Dois estudantes de ensino médio de Mumbai, na Índia, criaram o Walkfit, um circuito com seis sensores que se acopla a bengalas já existentes. O sistema mede quanto peso a pessoa descarrega no apoio, gera mapas de calor em tempo real e sinaliza risco de queda antes do acidente.
A ideia não nasceu em laboratório de universidade, e sim dentro de casa. Dois estudantes de 18 anos de Mumbai, Rahi Shah e Hriday Boriawala, passaram dois anos desenvolvendo o Walkfit, um acessório que transforma qualquer bengala comum em um equipamento capaz de antecipar o risco de queda, segundo o portal The Better India.
O motivo do projeto tem nome e endereço. A avó de Rahi tem osteoporose no quadril, e a avó de Hriday passou por uma cirurgia de substituição do joelho anos atrás as duas, pela idade e pelas condições de saúde, convivem com risco elevado de cair. Foi essa preocupação doméstica que virou protótipo, prêmio internacional e pedido de patente.
O que exatamente é o Walkfit

A primeira decisão de projeto foi abrir mão da ambição maior. A dupla queria criar uma bengala inteira, capaz de analisar quedas e apontar diagnósticos, mas o custo inviabilizou o plano e obrigou a uma virada de rota.
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A solução foi partir do que o usuário já tem em casa. Como a maioria dos idosos com dificuldade de marcha já anda com bengala, os dois passaram a desenvolver um sistema acoplável a qualquer modelo existente, o que barateia e amplia o alcance. Quedas em idosos são tratadas como problema de saúde pública por entidades como a Organização Mundial da Saúde.
A descrição que eles mesmos dão é simples. “O produto é um circuito, um acessório que pode ser instalado em qualquer bastão”, resumiu Rahi, deixando claro que não se trata de vender uma bengala nova.
Seis sensores e a conta do peso
A engenharia por trás está na distribuição dos pontos de leitura. O equipamento tem seis sensores de pressão: dois na empunhadura e quatro na base da bengala, posicionados para captar como a força se espalha durante o apoio.
O dado central não é a passada, é o quanto a pessoa se apoia. O sistema calcula qual fração do peso do usuário está sendo sustentada pela bengala, e é esse número que serve de termômetro.
A leitura desse indicador é direta. “Um alto nível de dependência indica um maior risco de queda”, explicou Rahi, acrescentando que, com base nisso, o dispositivo estima a probabilidade do tombo e ajuda a apontar problemas de fundo.
Os mapas de calor que aparecem na tela

Os dados não ficam parados dentro do circuito. Módulos Bluetooth transmitem as informações para um computador, que gera mapas de calor em tempo real com os pontos de pressão da bengala.
A leitura visual foi pensada para ser óbvia. No mapa, o azul indica pressão baixa e o vermelho indica pressão alta, mostrando de imediato onde o corpo está descarregando mais força.
E a interpretação desse desenho revela o problema físico. Se a pressão se concentra do lado esquerdo, há indício de dificuldade no joelho ou no tornozelo direito, já que a tendência natural é aliviar o lado que dói e inclinar o corpo para o oposto, conforme explicam os autores.
Dois anos, três protótipos e uma competição
O ponto de partida foi um desafio escolar. A oportunidade apareceu em uma competição de STEM em 2022, quando a dupla foi desafiada a criar um protótipo funcional sobre um tema à escolha deles.
A pergunta que orientou o trabalho ficou registrada. “Será que poderíamos criar uma ferramenta preventiva que antecipasse o risco de quedas e alertasse os cuidadores a tempo?”, foi o que os dois se perguntaram no início.
O caminho até a versão atual foi longo. Foram cerca de três meses só de pesquisa e desenho do circuito e, nos dois anos seguintes, três protótipos diferentes até chegar ao modelo final, em janeiro de 2024.
De peças de Lego a produto com patente
A trajetória técnica dos dois começou cedo. O interesse por robótica ganhou impulso em 2019, quando a escola deles, a Podar International, inaugurou um laboratório da área e a dupla, então com 12 anos, entrou em uma competição.
Depois disso veio o estudo formal. Eles se matricularam na Omotec, fizeram um curso de Python e, nos cinco anos seguintes, acumularam formação em robótica, programação, eletrônica e STEM.
A evolução é descrita por eles sem rodeios. “Começamos com robôs básicos de Lego e chegamos à criação de produtos industriais”, contou Rahi ao portal indiano.
O número da OMS que explica a urgência
O problema que os dois atacaram tem escala global. Um relatório da Organização Mundial da Saúde aponta que as quedas são a segunda principal causa de morte por lesões não intencionais no mundo.
E o recorte por idade é ainda mais duro. Adultos com mais de 60 anos concentram o maior número de quedas fatais, segundo o mesmo levantamento.
O volume de atendimentos completa o quadro. São 37,3 milhões de quedas por ano que exigem atendimento médico, número que ajuda a entender por que uma ferramenta de previsão desperta interesse clínico.
O que diz a fisioterapeuta que acompanhou o projeto
A dupla não desenvolveu o aparelho sozinha. Os dois trabalharam com fisioterapeutas para entender a biomecânica das quedas, buscando embasar o que os sensores deveriam medir.
Uma das profissionais envolvidas descreve o cenário que motiva o uso de apoios. “A osteoartrite, causada pelo desgaste das articulações, surge após certa idade em quase todas as pessoas. Costumamos recomendar dispositivos auxiliares para muitas pessoas com mais de 70 anos para lidar com o desequilíbrio”, afirmou a fisioterapeuta Meghavi Desai Bhuptani.
Ela também aponta onde enxerga utilidade prática. “O mapeamento feito pelo Walkfit pode ajudar os usuários a melhorar a marcha e prevenir quedas. Também será muito útil para pessoas que sofreram um AVC ou têm doença de Parkinson”, avaliou.
Como o teste foi feito
A validação começou onde o projeto nasceu. Os dois testaram o protótipo primeiro nos próprios avós, exatamente as pessoas que motivaram a invenção.
Depois o teste ganhou escala. O equipamento foi aplicado em 50 idosos residentes em lares de repouso, ampliando a variedade de condições e de padrões de marcha analisados.
E os resultados passaram por conferência externa. Os fisioterapeutas validaram os dados obtidos, segundo a reportagem etapa que separa um protótipo de feira de ciências de algo com pretensão clínica.
Prêmios, patente e o que ainda falta
O reconhecimento veio em circuitos de competição. A dupla ficou em segundo lugar no Techfest do IIT Bombay e obteve uma patente provisória para a invenção.
Houve também premiação internacional. Eles se classificaram para a Feira Nacional IRIS e para a Olimpíada Mundial de STEM e Robótica, onde receberam o prêmio Escolha dos Juízes Internacionais.
Ainda assim, é preciso registrar o estágio do produto. Trata-se de uma patente provisória e de um sistema que hoje envia dados para um computador, e não de um equipamento com aprovação sanitária ou distribuição comercial estabelecida.
O aplicativo que ainda não existe
O próximo passo planejado é tirar o dado do laptop. A dupla pretende desenvolver um aplicativo de celular para tornar as informações mais acessíveis ao próprio usuário.
O uso pretendido tem um público específico em mente. Em um cenário em que muitos idosos moram sozinhos, o objetivo é alertar filhos ou cuidadores que vivem longe quando o sistema detectar alteração no padrão de apoio.
Há ainda uma aplicação voltada ao acompanhamento médico. O aparelho poderia servir para profissionais monitorarem pacientes com problemas de mobilidade, acompanhando a evolução do quadro e a eficácia do tratamento em curso.
Quanto deve custar
O preço é apresentado como parte do argumento do projeto. A previsão é que o dispositivo fique entre 3.000 e 5.000 rúpias, faixa que equivale a algumas centenas de reais na conversão atual.
A comparação feita pelos autores é com o que já existe. O valor seria bem inferior ao das ferramentas de diagnóstico atualmente usadas para o mesmo tipo de avaliação, segundo eles.
Vale a ressalva de sempre para produtos nesse estágio. O preço citado é uma estimativa dos criadores, e não um valor de venda praticado, já que o equipamento ainda está em desenvolvimento.
O detalhe que muda a leitura da história
Por trás dos sensores há uma motivação bem pouco técnica. “Queríamos construir algo que fosse realmente útil para nossas famílias”, contou Hriday sobre a escolha do tema.
A frase seguinte carrega o peso do que já aconteceu. “Se tivéssemos sabido da condição dela antes, talvez pudéssemos ter abordado o problema de forma mais eficaz”, completou.
É esse ponto que separa o projeto de um exercício escolar. Os dois afirmam querer evitar que outras famílias passem pelo que as deles passaram, e é dessa origem doméstica que o aparelho tirou o seu recorte.
E você, colocaria um sensor na bengala do seu avô?
Dois estudantes de 18 anos, seis sensores de pressão e dois anos de tentativa transformaram uma preocupação com as próprias avós em um acessório que promete avisar antes do tombo, e não depois dele. O aparelho ainda depende de aplicativo, de validação mais ampla e de chegar ao mercado, mas o caminho já rendeu patente provisória e prêmio internacional.
E você, confiaria em um aparelho para monitorar o equilíbrio de um idoso da sua família? Ou acha que nada substitui o acompanhamento presencial de perto? Conte nos comentários a sua opinião e marque aquela pessoa que cuida de alguém em casa.

