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Usina de 360 MW começa a testar combustível produzido com casca de coco após universidade brasileira transformar 19 toneladas de resíduos em material capaz de substituir parte do carvão

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 20/10/2026 às 13:12 Atualizado em 20/10/2026 às 13:15
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Usina de Pecém testa biocarvão feito com mais de 19 toneladas de casca de coco em unidade de 360 MW. Projeto recebeu R$ 2,7 milhões.

A mistura de carvão mineral com um combustível produzido a partir da casca do coco verde entrou na caldeira de uma das unidades da termelétrica de Pecém, no Ceará, durante um teste industrial realizado em 14 de outubro de 2026. Segundo a Universidade Estadual do Ceará (Uece), a experiência foi realizada em parceria com a Energia Pecém, do Grupo Diamante Energia, depois de pesquisadores processarem mais de 19 toneladas de resíduos para produzir um combustível capaz de substituir parte do carvão mineral.

O ensaio ocorreu na Unidade Geradora 1, de 360 megawatts (MW), e colocou em condições reais de operação uma tecnologia desenvolvida desde 2024. A proposta é aproveitar resíduos agrícolas e investigar se a mistura pode reduzir o uso de combustível fóssil sem prejudicar o funcionamento da usina.

Usina de Pecém utiliza 150 toneladas de combustível em teste industrial

A equipe responsável pelo projeto preparou uma carga de aproximadamente 150 toneladas para realizar o primeiro teste de combustão conjunta.

Desse total, 148,5 toneladas eram de carvão mineral e 1,5 tonelada correspondia ao biocarvão produzido com casca de coco.

O material renovável representou 1% da mistura em massa. Essa proporção foi escolhida para o ensaio inicial, que buscou observar como o novo combustível se comportaria dentro dos equipamentos industriais.

A experiência ocorreu na Unidade Geradora 1 da termelétrica, cuja capacidade instalada é de 360 MW. A usina possui duas unidades geradoras, com capacidade total de 720 MW.

Universidade processa 19 toneladas de casca de coco e obtém 1,5 tonelada de biocarvão

Antes de chegar à caldeira, o combustível passou por uma sequência de etapas dentro da estrutura de pesquisa da Uece.

Foram processadas mais de 19 toneladas de casca de coco verde, que deram origem a mais de seis toneladas de pellets, pequenos cilindros feitos com o material vegetal compactado.

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Esses pellets foram utilizados na produção de aproximadamente 1,5 tonelada de biocarvão, posteriormente destinada ao ensaio industrial.

Desde o início do projeto, os pesquisadores trabalharam com cerca de 13.200 cascas de coco, equivalentes a aproximadamente 20 toneladas de biomassa.

O processamento também gerou 2.380 litros de bio-óleo, outro produto obtido durante a transformação térmica dos resíduos.

Casca de coco passa por aquecimento controlado para virar combustível sólido

A transformação começa com a preparação do material vegetal, que precisa apresentar características adequadas para entrar nos equipamentos de processamento.

Depois, a biomassa é submetida à pirólise, um processo que aquece a matéria orgânica em um ambiente com pouco ou nenhum oxigênio.

Diferentemente da queima comum, essa técnica evita a combustão completa do material. O aquecimento modifica a estrutura da casca e produz uma parte sólida rica em carbono, além de gases e líquidos.

O resultado é o biocarvão, combustível que pode ser misturado ao carvão mineral em proporções controladas.

A qualidade do produto depende de fatores como temperatura, umidade e tempo de processamento. Essas condições são avaliadas pelos pesquisadores antes de sua aplicação industrial.

Pesquisa iniciada em 2024 mobiliza mais de 40 profissionais e estudantes

O desenvolvimento começou em 2024, quando a Energia Pecém e a Uece iniciaram a parceria para estudar formas de aproveitar resíduos de biomassa na geração termelétrica.

A coordenação científica é realizada pela professora Mona Lisa Moura, responsável pelo Laboratório de Conversão Energética da universidade.

A iniciativa reúne, direta e indiretamente, mais de 40 profissionais e estudantes. Além da Uece, participam pesquisadores da Universidade Federal do Ceará, da Universidade de Fortaleza e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Os trabalhos envolvem conhecimentos de engenharia, física, química e energia. A participação de estudantes também permite desenvolver formação técnica em processos industriais e aproveitamento energético de resíduos.

Investimento de R$ 2,7 milhões permitiu construir uma planta piloto de bioenergia

Em julho de 2025, a universidade inaugurou o Espaço BioEnergia e uma planta piloto para processar biomassa do coco verde.

A estrutura foi instalada no campus Itaperi, em Fortaleza, com suporte técnico do Instituto de Desenvolvimento, Estratégia e Conhecimento (Idesco).

O projeto recebeu investimento previsto de R$ 2,7 milhões, dentro do Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação regulado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

A duração estabelecida foi de 24 meses, com término previsto para dezembro de 2026. Na planta piloto, os pesquisadores conseguem acompanhar as condições de aquecimento e avaliar a qualidade do combustível produzido.

Foi nessa estrutura de pesquisa que o material começou a ser preparado antes de seguir para a instalação industrial em Pecém.

Biocarvão apresentou maior poder calorífico e menos enxofre nos testes laboratoriais

Antes do ensaio na termelétrica, os pesquisadores analisaram características químicas e energéticas do combustível.

Os testes de laboratório indicaram que o biocarvão produzido com casca de coco apresentou poder calorífico superior ao carvão mineral utilizado na usina.

Uece e Energia Pecém fazem teste inédito com biocarvão produzido a partir da casca de coco verde
Foto: UECE

Poder calorífico é a quantidade de energia liberada quando determinada quantidade de combustível é queimada. Outro resultado foi o teor de enxofre, que ficou mais de dez vezes menor no biocarvão analisado.

O enxofre presente nos combustíveis pode contribuir para a formação de gases poluentes durante a combustão. Essas características favoreceram a continuidade da pesquisa, mas não comprovam, isoladamente, que a mistura terá menor custo ou reduzirá todas as emissões da operação industrial.

Caldeira de 360 MW passa a fornecer dados sobre a queima do combustível híbrido

Na operação de 14 de outubro, os técnicos acompanharam como a mistura se comportava dentro dos equipamentos da Unidade Geradora 1.

Uma das preocupações era verificar se o novo material poderia passar pelos sistemas de moagem e alimentação usados com carvão mineral.

A estabilidade da chama também entrou na avaliação. Mudanças no comportamento da combustão podem exigir ajustes operacionais.

Outro ponto analisado foi a formação de cinzas, resíduos sólidos gerados durante a queima. As equipes coletaram informações sobre possíveis alterações nas emissões atmosféricas e no funcionamento da caldeira.

A experiência permitiu observar o combustível em condições reais, mas os resultados finais de desempenho ainda dependem da análise dos dados coletados.

Resíduos do coco podem ganhar valor para produtores e empresas do Ceará

A disponibilidade de matéria-prima é uma das razões para desenvolver o projeto no Ceará. O estado possui uma cadeia produtiva ligada ao cultivo e ao processamento do coco. Após a retirada da água e da polpa, parte das cascas precisa receber uma destinação adequada.

Esse material ocupa espaço e pode gerar custos para armazenamento, transporte e descarte. A fabricação de biocarvão oferece uma possibilidade de aproveitamento industrial.

Caso a tecnologia avance, produtores rurais, empresas de processamento e responsáveis pela coleta de resíduos poderão participar de uma futura cadeia de fornecimento.

Ainda será necessário avaliar custos, disponibilidade contínua de cascas e distâncias de transporte.

Universidade e empresa precisam definir se o combustível poderá ser usado continuamente

A etapa seguinte será examinar os dados coletados durante a operação da caldeira. Os pesquisadores deverão avaliar se a mistura apresentou comportamento adequado e quais ajustes seriam necessários para novas experiências.

Também será preciso comparar o custo de produção do biocarvão com o carvão mineral utilizado pela termelétrica.

Uece e Energia Pecém fazem teste inédito com biocarvão produzido a partir da casca de coco verde
Foto: UECE/Reprodução

O projeto tem término previsto para dezembro de 2026, mas não foi anunciado um cronograma definitivo para adoção comercial do combustível.

A experiência também não representa a conversão da usina para uma operação inteiramente renovável. A proposta permanece concentrada na substituição parcial do combustível fóssil.

A caldeira já recebeu a mistura produzida pela universidade. Agora, os resultados industriais deverão orientar a continuidade da pesquisa.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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