A fama de capital do abacaxi corre o país com números de anos atrás, e a pesquisa agrícola que o governo divulgou em 17 de setembro conta outra história, com uma colheita gigante, um ranking que mudou e uma lavoura bem menor do que já foi
Frutal, no Triângulo Mineiro, colheu 39 milhões de abacaxis em 2025, mostra a Produção Agrícola Municipal do IBGE, divulgada em 17 de setembro de 2026. É mais de um em cada quatro abacaxis colhidos em Minas Gerais inteira.
A cidade de 61 mil habitantes, a uns 600 quilômetros de Belo Horizonte e colada na divisa com São Paulo, tem o apelido de capital do abacaxi há tempo, e boa parte da fruta sai de um distrito só, Aparecida de Minas.
Quem chega a Aparecida de Minas pela BR-153 dá de cara com um abacaxi de concreto de 3,4 metros de altura, contou a revista Dinheiro Rural numa reportagem de dezembro de 2017, a mesma que espalhou um número que ainda hoje roda na internet.
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Na sexta-feira (18), a Super Rádio Tupi publicou que a cidade colhe “mais de 9 milhões de frutos” e responde por 24% da produção mineira. Os dois números existem, mas nenhum deles é o retrato oficial de 2025, e a diferença é grande.
Uma cidade do Triângulo que colhe 39 milhões de abacaxis

Na planilha do IBGE, Frutal aparece com 39 milhões de frutos em 2025, colhidos em 1.300 hectares. Dá uma média de 30 mil abacaxis por hectare, acima da média nacional, que ficou em 26,25 mil.
O estado de Minas Gerais inteiro somou 149,5 milhões de frutos no mesmo ano. Fazendo a divisão, a fatia de Frutal é de 26,1%, um pouco maior do que os 24% que circulam por aí.
No país, o IBGE registra abacaxi em 1.010 municípios, e Frutal ficou em 7º lugar no Brasil. Os seis da frente estão no Pará, no Rio de Janeiro, na Paraíba e no Amazonas.
A colheita de 2025 valeu R$ 98,9 milhões, pelo valor da produção que o IBGE calcula. Dividindo pelos 39 milhões de frutos, dá uns R$ 2,53 por abacaxi, na média, saindo da roça.
O abacaxi pérola, a fruta que leva 18 meses para chegar à mesa
O abacaxi da região é quase todo da variedade pérola, a mais indicada para comer fresco, explicou o supervisor técnico do Sistema Faemg/Senar no Triângulo, Leonardo Bhrener da Costa, ao jornal Diário do Comércio, em julho de 2023.
O ciclo é longo, porque o produtor planta em janeiro e só colhe com uns 18 meses de lavoura, contou Costa na mesma entrevista, e por isso o gasto vem parcelado ao longo de um ano e meio, o que ajuda o pequeno agricultor a ficar na atividade.
Barata a lavoura não é, e o agrônomo Luís Guilherme Brunhara Postali, extensionista da Emater-MG em Frutal, calculou na época um custo de R$ 18 mil a R$ 20 mil por hectare e disse que o preço médio anual fica perto de R$ 1,50 a R$ 1,80 por fruta.
O vídeo abaixo, gravado numa lavoura de pérola em Frutal e publicado no YouTube em 2020, mostra o tamanho da plantação e os frutos ainda no pé:
De onde saíram os 9 milhões e os 24%
O número dos 24% tem endereço e data, porque aparece na reportagem da Dinheiro Rural de 2017, publicada quando a cooperativa dos produtores de Aparecida de Minas tinha acabado de nascer com 22 agricultores.
Já os “cerca de nove milhões de frutos por ano” da variedade pérola aparecem em textos de divulgação do Sebrae Minas sobre a Feira de Agronegócios do Abacaxi, de 2024 e de 2025.
A pesquisa oficial do IBGE conta o abacaxi do município inteiro, sem separar variedade, e chega a 39 milhões em 2025. É um número mais de quatro vezes maior do que os 9 milhões repetidos na internet.
A tabela que coloca a capital do abacaxi no mapa
Minas Gerais ficou em 4º lugar entre os estados em 2025, atrás da Paraíba, do Pará e do Rio de Janeiro, pelos números do IBGE. Em 2024, o estado era o 3º, e perdeu a posição para os fluminenses.
Dentro do estado, a produção é concentrada num pedaço pequeno do mapa, e os sete maiores municípios produtores ficam todos no Triângulo Mineiro:
| Município | Abacaxis colhidos em 2025 | Fatia de Minas Gerais |
|---|---|---|
| Frutal | 39 milhões | 26,1% |
| Canápolis | 27,2 milhões | 18,2% |
| Monte Alegre de Minas | 18 milhões | 12,0% |
| Fronteira | 18 milhões | 12,0% |
| São Francisco de Sales | 15,4 milhões | 10,3% |
| Itapagipe | 9,8 milhões | 6,6% |
| Centralina | 8,4 milhões | 5,6% |
Somando a tabela, os sete juntos colheram 135,8 milhões de frutos, ou quase 91% de todo o abacaxi mineiro, conta feita com os dados municipais do IBGE.
Um tombo de 69 milhões para 39 milhões em seis anos
O apelido de capital esconde um detalhe da série histórica. Em 2018 e em 2019, Frutal colheu 69 milhões de abacaxis por ano, em 2.300 hectares, registra a série histórica do IBGE.

Em 2025, com 39 milhões, a colheita estava 43% menor do que em 2019, e a área colhida tinha encolhido para 1.300 hectares. Voltando mais no tempo, a série do IBGE registra 127,5 milhões de frutos em 2001, mais de três vezes o volume atual.
O ano mais fraco da série recente foi 2024, com 36 milhões. Em 2025, a colheita subiu um pouco, mas continuou longe dos 52,8 milhões de 2023.
O próprio agrônomo da Emater-MG já tinha falado do problema em 2023. “Frutal já foi o maior produtor de abacaxi do Brasil”, afirmou Postali ao Diário do Comércio, citando terra mais cara, avanço da cana e dos grãos e doenças que levaram produtores a trocar de cultura ou de região.
O problema mais temido é a fusariose, um fungo que se espalha pelas mudas. Em caso de infestação, há propriedades que chegam a perder 80% da produção, relatou o agrônomo na mesma entrevista.
Aparecida de Minas, o distrito que vive do abacaxi
A lavoura de Frutal tem um centro, que é o distrito de Aparecida de Minas. Ali se concentram 75% da produção de abacaxi do município, disse o vice-presidente do Sistema Faemg Senar, Ebinho Bernardes, na abertura da feira de 2025.

O distrito reúne mais de 130 produtores organizados na Coopercisco, a cooperativa local, informa o Sebrae Minas. Na região, há produtor de meio hectare e há produtor de 40 hectares, explicou Postali, porque a fruta tem custo alto, mas dá renda em área menor do que a soja e a cana.
O abacaxi do Triângulo vai para São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e para o Sul do país, relatou o Diário do Comércio, e ganhou fama no mercado pelo sabor, pelo aroma e por durar mais na prateleira.
Gente chegando: o que o Censo mostra sobre a cidade
A Super Rádio Tupi diz que a capital do abacaxi atrai moradores pela qualidade de vida. O que dá para medir é o tamanho da população, e aí o IBGE mostra crescimento acima da média.
Frutal tinha 53.468 moradores no Censo de 2010 e passou a 58.588 no Censo de 2022, uma alta de 9,6%. No mesmo período, a população de Minas Gerais cresceu 4,8% e a do Brasil, 6,5%.
A estimativa do IBGE para 2025 chegou a 61.275 habitantes, quase 2.700 pessoas a mais do que o Censo tinha contado em 2022.
A cidade também tem universidade pública. A Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) foi estadualizada em Frutal em 2007 e hoje tem cerca de 1.100 alunos no campus, relata a Super Rádio Tupi.
A nota das escolas, sem enfeite
A reportagem da rádio fala em educação exemplar. O retrato mais recente é o Ideb 2025, que o Inep soltou em agosto de 2026 e que junta nota de prova e aprovação dos alunos das escolas públicas:
| Etapa (rede pública) | Frutal | Minas Gerais | Brasil |
|---|---|---|---|
| Anos iniciais (1º ao 5º ano) | 6,1 | 6,4 | 6,1 |
| Anos finais (6º ao 9º ano) | 5,1 | 5,3 | 5,0 |
| Ensino médio | 4,2 | 4,5 (*) | 4,3 |
(*) No ensino médio, o Inep mostra o número de Minas Gerais pela rede estadual, que concentra as escolas públicas dessa etapa no estado.
Lendo a tabela, Frutal fica na média do Brasil e um pouco abaixo da média mineira nas três etapas. O que chama atenção é o salto, porque nos anos finais a nota subiu de 4,4 em 2023 para 5,1 em 2025, e no ensino médio foi de 3,6 para 4,2.
Uma festa com abacaxi até no palco
A fruta ganhou até festa própria. A 11ª Feira de Agronegócios do Abacaxi aconteceu de 31 de julho a 3 de agosto de 2025, em Aparecida de Minas, e bateu recorde com 26 expositores, informou a prefeitura de Frutal no Instagram.

O evento é feito pela Coopercisco com o Sebrae Minas e a prefeitura, com palestra técnica, rodada de negócios e show à noite. Em 2024, a feira movimentou cerca de R$ 6 milhões em negócios, informou o Sebrae Minas.
O canal da feira no YouTube guarda o registro da 4ª edição, de 2016, com o dia de campo no meio das fileiras de abacaxi e a festa à noite:
Com 39 milhões de frutos em 2025, Frutal segue na frente em Minas Gerais com folga de quase 12 milhões sobre Canápolis, a segunda colocada. A pergunta que a próxima pesquisa do IBGE vai responder é se a lavoura volta a crescer ou continua encolhendo.

