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A montanha que virou arquivo administrativo: Estudo da Antiquity revela que 5 mil cavidades no Vale do Pisco funcionaram como um sistema de registro usado pelos Incas por séculos

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Escrito por Caio Aviz Publicado em 11/11/2025 às 08:10
Formação escavada no Monte Sierpe com centenas de cavidades alinhadas, mostrando a estrutura usada por povos andinos para organização de trocas e registros.
Cavidades escavadas no Monte Sierpe, no Vale do Pisco, formam a estrutura analisada em estudo da revista Antiquity, que revelou padrões associados ao sistema de contabilidade inca.
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Novo estudo revela como milhares de cavidades formaram um mercado pré-inca que evoluiu para um registro administrativo

O Monte Sierpe, no Vale do Pisco, no sul do Peru, ganhou nova interpretação após um estudo publicado em 2024 na revista Antiquity, que analisou mais de 5 mil cavidades alinhadas. O local, estudado desde o início do século 20, voltou ao debate porque novos mapeamentos com drones revelaram padrões antes ignorados. Os pesquisadores, liderados por Jacob Bongers, utilizaram também análises microscópicas dos sedimentos para identificar a função das estruturas.

O estudo, portanto, mostrou que o sítio pode ter funcionado como mercado de trocas por volta do ano 1000, quando a região integrava o Reino de Chincha. As cavidades, com entre 1 e 2 metros de largura, ocupam 1,5 km da encosta e formam blocos separados. Os pesquisadores, assim, identificaram séries repetitivas de sete ou oito buracos, o que indica planejamento social e organização comunitária.

Padrões numéricos e indícios de registro inspirado no Quipu

Quipu encontrado próximo de Pisco, hoje preservado no Museu Etnológico de Berlim. (Museu Etnológico de Berlim, fotografia por Claudia Obrocki; licença CC BY-NC-SA 4.0; figura por J. Osborn/Reprodução)

As análises revelaram pólen de milho e fibras de juncos, plantas usadas para produzir cestos tradicionais. Esses vestígios, segundo Bongers, sugerem transporte de mercadorias em feixes organizados. A geometria do conjunto, por outro lado, lembra o quipu, o sistema inca que utilizava cordões e nós para registrar dados administrativos.

Essa semelhança, conforme relatado pela equipe, se fortalece quando comparada a um quipu encontrado na região, hoje preservado no Museu Etnológico de Berlim. A hipótese, dessa forma, aponta que o Monte Sierpe funcionou como um “quipu da paisagem”, usado para controlar entregas e organizar tributos durante o Império Inca, especialmente após o século 15.

Localização em zona de trocas e conexões comerciais antigas

O Monte Sierpe, localizado na zona ecológica chamada chaupiyunga, fica entre serra e costa, área usada historicamente por diversos povos. A região, portanto, servia como ponto de encontro para agricultores, pescadores e caravanas de lhamas que transitavam entre diferentes rotas comerciais.

A posição estratégica, segundo o estudo, favorece a ideia de que o sítio centralizava intercâmbio de mercadorias. Os blocos, assim, podem ter representado grupos responsáveis por entregar produtos específicos, seguindo modelos administrativos conhecidos nas sociedades andinas. Essa leitura, portanto, reforça a função comercial e distributiva da estrutura.

Descartes de hipóteses antigas e novas etapas da pesquisa

Os pesquisadores, ao revisarem estudos anteriores, descartaram hipóteses relacionadas a funções militares, mineração ou rituais funerários, porque nenhum vestígio desse tipo foi identificado. O clima árido, por sua vez, inviabiliza qualquer uso agrícola, o que elimina essa possibilidade.

A equipe, coordenada por Bongers, seguirá com novas escavações e datações por radiocarbono para determinar com mais precisão a evolução funcional do sítio. O arqueólogo, inclusive, destacou que o Monte Sierpe representa um caso único de uso da paisagem como ferramenta administrativa, prática comum em vários povos andinos.

Destaques relevantes do sítio arqueológico

Mais de 5 mil cavidades organizadas ao longo da encosta.
Padrões numéricos repetitivos que sugerem uso administrativo.
Vestígios de milho e juncos associados ao transporte de mercadorias.
Semelhança direta com quipus incas.
Localização estratégica na zona chaupiyunga.
Uso administrativo confirmado após o século 15.
Descartes de teorias fantasiosas com base em evidências sólidas.

O estudo, desse modo, amplia o entendimento sobre formas de organização andina e mostra como antigas sociedades estruturaram ferramentas sofisticadas para administrar territórios.

Diante disso, quantas outras estruturas escondem tecnologias sociais igualmente impressionantes?

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Caio Aviz

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