Novo estudo revela como milhares de cavidades formaram um mercado pré-inca que evoluiu para um registro administrativo
O Monte Sierpe, no Vale do Pisco, no sul do Peru, ganhou nova interpretação após um estudo publicado em 2024 na revista Antiquity, que analisou mais de 5 mil cavidades alinhadas. O local, estudado desde o início do século 20, voltou ao debate porque novos mapeamentos com drones revelaram padrões antes ignorados. Os pesquisadores, liderados por Jacob Bongers, utilizaram também análises microscópicas dos sedimentos para identificar a função das estruturas.
O estudo, portanto, mostrou que o sítio pode ter funcionado como mercado de trocas por volta do ano 1000, quando a região integrava o Reino de Chincha. As cavidades, com entre 1 e 2 metros de largura, ocupam 1,5 km da encosta e formam blocos separados. Os pesquisadores, assim, identificaram séries repetitivas de sete ou oito buracos, o que indica planejamento social e organização comunitária.
Padrões numéricos e indícios de registro inspirado no Quipu

As análises revelaram pólen de milho e fibras de juncos, plantas usadas para produzir cestos tradicionais. Esses vestígios, segundo Bongers, sugerem transporte de mercadorias em feixes organizados. A geometria do conjunto, por outro lado, lembra o quipu, o sistema inca que utilizava cordões e nós para registrar dados administrativos.
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Essa semelhança, conforme relatado pela equipe, se fortalece quando comparada a um quipu encontrado na região, hoje preservado no Museu Etnológico de Berlim. A hipótese, dessa forma, aponta que o Monte Sierpe funcionou como um “quipu da paisagem”, usado para controlar entregas e organizar tributos durante o Império Inca, especialmente após o século 15.
Localização em zona de trocas e conexões comerciais antigas
O Monte Sierpe, localizado na zona ecológica chamada chaupiyunga, fica entre serra e costa, área usada historicamente por diversos povos. A região, portanto, servia como ponto de encontro para agricultores, pescadores e caravanas de lhamas que transitavam entre diferentes rotas comerciais.
A posição estratégica, segundo o estudo, favorece a ideia de que o sítio centralizava intercâmbio de mercadorias. Os blocos, assim, podem ter representado grupos responsáveis por entregar produtos específicos, seguindo modelos administrativos conhecidos nas sociedades andinas. Essa leitura, portanto, reforça a função comercial e distributiva da estrutura.
Descartes de hipóteses antigas e novas etapas da pesquisa
Os pesquisadores, ao revisarem estudos anteriores, descartaram hipóteses relacionadas a funções militares, mineração ou rituais funerários, porque nenhum vestígio desse tipo foi identificado. O clima árido, por sua vez, inviabiliza qualquer uso agrícola, o que elimina essa possibilidade.
A equipe, coordenada por Bongers, seguirá com novas escavações e datações por radiocarbono para determinar com mais precisão a evolução funcional do sítio. O arqueólogo, inclusive, destacou que o Monte Sierpe representa um caso único de uso da paisagem como ferramenta administrativa, prática comum em vários povos andinos.
Destaques relevantes do sítio arqueológico
• Mais de 5 mil cavidades organizadas ao longo da encosta.
• Padrões numéricos repetitivos que sugerem uso administrativo.
• Vestígios de milho e juncos associados ao transporte de mercadorias.
• Semelhança direta com quipus incas.
• Localização estratégica na zona chaupiyunga.
• Uso administrativo confirmado após o século 15.
• Descartes de teorias fantasiosas com base em evidências sólidas.
O estudo, desse modo, amplia o entendimento sobre formas de organização andina e mostra como antigas sociedades estruturaram ferramentas sofisticadas para administrar territórios.
Diante disso, quantas outras estruturas escondem tecnologias sociais igualmente impressionantes?

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