Imagem registrada em refinaria americana no século 19 revela campanha de extermínio do bisão, articulada por interesses econômicos e militares para enfraquecer povos originários e viabilizar a colonização do Oeste
No século 19, uma fotografia registrada em uma refinaria americana expôs pilhas de crânios de bisão e revelou uma estratégia deliberada de extermínio do animal, usada para enfraquecer povos originários, facilitar a colonização do Oeste e produzir efeitos sociais, econômicos e ambientais que permanecem até hoje.
A imagem que revela uma estratégia colonial
Dois homens de terno preto e chapéu-coco posam sobre uma montanha de crânios de bisão, empilhados em ordem, criando uma cena perturbadora registrada no século 19.
A fotografia, à primeira vista macabra, não representa apenas entusiasmo excessivo pela caça nos Estados Unidos, nem retrata caçadores comuns responsáveis pelo massacre animal.
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Especialistas indicam que os crânios evidenciam uma campanha calculada para erradicar o bisão na América do Norte, privando povos originários de um recurso vital.
Segundo a cineasta Tasha Hubbard, professora da Faculdade de Estudos Nativos da Universidade de Alberta, a imagem celebra a destruição colonial.
O bisão como alvo estratégico da expansão
Hubbard descreve o extermínio do bisão como parte estratégica da expansão colonial, vista como necessária para subjugar o território e permitir a ocupação branca.
O abate em massa causou um impacto permanente nas tribos dependentes do animal, alterando sua evolução social e econômica de forma mensurável.
Estudos comparativos apontam mortalidade infantil mais elevada entre essas nações, além de consequências duradouras que persistem até os dias atuais.
Os povos originários caçaram bisões por séculos, integrando o animal a uma cultura majoritariamente nômade espalhada pela América do Norte.
Um recurso vital para sobrevivência e cultura
Para essas comunidades, o bisão fornecia carne, peles para roupas e abrigos, além de ossos utilizados na produção de ferramentas essenciais.
Apesar de frequentemente chamado de búfalo por colonizadores, o bisão é um animal diferente, distinção ignorada por registros históricos populares.
Hubbard explica que retirar essa espécie fundamental permitiu o uso da fome como arma contra povos indígenas, enfraquecendo-os para controle territorial.
Estimativas indicam que caçadores nativos abatiam menos de 100 mil animais por ano, número irrelevante frente à população existente no início do século 19.
Do auge à quase extinção
Naquele período, havia entre 30 e 60 milhões de bisões vagando pelas planícies da América do Norte, sustentando ecossistemas e sociedades inteiras.
Em 1º de janeiro de 1889, restavam apenas 456 bisões puro-sangue nos Estados Unidos, sendo 256 protegidos em cativeiro.
Esses animais sobreviviam no Parque Nacional de Yellowstone e em poucos outros santuários de vida selvagem.
A redução drástica não ocorreu por acaso, mas acompanhou interesses econômicos e políticos ligados à conquista territorial.
Ferrovias, armas e ausência de proteção
A construção de três ferrovias atravessando áreas de grande concentração de bisões ampliou a demanda por carne e couro dos animais.
Espingardas modernas facilitaram o abate em larga escala, enquanto inexistiam leis capazes de restringir ou regular a caça predatória.
Historiadores apontam que a busca por carne e couro estava intrinsecamente ligada à colonização e à transformação da natureza em mercadoria.
Segundo Bethany Hughes, professora da Universidade de Michigan, o desejo de riqueza e poder guiou esse processo.
A indústria por trás dos crânios
Em 1871, um curtume da Pensilvânia desenvolveu um método para transformar a pele do bisão em couro comercial, acelerando o massacre.
Caçadores passaram a dizimar rebanhos das planícies centrais com rapidez alarmante, conforme descrito em estudos históricos posteriores.
A famosa fotografia foi tirada na refinaria Michigan Carbon Works, onde ossos eram processados industrialmente.
Os ossos viravam carvão usado na indústria açucareira, além de matéria-prima para cola e fertilizante, ampliando o lucro do empreendimento.
Capitalismo, colonialismo e consumo
Hughes afirma que a imagem registra uma iniciativa comercial bem-sucedida construída sobre os detritos da expansão colonial e da lógica racial dominante.
Para ela, colonialismo e capitalismo caminham juntos, transformando violência territorial em sucesso econômico aparentemente legítimo.
O consumo de produtos refinados, como açúcar purificado com carvão ósseo, ocultava as condições éticas de sua produção industrial.
A fotografia, segundo Hughes, acusa práticas comerciais que normalizam a destruição humana e ambiental por trás de mercadorias cotidianas.
Guerra, fome e deslocamento forçado
O extermínio do bisão também integrou campanhas militares que usavam escassez de recursos como tática de dominação territorial.
Oficiais do exército enviaram soldados para matar bisões, visando esgotar a base de sustento dos povos indígenas das planícies.
O historiador Robert Wooster relata que o general Philip Sheridan defendia essa estratégia.
Sheridan acreditava que eliminar o bisão forçaria as tribos a abandonar hábitos nômades e aceitar reassentamento em reservas controladas.
Consequências físicas e sociais duradouras
Privadas do bisão, comunidades indígenas foram obrigadas a migrar para reservas, passando a depender da agricultura para sobreviver.
A estratégia funcionou militarmente, resultando no deslocamento da tribo Kiowa para uma reserva em Oklahoma.
Em uma geração, a altura média dessas populações caiu mais de 2,5 cm, indicando impactos nutricionais severos e prolongados.
No início do século 20, a mortalidade infantil era 16% mais alta e a renda per capita permanecia 25% inferior nessas nações.
Debates sobre as causas do colapso
Pesquisadores questionaram como milhões de bisões foram exterminados em tão pouco tempo, levantando hipóteses além da caça intensiva.
Um estudo de 2018 sugeriu que doenças epidêmicas, como antraz e febre maculosa, podem ter contribuído significativamente para o colapso populacional.
Segundo essa análise, tais doenças seriam suficientemente mortais para eliminar dezenas de milhões de animais em regiões específicas.
Independentemente das causas combinadas, as populações de bisões nunca se recuperaram completamente ao longo das décadas seguintes.
Tentativas de restauração e legado atual
Atualmente, o bisão ainda é classificado como quase ameaçado, apesar de esforços recentes de restauração ecológica nas Grandes Planícies.
A Lei de Redução da Inflação de 2023 reservou US$ 25 milhões, cerca de R$ 149 milhões, para programas de recuperação da espécie.
Iniciativas incluem a devolução de 1 mil bisões criados pela The Nature Conservancy às suas pastagens ancestrais.
Projetos em Montana preveem o retorno de 5 mil animais, enquanto tribos devolveram 250 bisões em parceria com a Federação Nacional da Vida Selvagem.
Uma mensagem que persiste
Para Hughes, o significado da montanha de crânios foi diluído com o tempo, reduzido a uma tristeza distante pelo passado colonial.
Ela afirma que a imagem deveria provocar reflexão sobre como sistemas coloniais e capitalistas continuam moldando ambientes e sociedades atuais.
Mais do que memória histórica, a fotografia simboliza o papel do consumo na sustentação dessas estruturas de exploração persistente.
Segundo Hughes, transformar seres vivos em recursos revela uma falta de humanidade que ainda desafia a compreensão contemporânea.
Com informações de BBC.

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