Construída no rio Uatumã, a UHE Balbina virou símbolo de uma das decisões mais controversas da energia brasileira, com efeitos sobre floresta, comunidades e emissões
Ela foi vendida como símbolo de progresso, energia limpa e desenvolvimento para a Amazônia. Mas, décadas depois, a Usina Hidrelétrica de Balbina, no Amazonas, é lembrada por muitos pesquisadores como um dos projetos mais controversos da história energética brasileira.
Construída no rio Uatumã, no município de Presidente Figueiredo, a usina entrou em operação no fim dos anos 1980 com apenas 250 MW de potência instalada, mas deixou para trás um reservatório gigantesco. Segundo a Memória da Eletricidade, Balbina inundou cerca de 2.360 km² e afetou quase 2.928,5 km² de terras anteriormente ocupadas pelos Waimiri-Atroari.
O contraste é chocante: uma usina relativamente pequena em geração, mas enorme em impacto territorial. No meio da floresta, o lago artificial transformou árvores, rios, comunidades e áreas indígenas em uma paisagem marcada por água parada, ilhas isoladas e troncos mortos.
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A usina que criou milhares de ilhas no meio da floresta

Com o represamento do rio Uatumã, uma área imensa da Amazônia foi coberta pela água. O resultado não foi apenas um reservatório: foi uma nova geografia, fragmentada e difícil de recuperar.
Relatos recentes da Defensoria Pública do Amazonas apontam que a região passou a ter mais de 3,5 mil ilhas isoladas, além de milhões de árvores mortas, conhecidas popularmente como “paliteiros”. A imagem é poderosa: uma floresta que antes era contínua virou um arquipélago artificial.
Essa transformação atingiu diretamente o ambiente e a vida das populações locais. A obra teria afetado cerca de três mil famílias, tanto acima quanto abaixo da barragem, além de provocar disputas e revisões envolvendo a área dos Waimiri-Atroari.
O paradoxo: energia limpa que pode poluir mais que carvão

O ponto mais explosivo da história de Balbina está na comparação com uma termelétrica a carvão. Pesquisas citadas pela Agência FAPESP indicaram que a usina poderia emitir cerca de 10 vezes mais gases de efeito estufa do que uma termelétrica a carvão mineral de mesma potência.
A explicação está no que ficou submerso. Quando a floresta foi inundada, uma enorme quantidade de matéria orgânica passou a se decompor debaixo d’água. Em ambientes tropicais, quentes e com pouco oxigênio, essa decomposição libera dióxido de carbono e metano, um gás com forte impacto climático.
Ou seja: a hidrelétrica que deveria representar uma alternativa renovável acabou virando um caso extremo de baixa eficiência ambiental. Muita área alagada, pouca energia gerada e uma quantidade preocupante de emissões.
Apenas 250 MW para um lago gigantesco

Balbina tem 250 MW de potência instalada, número modesto quando comparado ao tamanho da área inundada. Esse desequilíbrio é justamente uma das razões pelas quais a usina se tornou tão criticada.
Em outras palavras, o problema não é apenas ter construído uma barragem. O problema é a relação entre o que foi sacrificado e o que foi entregue em energia.
Enquanto grandes hidrelétricas costumam ser defendidas pelo volume de eletricidade gerado, Balbina virou exemplo contrário: um projeto que alagou uma área imensa da floresta para produzir uma quantidade limitada de energia.
A floresta continua sentindo os efeitos décadas depois
Os impactos de Balbina não ficaram presos ao passado. Um estudo divulgado pelo INPA analisou mais de 35 anos de efeitos ambientais nas florestas de igapó afetadas pela barragem.
Segundo os pesquisadores, a alteração do regime natural das águas criou um tipo de “efeito sanduíche”. Áreas baixas, médias e altas da floresta passaram a sofrer com mudanças no pulso de inundação, afetando árvores, peixes, habitats e cadeias alimentares inteiras.
O levantamento também apontou que aproximadamente 12% das florestas de igapó já morreram, enquanto outras áreas continuam ameaçadas pela alteração artificial do ciclo das águas. Isso mostra que a barragem não causou apenas um impacto inicial: ela segue modificando o ecossistema todos os anos.
Balbina virou símbolo de erro energético na Amazônia
A história de Balbina é desconfortável porque desmonta uma ideia simples: a de que toda hidrelétrica é automaticamente limpa. No papel, a energia vem da água. Na prática, o custo pode ser gigantesco quando a obra inunda floresta tropical, altera rios e atinge comunidades.
Hoje, a usina é frequentemente lembrada como um alerta para novos projetos na Amazônia. Ela mostra que energia renovável mal planejada também pode gerar destruição, especialmente quando ignora o território, a biodiversidade e os povos que vivem na região.
O caso também ganhou nova relevância com iniciativas recentes para resgatar a memória da construção da usina e investigar seus impactos sociais. A criação da Comissão da Verdade de Balbina, envolvendo instituições como UFAM, USP e Defensoria Pública, reforça que essa história ainda não foi totalmente contada.
Uma obra que prometeu progresso e deixou uma ferida aberta
Mais de três décadas depois, Balbina continua produzindo energia. Mas também continua produzindo perguntas difíceis.
Valeu a pena inundar uma área tão grande da Amazônia para gerar apenas 250 MW? Como medir o custo de milhares de ilhas artificiais, árvores mortas, famílias atingidas e emissões de gases de efeito estufa? E quantos projetos semelhantes ainda podem ser evitados com as lições deixadas por essa usina?


Salvou o povo Waimiri-Atroari. Conhecem algo do Programa implantando pela Eletronorte e concebido pelo inesquecível indigenista Porfírio Carvalho? E a Rebio Uatumã?