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Um molusco de apenas 3 centímetros trazido da Ásia na água dos navios se espalhou por mais de 50 hidrelétricas brasileiras, entope tubulações e sistemas de resfriamento e já obriga usinas a gastar rios de dinheiro para combater uma praga que ninguém consegue mais erradicar

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 08/08/2026 às 17:33 Atualizado em 08/08/2026 às 17:34
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invasão do mexilhão dourado no Brasil
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Molusco invasor de origem asiática, o mexilhão dourado chegou à América do Sul pela água de lastro e hoje pressiona hidrelétricas, abastecimento de água, piscicultura e ecossistemas brasileiros.

Ele mede poucos centímetros, tem concha de coloração amarelada e, à primeira vista, parece apenas mais um pequeno molusco de água doce. Mas o mexilhão dourado, conhecido cientificamente como Limnoperna fortunei, virou uma das espécies invasoras mais preocupantes para rios, reservatórios e estruturas hidráulicas no Brasil.

De origem asiática, com distribuição original associada à China, o molusco foi introduzido na América do Sul de forma não intencional pela água de lastro de navios e se espalhou por bacias estratégicas. O Plano Nacional do Ibama registra impactos ambientais e econômicos em regiões brasileiras e aponta ocorrência em 50 reservatórios ligados a hidrelétricas até a base analisada no documento.

O que é a água de lastro e como ela levou o mexilhão dourado à América do Sul

A água de lastro é usada por grandes embarcações para manter estabilidade durante a navegação. Quando o navio está sem carga, ele pode captar água em tanques internos; ao chegar ao destino e receber mercadorias, essa água é descartada.

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O problema é que esse processo pode transportar organismos vivos de uma região para outra. No caso do mexilhão dourado, larvas e indivíduos microscópicos podem ser carregados junto com a água e liberados em ambientes onde a espécie não existia.

Segundo a Embrapa Pantanal, o mexilhão dourado foi trazido para a América do Sul na água de lastro de navios ligados ao comércio entre países asiáticos e a Argentina. O primeiro registro regional ocorreu em 1991, na foz do rio da Prata.

A invasão que saiu do rio da Prata e avançou por bacias brasileiras

Depois da chegada à Argentina, a espécie passou a se dispersar por rios conectados à navegação. A Embrapa aponta que a navegação comercial entre a Argentina e países da Bacia do Prata, especialmente pelos rios Paraguai e Paraná, se tornou um dos principais vetores de expansão no Brasil.

O Plano Nacional do Ibama descreve a introdução do mexilhão dourado na América do Sul como não intencional e associada à água de lastro.

A partir do estuário do Rio da Prata, a espécie se dispersou pela Bacia do Prata, provocando impactos ambientais e econômicos.

Molusco invasor de origem asiática, o mexilhão dourado chegou à América do Sul pela água de lastro e hoje pressiona hidrelétricas, abastecimento de água, piscicultura e ecossistemas brasileiros.
invasão do mexilhão dourado no Brasil

O avanço chegou a áreas sensíveis. O Ibama registra ocorrência na UHE Sobradinho, no rio São Francisco, e estudo publicado na Acta Limnologica Brasiliensia informa que o mexilhão dourado foi registrado na região amazônica em agosto de 2023, no rio Tocantins, no Pará.

Por que o mexilhão dourado se multiplica com tanta força

O mexilhão dourado chama atenção pela capacidade de se fixar em superfícies duras submersas. Ele pode formar incrustações em pedras, cascos de embarcações, grades, tubulações, bombas, telas de tanques e estruturas de concreto.

O Plano Nacional do Ibama aponta que a espécie atinge com frequência cerca de 30 milímetros, embora registros excepcionais possam ser maiores. Essa dimensão pequena facilita sua entrada em sistemas hidráulicos, principalmente quando ainda está em fase larval.

Na Amazônia, o estudo publicado pela Acta Limnologica Brasiliensia encontrou, em amostragens feitas em outubro de 2024 no Pedral do Lourenço, no rio Tocantins, densidade média de 11.940 indivíduos por metro quadrado e máxima de 15.849 indivíduos por metro quadrado.

O ataque às hidrelétricas brasileiras e aos sistemas de resfriamento

Nas hidrelétricas, o problema deixa de ser apenas ambiental e passa a atingir diretamente a operação. As usinas dependem da circulação constante de grandes volumes de água, tanto para geração quanto para sistemas auxiliares.

Quando o mexilhão dourado se fixa em grades, canos e sistemas de resfriamento, ele reduz a passagem da água, aumenta a necessidade de manutenção e pode comprometer o funcionamento de equipamentos.

O Ibama registra o uso emergencial de produtos e métodos voltados especificamente ao controle da espécie em sistemas de resfriamento de usinas hidrelétricas.

O caso de Itaipu mostra a dimensão do alerta. De acordo com o Plano Nacional, desde 2001 a usina monitora larvas e adultos no reservatório e na unidade geradora, usando remoção mecânica, aumento de vazão em encanamentos e tintas anti-incrustantes, entre outras medidas.

Os 50 reservatórios com registro e o risco para a infraestrutura elétrica

Molusco invasor de origem asiática, o mexilhão dourado chegou à América do Sul pela água de lastro e hoje pressiona hidrelétricas, abastecimento de água, piscicultura e ecossistemas brasileiros.
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A lista inclui reservatórios nos rios Jacuí, Canoas, Pelotas, Uruguai, Iguaçu, Jordão, Tibagi, Paranapanema, Tietê, Paraná, Grande, Paranaíba, Claro e São Francisco. Isso mostra que a invasão não está restrita a um ponto isolado, mas espalhada por sistemas hidrográficos de grande importância econômica.

O problema é permanente porque a espécie se aproveita justamente de estruturas submersas, água em circulação e transporte humano.

Em hidrelétricas, saneamento, indústria, pesca e navegação, o controle exige monitoramento constante e manutenção repetida.

O prejuízo vai além da energia elétrica

Embora o impacto nas hidrelétricas seja um dos mais visíveis, o mexilhão dourado também afeta captações de água, sistemas de abastecimento, canais, embarcações, eclusas, tanques-rede de piscicultura e equipamentos usados em rios e reservatórios.

O Plano Nacional relata ações de monitoramento e limpeza em sistemas de captação de água no lago de Itaipu, além de retirada mecânica do molusco em tubulações. Também registra impactos em tanques-rede, incluindo diminuição do fluxo, aumento do peso das estruturas, queda na produção e mortandade de peixes.

Na aquicultura, o documento cita custos decorrentes de impacto sobre sistemas de cultivo na ordem de R$ 3 mil a R$ 4 mil por 1.000 kg de peixes mortos ou por diminuição de rendimento final, com base em informações reunidas na consulta pública do plano.

O impacto ambiental e o risco na cadeia alimentar

A invasão também altera ecossistemas aquáticos. Como filtrador, o mexilhão dourado consome material em suspensão e pode modificar a disponibilidade de alimento para organismos nativos, além de ocupar superfícies antes usadas por outras espécies.

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O Plano Nacional registra que peixes passaram a consumir o molusco em diferentes ambientes. Estudos citados pelo Ibama identificaram presença do mexilhão dourado no conteúdo alimentar de várias espécies, o que mostra que ele passou a integrar relações ecológicas locais.

Esse ponto exige atenção porque o molusco pode acumular metais tóxicos. O Ibama cita risco de contaminação para a população humana que consome peixes predadores do mexilhão, devido ao potencial de bioacumulação de metais na espécie.

Por que erradicar o mexilhão dourado é considerado inviável

Uma vez instalado em rios e reservatórios, o mexilhão dourado se torna extremamente difícil de eliminar. Suas larvas circulam na água, podem ser transportadas em pequenas embarcações, equipamentos, redes, tanques e objetos úmidos, além de se fixarem em superfícies submersas.

O Plano Nacional do Ibama afirma que não são conhecidos casos de erradicação do mexilhão dourado após a detecção e dispersão da espécie na América do Sul e na Ásia. O documento também informa que, atualmente, não existem métodos disponíveis para erradicação em ambientes já invadidos.

Por isso, a estratégia mais realista passa por prevenção, detecção precoce, monitoramento e controle localizado. O objetivo é reduzir danos onde a espécie já está presente e impedir que ela chegue a bacias ainda não contaminadas.

Como o Brasil tenta conter o avanço do mexilhão dourado

O controle depende de ações combinadas. Em áreas já invadidas, empresas e órgãos públicos recorrem a inspeções, limpeza mecânica, monitoramento de larvas, controle de incrustações e técnicas específicas para sistemas industriais e hidrelétricos.

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O Ibama destaca a importância da prevenção em bacias ainda não contaminadas, incluindo cuidados com embarcações, equipamentos de pesca, instrumentos de coleta, tanques-rede e qualquer estrutura capaz de transportar larvas ou adultos entre corpos d’água.

A água de lastro também segue como ponto central. O Plano Nacional cita diretrizes internacionais para troca oceânica, tratamento e gestão da água de lastro, além da importância desse controle para prevenir novas invasões e reduzir a dispersão da espécie no continente.

Uma espécie pequena que expõe uma vulnerabilidade enorme

A história do mexilhão dourado no Brasil mostra como uma espécie de poucos centímetros pode gerar efeitos duradouros sobre infraestrutura, economia e biodiversidade.

O molusco não derruba uma usina de uma vez, mas impõe um custo contínuo de vigilância, limpeza, controle e adaptação.

A ameaça também expõe a fragilidade de rios conectados por navegação, reservatórios, transporte de equipamentos e atividades produtivas. Cada deslocamento sem controle pode abrir uma nova frente de invasão.

Enquanto a erradicação não é uma opção viável em ambientes já tomados, a prevenção se tornou a parte mais importante da resposta. No caso do mexilhão dourado, impedir a chegada a uma nova bacia é muito mais barato, eficaz e seguro do que tentar controlar o problema depois que ele se instala.


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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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