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O homem do campo está sendo substituído aos poucos? Pecuária e agricultura aceleram uso de IA em tarefas antes totalmente humanas, enquanto a escassez de mão de obra empurra fazendas para uma nova realidade

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 13/04/2026 às 21:03
Startup usa IA e coleiras solares para transformar a pecuária, atrai Peter Thiel e alcança valor de US$ 2 bilhões.
Startup usa IA e coleiras solares para transformar a pecuária, atrai Peter Thiel e alcança valor de US$ 2 bilhões.
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Criada por um jovem que cresceu em uma fazenda leiteira na Nova Zelândia, a tecnologia da Halter usa inteligência artificial e coleiras solares para monitorar o gado, automatizar tarefas da pecuária e já ajudou um rancheiro no Kansas a economizar quase seis horas de trabalho por dia

A inteligência artificial avança sobre a pecuária e outras atividades rurais em meio à pressão por mais eficiência na pecuária, custos elevados e dificuldade crescente para encontrar trabalhadores no campo. Nesse movimento, o caso da Halter se tornou um dos exemplos mais chamativos: fundada pelo neozelandês Craig Piggott, a empresa criou coleiras inteligentes com IA para monitorar gado, automatizar parte do manejo e chegou a uma avaliação de US$ 2 bilhões após captar US$ 220 milhões em rodada liderada pelo Founders Fund, de Peter Thiel.

Piggott cresceu em uma fazenda leiteira na região de Waikato, na Nova Zelândia, e transformou essa vivência em base para a Halter, criada em 2016.

A empresa desenvolveu um sistema apelidado de “cowgorithm”, que reúne dados biológicos dos animais e os conecta a coleiras solares capazes de acompanhar alimentação, movimentação e recuperação após o parto.

A proposta ganhou tração num momento em que a tecnologia agrícola acelera em várias frentes. Relatório do Bank of America publicado em abril de 2026 aponta que, em 2024, mais da metade dos agricultores no mundo já havia adotado ou estava disposta a adotar ao menos uma tecnologia de agricultura de precisão ou habilitada por IA, com projeção de um mercado de agtech de US$ 34 bilhões até 2034.

O caso da Halter na pecuária

Na prática, a Halter vende ao pecuarista a promessa de transferir para o aplicativo tarefas que antes exigiam presença física constante no pasto.

Em relato publicado pela Fortune, o rancheiro americano Daniel Mushrush, um dos primeiros clientes da empresa, afirmou usar a tecnologia em um rancho de 16 mil acres em Chase County, no Kansas, para movimentar o rebanho, acompanhar partos e organizar melhor o uso das áreas de pastagem.

Segundo esse relato, as vacas podem ser deslocadas com sinais sonoros e, em alguns casos, estímulos de baixa vibração, conforme programação feita no celular.

Mushrush disse que a ferramenta reduziu em quase seis horas por dia o tempo gasto com tarefas como mover cercas e percorrer a propriedade para verificar o rebanho, além de permitir reservar capim premium para bezerros recém-nascidos, que podem crescer até 40 libras mais pesados em comparação com ciclos anteriores.

O próprio modelo de cobrança mostra por que a tecnologia é vista ao mesmo tempo como oportunidade e desafio. O preço inicial citado no caso é de US$ 9,90 por vaca por mês, valor que pesa em operações com centenas ou milhares de animais, ainda que o discurso comercial esteja centrado justamente na redução de trabalho manual, ganho de eficiência e melhor gestão da pecuária.

Outros casos de IA e automação no campo

A pecuária não está sozinha nesse processo. A John Deere, uma das gigantes globais do setor, vem expandindo seu portfólio de máquinas autônomas e afirma que sua plataforma de autonomia usa inteligência artificial, visão computacional e câmeras para permitir que tratores operem sozinhos em determinadas atividades agrícolas.

O discurso da empresa é direto: enquanto o equipamento trabalha sozinho, produtores e operadores podem ser deslocados para outras tarefas.

Esse tipo de solução reforça a tendência de um campo cada vez mais conectado, no qual parte do trabalho operacional passa a ser executada por sistemas autônomos, sensores e softwares de monitoramento.

Outro exemplo vem das culturas especiais, área em que a dependência de mão de obra manual costuma ser maior.

O USDA e o NIFA destacam que tecnologias de automação vêm sendo desenvolvidas para melhorar a eficiência em plantio, colheita e processamento, incluindo braços robóticos para colheita de maçãs e soluções voltadas ao algodão, justamente em segmentos onde o trabalho é caro, difícil de garantir e sensível a períodos de escassez.

Esses casos mostram que a automação agrícola não se resume a um único tipo de fazenda ou rebanho.

Ela aparece tanto em equipamentos pesados quanto em sensores, coleiras, câmeras, plataformas móveis e sistemas de decisão que tentam diminuir o peso do trabalho repetitivo, ampliar controle operacional e manter a produção funcionando mesmo quando faltam braços disponíveis.

Escassez de mão de obra acelera a busca por tecnologia

A falta de trabalhadores no campo é um dos fatores centrais por trás dessa corrida tecnológica. O Banco Mundial já havia apontado, em estudo sobre o futuro do trabalho na agricultura, que a dinâmica demográfica e a migração para atividades fora do campo elevam a perspectiva de escassez de mão de obra agrícola, especialmente de trabalhadores assalariados, em diferentes países.

Nos Estados Unidos, o USDA registra que mudanças na composição da força de trabalho e a elevação dos custos laborais impulsionam a adoção de ajudas mecânicas e tecnologias no setor. Em áreas mais dependentes de trabalho manual, como frutas e horticultura, a pressão é ainda mais forte, com máquinas e sistemas automatizados sendo tratados como resposta prática à dificuldade de contratação.

O próprio USDA Agricultural Research Service afirma que tecnologias automatizadas de colheita são urgentemente necessárias para enfrentar a escassez de mão de obra e o aumento dos custos na indústria de frutas de árvore.

Já o CDC, em revisão sobre tecnologias emergentes na agricultura, aponta que a escassez de trabalhadores é um dos motores do desenvolvimento de robótica e automação no campo, ao lado de fatores econômicos, climáticos e sociais.

No início de 2026, o NIFA voltou a afirmar que a indústria de culturas especiais está cada vez mais pressionada por falta de mão de obra, competição global e demanda por maior qualidade. Nesse cenário, a automação aparece menos como luxo tecnológico e mais como ferramenta para tentar manter produtividade, reduzir gargalos e reorganizar a rotina rural.

O que essa mudança revela para a pecuária

No caso da pecuária, a IA começa a assumir partes específicas da rotina que antes dependiam exclusivamente do homem do campo, como observar deslocamentos, checar saúde, acompanhar partos e reorganizar lotes de animais. Isso não elimina toda a presença humana, mas altera o tipo de trabalho exigido na fazenda, deslocando parte da atividade física e repetitiva para o controle remoto por aplicativo e para a leitura de dados.

A própria Halter apresenta essa lógica ao prometer mais tempo, melhor fluxo de trabalho e uma pecuária mais atraente para gerações jovens familiarizadas com tecnologia. Ao mesmo tempo, os casos já em uso mostram que o avanço da IA no campo está sendo empurrado por uma combinação objetiva de fatores: dificuldade de contratar, custo crescente, pressão por produtividade e busca por modelos mais sustentáveis de operação.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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