, na Flórida. Seu último dia de trabalho foi 14 de setembro de 2018.
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Na época, ela publicou uma fotografia de uma mensagem de despedida escrita no quadro da sala de aula. Nela, dizia aos estudantes que havia sido demitida por se recusar a dar 50% a quem não entregasse nada.
Professora demitida contestava regra que impedia nota abaixo de 50%
A controvérsia sobre as notas realmente existia. Segundo um documento do Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Sul da Flórida, o manual de alunos e pais da West Gate estabelecia: “NO ZERO’S – LOWEST POSSIBLE GRADE IS 50%”, ou seja, a menor nota possível seria 50%.
Tirado discordava da prática. Em depoimento posteriormente incluído no processo, afirmou considerar inadequado conceder 50% quando o aluno não tivesse produzido o trabalho. Ela continuou atribuindo notas inferiores ao limite estabelecido, inclusive zeros.
A regra, porém, não correspondia a uma política obrigatória para todas as escolas do distrito. Em entrevista à WPTV, o então superintendente E. Wayne Gent afirmou que evitar zeros era considerado uma prática recomendada, e não uma norma geral aplicada de forma uniforme a todo o sistema escolar.
Gent argumentou que 50% continuava sendo uma nota de reprovação e que a abordagem buscava oferecer aos estudantes novas oportunidades para demonstrar aprendizagem.
Distrito apontou outras razões para a dispensa
A carta de desligamento de Tirado não especificava publicamente uma razão para a decisão. Depois que sua versão ganhou repercussão, entretanto, o St. Lucie Public Schools declarou à WPTV que ela havia sido dispensada porque seu desempenho fora considerado abaixo do esperado e porque suas interações com estudantes, funcionários e pais teriam criado um ambiente considerado problemático pela administração.
Os registros judiciais apresentados anos depois detalharam essas reclamações. Durante as primeiras semanas na West Gate, administradores receberam queixas divididas em três grupos: descumprimento da prática de notas, problemas relacionados aos Planos Educacionais Individualizados (IEPs) de determinados alunos e outros episódios considerados não profissionais.
Segundo o processo, estudantes com IEPs tinham direito a tempo adicional para determinadas atividades. Tirado reconheceu em depoimento que não concedeu esse tempo em alguns casos.
A diretora Kristi Parker afirmou ainda ter recebido reclamações com frequência elevada. Entre os episódios registrados estava o de um estudante cujo trabalho foi chamado de “pathetic” pela professora diante da turma, fazendo o aluno chorar.
Processo posterior confirmou problemas de conduta
As reclamações sobre o tratamento dado a estudantes também resultaram em procedimento administrativo estadual.
A decisão da Florida Education Practices Commission registra que testemunhos considerados críveis confirmaram que Tirado descreveu diante da classe o trabalho de um aluno como “lazy” e “pathetic”. A própria professora reconheceu ter usado as palavras e declarou que se sentiu mal ao perceber que o estudante havia chorado.
Em janeiro de 2022, a comissão aplicou uma carta de reprimenda e determinou que Tirado cumprisse um ano de período probatório caso voltasse a ocupar na Flórida um cargo que exigisse certificado de educadora.
Justiça apontou que demissão não dependia apenas das notas
A questão voltou aos tribunais quando Tirado processou o distrito alegando retaliação relacionada às suas críticas à política de notas.
Em relatório e recomendação apresentado em junho de 2024, o tribunal federal considerou que as provas indicavam que o distrito teria tomado a mesma decisão mesmo se a oposição de Tirado à regra dos 50% tivesse desempenhado papel relevante.
O documento destacou as reclamações sobre os IEPs, o episódio envolvendo o aluno chamado de “pathetic”, a negativa de prazo adicional a outro estudante e a avaliação da diretora de que a professora estava contribuindo para uma cultura de trabalho tóxica. O magistrado recomendou julgamento sumário favorável ao distrito.
Assim, a disputa sobre os zeros foi real e fez parte do conflito entre Tirado e a escola. Os registros disponíveis, porém, mostram que não há base para tratar a recusa em dar 50% como o único motivo comprovado de sua demissão.

