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A China vai rasgar o deserto de Gobi com 1.800 km de ferrovia elevada sobre pilares, ligar Mongólia e Rússia, acabar com gargalos de bitola e acelerar carvão, cobre e terras raras rumo aos portos chineses em um projeto geopolítico que assusta o Ocidente

Publicado em 23/02/2026 às 10:07
Atualizado em 23/02/2026 às 10:11
Ferrovia elevada no deserto de Gobi integra corredor China–Mongólia–Rússia, elimina bitola padrão internacional e acelera minerais críticos.
Ferrovia elevada no deserto de Gobi integra corredor China–Mongólia–Rússia, elimina bitola padrão internacional e acelera minerais críticos.
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Projetada para cruzar o deserto de Gobi em um corredor de mais de 1.800 km, a ferrovia elevada sobre pilares liga a fronteira de Erenhot à Mongólia e segue rumo à Rússia, padroniza a bitola e promete levar carvão, cobre e terras raras aos portos chineses sem paradas na fronteira.

O deserto de Gobi sempre foi mais do que um vazio no mapa: é um ambiente extremo, com frio abaixo de -40°C no inverno, calor acima de 50°C no verão e um terreno que muda de comportamento conforme o solo congela e descongela. É nesse cenário que a China planeja sustentar uma ferrovia elevada por 1.800 km, transformando uma barreira natural em corredor logístico.

A ambição vai além da engenharia. Quando uma obra passa a ditar o ritmo de carvão, cobre e terras raras, ela deixa de ser apenas infraestrutura e vira instrumento de poder, especialmente para um país sem litoral, preso entre dois vizinhos e dependente de rotas que hoje travam sua economia.

O que torna o deserto de Gobi um adversário para qualquer obra

No deserto de Gobi, o problema não é só atravessar distância. A dificuldade começa no clima e se multiplica no solo: a variação térmica agressiva acelera fadiga de materiais e amplia a chance de deformações, trincas e recalques.

Em regiões onde o terreno “trabalha”, a infraestrutura precisa lutar contra o tempo o ano inteiro, e o custo dessa luta aparece em manutenção constante e interrupções.

Há ainda o fator do congelamento do solo e da instabilidade associada, que pode transformar uma solução tradicional em uma sequência de remendos.

Pontes e estradas podem sofrer quando o permafrost começa a derreter e depois volta a endurecer, criando ciclos de expansão e contração que desorganizam alinhamentos e fundações. Para um corredor de carga, previsibilidade pesa tanto quanto velocidade.

Por que elevar os trilhos muda a lógica da travessia

Um trem faz uma parada para fazer a baldeação para a linha férrea de Khangi, a caminho da fronteira com a China. Foto: Morning Studio

A estratégia central é simples na ideia e dura na execução: retirar a via do contato direto com o solo mais instável.

Em vez de trilhos apoiados no terreno, a proposta coloca a ferrovia sobre pilares de concreto fixados em base mais sólida, abaixo da camada que congela e descongela. Com os trilhos suspensos, a dilatação e a contração do solo deixam de comandar o alinhamento da linha, reduzindo parte dos efeitos que destruiriam uma estrutura no nível do chão.

Essa escolha também revela o tipo de prioridade do projeto: continuidade operacional. Cerca de 60% do traçado previsto seria elevado, enquanto o restante ficaria no solo onde o terreno permitir.

A lógica é usar viadutos longos nas áreas mais problemáticas do deserto de Gobi, sem transformar todo o percurso em uma única solução rígida e, ao mesmo tempo, sem aceitar os gargalos que o solo imporia.

O desenho do corredor: de Erenhot à Mongólia e rumo à Rússia

O corredor ferroviário começa em Erenhot, na fronteira com a Mongólia, atravessa aproximadamente 1.000 km do deserto de Gobi dentro do território mongol, chega à capital e segue em direção à Rússia, com destino indicado para a cidade de Nausqu.

No total, o trajeto soma mais de 1.800 km e foi pensado para alta capacidade de carga, com operação prevista de até 120 km/h.

Além da estrutura elevada, o projeto incorpora soluções para clima severo e segurança operacional: túneis com ventilação e aquecimento em trechos mais frios, sistemas para evitar congelamento dos trilhos, monitoramento de terremotos em tempo real e ajustes de engenharia para reduzir falhas em ambientes extremos.

O objetivo não é apenas construir, mas manter funcionando com regularidade, mesmo quando o inverno vira um teste diário.

Bitola e gargalos: o detalhe que atrasa semanas e custa caro

Existe um obstáculo técnico que, por décadas, funcionou como trava para as exportações: a bitola, a distância entre os trilhos.

A malha associada ao padrão soviético não coincide com a bitola padrão usada pela China. Na prática, isso força um transbordo: a carga sai de um trem e entra em outro ao cruzar a fronteira, o que consome tempo, encarece operação e amplia risco de filas e atrasos.

Esse tipo de gargalo não aparece apenas no relógio. Ele se transforma em custo financeiro e perda de competitividade. Um carregamento de carvão capaz de cruzar o país em poucos dias pode ficar parado por semanas aguardando transferência.

Quando o transporte vira imprevisível, o país exportador perde força de negociação, porque o comprador precifica risco e exige condições mais duras.

A padronização que muda o fluxo e encurta o caminho até os portos

A ferrovia foi desenhada para usar bitola padrão internacional, alinhada ao padrão chinês. Isso tende a eliminar a etapa de troca de trem na fronteira, permitindo que cargas saiam das minas da Mongólia e sigam direto até os portos chineses.

A mudança parece técnica, mas altera a geografia econômica: encurta tempo, reduz manuseio e diminui perdas associadas a transbordo e espera.

Essa padronização também cria uma consequência menos óbvia: aumenta a integração física entre a produção mongol e a cadeia industrial chinesa.

Quando a rota fica direta, quem controla a logística passa a influenciar o ritmo do mercado, porque controla o “quanto” e o “quando” de cada lote que chega para processamento e exportação.

O que está no subsolo: por que carvão, cobre e terras raras viram eixo do projeto

A Mongólia concentra reservas que mudam o peso do país no cenário global. A mina de Oyu Tolgoi, no sul, é descrita como a terceira maior mina de cobre do planeta. Já a região de Tavan Tolgoi é associada a cerca de 6 bilhões de toneladas de carvão.

Somam-se a isso reservas relevantes de terras raras, incluindo elementos como neodímio e disprósio, fundamentais para ímãs permanentes usados em motores elétricos e turbinas eólicas.

O cobre, em especial, aparece como insumo-chave da eletrificação: painéis solares, turbinas eólicas e veículos elétricos consomem grandes quantidades, e a projeção indicada é de que a demanda global pelo metal dobre até 2035.

Nesse contexto, logística não é detalhe: é o que define quem entrega primeiro, quem entrega mais barato e quem dita o padrão.

Por que a China investiria de 50 a 80 bilhões de dólares

O custo estimado do corredor fica entre 50 e 80 bilhões de dólares, um patamar que costuma exigir justificativas claras.

A primeira é econômica: transformar um “cofre trancado” em fluxo contínuo de exportação, reduzindo semanas de espera para horas ou poucos dias de deslocamento.

A segunda é industrial: levar matérias-primas rapidamente ao processamento, ampliando controle sobre cadeias de valor.

A terceira é estratégica. A China já responde por cerca de 40% do processamento mundial de cobre e domina aproximadamente 85% do processamento global de terras raras.

Se o corredor encurta a distância entre as reservas mongóis e o processamento chinês, ele reforça essa posição. Não se trata apenas de comprar minério, mas de reduzir a chance de concorrentes disputarem a rota e o fornecimento.

O componente geopolítico que assusta o Ocidente

O corredor se encaixa no eixo econômico China–Mongólia–Rússia, associado à Belt and Road Initiative, e cria a perspectiva de uma ligação terrestre direta do litoral chinês até o território russo.

Isso tende a reduzir dependência de rotas marítimas e de gargalos estratégicos, oferecendo uma alternativa logística ao norte em um cenário de tensões, sanções, disputas comerciais e competição por minerais críticos.

Para países ocidentais, o temor não é só a obra em si, mas o efeito acumulado: mais capacidade de escoamento, mais previsibilidade, mais integração e, potencialmente, mais influência sobre os preços e a disponibilidade de insumos essenciais à indústria e à transição energética.

Quando o acesso a minerais críticos fica mais concentrado, a política externa passa a caminhar junto com a logística.

A Mongólia entre duas potências: oportunidade real e risco proporcional

A Mongólia é o maior país sem litoral do mundo e vive cercada por dois vizinhos, Rússia ao norte e China ao sul.

Esse mapa já define parte do destino: qualquer solução de infraestrutura amplia interdependência com um lado, com o outro, ou com ambos. Parte da sociedade vê no corredor a chance de romper um bloqueio histórico, transformando riqueza mineral em desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, existe um risco de dependência excessiva. O país é frequentemente descrito como “um camarão entre duas baleias”, porque uma decisão que favoreça demais um dos lados pode gerar reação do outro.

A linha pode virar corredor de crescimento ou corredor de influência, dependendo de quem manda nos termos, e isso não se resolve apenas com concreto e trilhos.

Dívida, concessões e o que os contratos decidem no longo prazo

A preocupação com a chamada “armadilha da dívida” acompanha grandes projetos financiados por potências.

O receio é que o parceiro acumule obrigações que não consiga pagar e, diante disso, seja pressionado a conceder controle de longo prazo sobre ativos estratégicos.

Um exemplo é o caso do Sri Lanka, onde houve concessão de 99 anos sobre um porto após dificuldades de pagamento.

Para reduzir esse tipo de risco, surgem propostas de negociação: participação acionária da própria Mongólia na ferrovia, tarifas definidas em contrato e cláusulas que impeçam perda de ativos estratégicos em caso de inadimplência.

Ainda assim, o centro da história está nos detalhes: moeda, garantias, arbitragem, metas de uso e mecanismos de revisão. É aí que obras desse porte costumam ganhar ou perder legitimidade.

O impacto ambiental no deserto de Gobi e o que ainda falta esclarecer

O deserto de Gobi abriga espécies raras e ameaçadas, como o camelo bacteriano selvagem e a onça das neves.

Uma ferrovia elevada pode reduzir alguns impactos diretos no solo, mas não elimina efeitos como ruído, vibração, fragmentação de habitat e pressão por infraestrutura auxiliar, especialmente se a obra estimular abertura de novas minas e rotas de apoio.

Também existe a crítica de que os estudos ambientais divulgados até agora não seriam suficientes para medir todos os riscos.

Em ecossistemas frágeis, o “funcionar” da obra não é o único critério: importa como a região muda ao redor dela, e isso inclui fauna, rotas de deslocamento, áreas de reprodução e acesso humano a zonas antes isoladas.

2035: o que mudaria na velocidade do minério e na disputa global

No cenário mais otimista, o início de operação é associado a 2035. Se a ferrovia entregar o que promete, o salto de tempo seria enorme: carvão que hoje pode levar semanas para chegar aos portos chineses passaria a ser transportado em menos de 48 horas; o cobre de Oyu Tolgoi poderia alcançar fundições em menos de um dia.

Isso tende a reduzir custos, aumentar previsibilidade e pressionar concorrentes a buscar alternativas de fornecimento e processamento.

Mas a consequência é ambígua. A rota pode acelerar a transição energética ao facilitar o fluxo de cobre e terras raras, ao mesmo tempo em que dá impulso ao carvão e à expansão de mineração no deserto de Gobi.

O mesmo trilho que encurta distâncias pode alongar dilemas, porque coloca desenvolvimento, soberania, ambiente e competição global na mesma linha.

Ao final, a questão não é apenas se os pilares vão resistir ao deserto de Gobi, mas se os acordos vão resistir ao peso do que será transportado por eles.

Se você fosse cidadão da Mongólia, o que exigiria para apoiar esse corredor?

Preferiria tarifas e participação acionária garantidas por décadas, limites ambientais rígidos com fiscalização independente, ou prioridade total para crescimento rápido mesmo com risco de dependência?

E, do lado de fora, você vê esse projeto como infraestrutura necessária ou como uma peça de controle sobre minerais críticos que o mundo inteiro precisa?

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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