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A água do maior lago da África fica verde, mas o perigo é invisível: bactérias produzem microcistina, uma toxina ligada a danos graves ao fígado

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 28/02/2026 às 11:23
Atualizado em 28/02/2026 às 11:24
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No Golfo de Winam, no Lago Vitória, uma equipe internacional realizou coletas em mais de 31 locais e analisou DNA de cianobactérias para identificar toxinas perigosas, revelando riscos à água potável e abrindo caminho para monitoramento mais preciso pelas autoridades locais

Lagos sempre foram sinônimo de vida. Fornecem água, alimento, sustentam a pesca e mantêm economias locais ativas.

Mas em várias regiões do planeta, a paisagem está mudando. A água cristalina dá lugar a um verde intenso, espesso e malcheiroso.

Esse verde não é apenas estético. Ele pode ser mortal.

O que está deixando a água verde e por que isso preocupa o mundo

O fenômeno é causado por organismos microscópicos chamados cianobactérias. Quando encontram calor, sol e excesso de nutrientes como nitrogênio e fósforo, elas se multiplicam rapidamente.

Esses nutrientes vêm principalmente de fertilizantes agrícolas, esterco e esgoto.

O resultado são florações conhecidas como cyanoHABs, sigla em inglês para florações nocivas de cianobactérias. Elas formam espumas verdes na superfície da água e liberam toxinas perigosas.

Essas toxinas tornam a água imprópria para beber, nadar ou até tocar. Em alguns casos, partículas podem ficar suspensas no ar e ser inaladas.

O impacto vai além da saúde humana. As florações reduzem o oxigênio da água, matam peixes, prejudicam a pesca e alteram cadeias alimentares inteiras. Estimativas apontam que o problema está se tornando mais frequente com o aumento das temperaturas globais.

O maior lago da África está ficando verde: em 31 pontos analisados, cientistas identificaram mais de 300 genes ligados a cianobactérias tóxicas, incluindo espécies que produzem microcistina acima dos limites de segurança, colocando em risco a água potável e a pesca.

Lago Vitória recebe carga crescente de nutrientes e vira área crítica

O Lago Vitória, o maior lago da África, vem registrando aumento significativo de nutrientes devido ao crescimento populacional ao redor de suas margens e às mudanças no uso da terra.

Agricultura, indústria e urbanização intensificaram a entrada de fósforo e nitrogênio na água.

As florações ocorrem em várias bacias do lago, mas estão altamente concentradas no Golfo de Winam, no sudoeste do Quênia, uma área mais rasa e vulnerável.

Comunidades ribeirinhas dependem da água do golfo para consumo e tarefas domésticas, o que eleva o risco de exposição às toxinas.

O detalhe que mais chamou atenção é que mudanças na temperatura e nos nutrientes podem alterar quais espécies dominam e quais toxinas são produzidas.

Análise genética em 31 pontos revela bactéria dominante diferente do esperado

Durante a pesquisa mais recente, cientistas coletaram amostras em mais de 31 locais no Golfo de Winam.

Em vez de utilizar apenas microscopia, método tradicional que não distingue células tóxicas de não tóxicas, a equipe analisou o DNA das amostras.

O sequenciamento genômico permitiu identificar quase todos os genes presentes em cada local. O DNA funciona como um manual biológico que revela como o organismo cresce e produz toxinas.

Relatórios anteriores apontavam a Microcystis como dominante na região. No entanto, a nova análise revelou que a Dolichospermum era a mais abundante nos principais eventos de floração.

A mudança pode estar ligada a alterações ambientais recentes, segundo especialistas.

Microcystis e microcistina ultrapassam limites de segurança

Embora a Dolichospermum tenha sido mais abundante, a Microcystis continua sendo motivo de preocupação.

Ela está associada à produção de microcistina, uma toxina que atinge o fígado e pode ser fatal para animais e humanos, principalmente pessoas com sistema imunológico comprometido.

No Golfo de Winam, a microcistina frequentemente ultrapassa os limites de saúde estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde.

Outro ponto crítico é que a Microcystis aparece principalmente em bocas de rios mais turvas, onde as espumas verdes não são visíveis. Isso dificulta a identificação visual e reforça a necessidade de monitoramento científico constante.

Agora, autoridades locais podem direcionar ações específicas, reduzindo fósforo e outros nutrientes que alimentam as florações.

Mais de 300 genes desconhecidos podem revelar riscos e oportunidades

A análise genômica trouxe uma descoberta adicional: mais de 300 genes não caracterizados foram identificados.

Esses genes podem produzir novas moléculas de cianobactérias, com possíveis efeitos tóxicos ou até terapêuticos.

Os dados genômicos de grandes lagos africanos ainda são escassos, o que significa que o potencial químico dessas bactérias é pouco explorado.

Ao mesmo tempo em que representam ameaça à saúde pública, essas florações podem esconder compostos com aplicações futuras. O que parecia apenas um problema ambiental pode também abrir portas para pesquisas médicas.

O crescimento populacional ao redor de lagos e o aumento da urbanização estão elevando os níveis de nutrientes em corpos d água no mundo inteiro. Com temperaturas mais altas impulsionadas pelo aquecimento global, o cenário tende a se intensificar.

Os dados coletados no Lago Vitória oferecem base científica para combater o problema e proteger comunidades que dependem diretamente dessas águas.

Você já viu um lago completamente verde por causa de algas? Acredita que o Brasil pode enfrentar situação semelhante em reservatórios e represas? Compartilhe sua opinião nos comentários.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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