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Um empresário romeno pagou do próprio bolso e manteve escultores-alpinistas pendurados num paredão do Danúbio por dez anos, até revelar na rocha um rosto de mais de 40 metros, a maior escultura em pedra da Europa

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 26/07/2026 às 17:51 Atualizado em 26/07/2026 às 18:01
Escultores alpinistas passaram dez anos pendurados num paredão do Danúbio para revelar o rosto de Decébalo, com mais de 40 metros, na Romênia.
Escultores alpinistas passaram dez anos pendurados num paredão do Danúbio para revelar o rosto de Decébalo, com mais de 40 metros, na Romênia.
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Não havia estrada até o local, apenas barco. Sem acesso para máquina pesada, os alpinistas subiam ao andaime carregando sacos de ferramenta de até 50 quilos nas costas, atravessando uma área infestada de víboras, oito meses por ano, durante uma década inteira.

O rosto do rei dácio Decébalo foi esculpido em alto relevo num paredão do Danúbio, na margem romena do desfiladeiro das Portas de Ferro, perto de Orșova, entre as localidades de Eșelnița e Dubova. A obra foi inteiramente idealizada e financiada pelo empresário romeno Iosif Constantin Drăgan, fundador da ButanGas, e executada por uma equipe de doze pessoas comandada pelo escultor Florin Cotarcea, natural da própria Orșova, ao longo de dez anos de trabalho.

O custo declarado passou de um milhão de dólares, valor que saiu do bolso de quem foi apontado pela revista romena Capital como o homem mais rico do país em 2006. Sob o queixo do rei ficou gravada em latim a frase Decebalus Rex, Dragan Fecit, ou Rei Decébalo, feito por Drăgan. Hoje o monumento é apresentado como a mais alta escultura em pedra da Europa, embora suas medidas exatas variem bastante conforme a fonte consultada.

Dez anos pendurados, oito meses por ano

Escultores alpinistas passaram dez anos pendurados num paredão do Danúbio para revelar o rosto de Decébalo, com mais de 40 metros, na Romênia.
O local só é acessível de barco, o que impediu o uso de qualquer máquina pesada na obra.

A logística do canteiro explica por que a obra demorou tanto. O ponto escolhido no paredão do Danúbio só é acessível por barco, o que inviabilizou o uso de qualquer equipamento pesado. Tudo que subiu até a rocha subiu nas costas de alguém.

A rotina dos escultores alpinistas era brutal. Segundo relatos publicados pela imprensa romena, eles atravessavam o rio todos os dias, carregavam sacos de ferramenta pesando entre 40 e 50 quilos e escalavam até o andaime instalado na parede, em uma região onde víboras são comuns. A temporada de trabalho durava oito meses por ano, porque no inverno o paredão do Danúbio simplesmente não permite que ninguém fique pendurado ali.

O comando técnico ficou com Florin Cotarcea, escolhido em um concurso entre vários artistas. Ele próprio contou depois que nem acreditava que venceria a seleção. Ao redor dele trabalharam onze alpinistas, formando a equipe de doze pessoas que aparece em todos os registros da obra.

Havia ainda o fator que ninguém consegue treinar direito. Esculpir detalhe fino a dezenas de metros de altura, sobre um rio, suspenso em corda, significa que o corpo trabalha sob tensão física constante enquanto a mão precisa manter precisão de milímetros. Foi assim durante uma década.

Uma tonelada de dinamite e quatro anos só de acabamento

Escultores alpinistas passaram dez anos pendurados num paredão do Danúbio para revelar o rosto de Decébalo, com mais de 40 metros, na Romênia.
Os escultores alpinistas subiam ao andaime carregando sacos de ferramenta de até 50 quilos nas costas.

A obra foi dividida em duas fases bem distintas, e a primeira delas não tem nada de artesanal. Nos seis anos iniciais, o trabalho consistiu em detonar a rocha com explosivo para chegar à forma básica do rosto, retirando volume bruto do paredão do Danúbio.

O volume de explosivo usado dá a medida da tarefa. Registros sobre o monumento apontam o emprego de mais de uma tonelada de dinamite ao longo do processo, além de marteletes pneumáticos para o trabalho mais controlado.

Os quatro anos seguintes foram inteiramente dedicados ao detalhamento. Olhos, nariz, barba, bigode e as feições que fazem a figura ser reconhecível saíram nessa etapa, quando qualquer erro deixaria de ser corrigível. Uma pedra removida a mais não volta ao lugar, e é essa característica que separa a escultura em rocha de qualquer outra forma de construção.

Antes de tudo isso houve uma etapa de planejamento pouco divulgada. Segundo o material da própria fundação de Drăgan, ele comprou a rocha em 1992 e chamou o escultor italiano Mario Galeotti para avaliar o local e produzir um modelo inicial da obra.

Quem pagou a conta: o homem mais rico da Romênia

Escultores alpinistas passaram dez anos pendurados num paredão do Danúbio para revelar o rosto de Decébalo, com mais de 40 metros, na Romênia.
A área onde a equipe trabalhava é conhecida por ter grande presença de víboras.

Iosif Constantin Drăgan nasceu em Lugoj em 20 de junho de 1917 e morreu em 21 de agosto de 2008. Formou-se em direito em Bucareste em 1938, ganhou bolsa para estudar em Roma em 1940 e construiu carreira empresarial na Itália, onde fundou em 1948 a ButanGas, companhia de distribuição de gás liquefeito de petróleo.

O patrimônio dele chegou ao topo do ranking nacional. A revista Capital o apontou como o segundo romeno mais rico em 2005, com cerca de 850 milhões de dólares, e como o mais rico do país em 2006, com fortuna estimada entre 1,3 e 1,6 bilhão de dólares. Ele tinha 77 anos quando a obra no paredão do Danúbio começou a tomar forma, e acompanhava o andamento de perto.

A figura é controversa na Romênia, e isso precisa ser dito. Drăgan foi uma das principais lideranças do protocronismo, corrente historiográfica nacionalista que procura apresentar a Romênia como berço central da civilização europeia e identificar o país com os dácios e com um suposto império trácio antigo. Ele também é alvo de críticas por supostas ligações com a Securitate, a polícia política do regime comunista, e por sua admiração declarada pelo líder fascista Ion Antonescu.

A motivação da obra vem exatamente dessa visão de mundo. Segundo o material de sua fundação, ao esculpir aquele rosto na montanha ele quis demonstrar a contribuição dos romenos para a formação das culturas europeias, partindo da premissa de que a identidade cultural do país se define antes de tudo por sua composição daco trácia.

O rosto que encara um monumento romano do outro lado

Escultores alpinistas passaram dez anos pendurados num paredão do Danúbio para revelar o rosto de Decébalo, com mais de 40 metros, na Romênia.
Só era possível trabalhar oito meses por ano, porque no inverno ninguém fica pendurado naquele paredão.

A escolha do local não foi acidental, e é aqui que a obra ganha camada política. O rosto de Decébalo foi posicionado exatamente de frente para a Tabula Traiana, uma placa comemorativa romana esculpida na rocha do lado sérvio do rio.

A placa antiga registra a conclusão da estrada militar construída pelo imperador Trajano ao longo do Danúbio. Na prática, ela comemora a derrota final de Decébalo diante de Trajano, em 105, e a absorção do reino da Dácia pelo Império Romano.

O arranjo resultante é uma conversa entre dois monumentos separados por quase dois mil anos e por um rio. De um lado, o registro romano da vitória. Do outro, no paredão do Danúbio, o rosto gigante do rei derrotado encarando de volta. A cena não é acidente geográfico: é resposta encomendada e paga para ser vista da água.

O convite que a Sérvia recusou

Escultores alpinistas passaram dez anos pendurados num paredão do Danúbio para revelar o rosto de Decébalo, com mais de 40 metros, na Romênia.
Os seis primeiros anos foram de dinamite pura, e só nos quatro últimos vieram os detalhes do rosto.

O plano original de Drăgan era ainda mais ambicioso e mais explícito. Ele tentou convencer o lado sérvio a esculpir também uma cabeça gigante de imperador romano na margem oposta, criando um confronto visual direto entre as duas figuras através do rio.

Os sérvios recusaram. As fontes divergem sobre qual imperador ele tinha em mente, com registros apontando ora Trajano, ora Adriano, e essa é uma das várias imprecisões que cercam a história da obra.

O que ficou foi apenas o lado romeno da conversa. E, para deixar claro quem havia bancado tudo, a inscrição em latim gravada abaixo do queixo do rei não menciona os escultores nem o país: menciona o financiador, em uma fórmula que imita as dedicatórias antigas.

A obra que nunca foi terminada

Este é o dado que raramente aparece nas legendas de foto e que muda a leitura do monumento. Os trabalhos foram interrompidos em 2004 e nunca retomados, e o que se vê hoje no paredão do Danúbio é uma obra incompleta.

O percentual varia conforme quem conta. Segundo o jornal Adevărul, pouco mais da metade do projeto planejado chegou a ser executado. Alpinistas que trabalharam na rocha estimam algo em torno de 60% de conclusão, com falta de acabamentos, ajustes e detalhes finais que nunca foram feitos. De longe a figura parece pronta, e é de perto que a diferença aparece.

Falta, entre outras coisas, a cușma, o gorro tradicional dácio que deveria coroar a cabeça. Há ainda uma cicatriz visível de emergência estrutural: o nariz da escultura precisou ser refeito com armadura de ferro e cimento, depois que o bloco de pedra original ameaçou se desprender, e a diferença de tonalidade pode ser notada por quem se aproxima de barco.

A explicação para a parada é politicamente carregada e nunca foi totalmente esclarecida. Vale registrar que parte da imprensa romena atribuiu a interrupção à morte do financiador, o que é incorreto: Drăgan morreu em 21 de agosto de 2008, quatro anos depois da paralisação.

Quanto mede, afinal, o rosto na rocha

Escultores alpinistas passaram dez anos pendurados num paredão do Danúbio para revelar o rosto de Decébalo, com mais de 40 metros, na Romênia.
Mais de uma tonelada de explosivo foi usada para chegar à forma básica da figura.

Aqui está o ponto mais confuso de toda a documentação disponível, e é preciso ser honesto com o leitor. Não existe uma medida consensual para a escultura.

As versões em circulação são estas. A Wikipédia, em inglês e em romeno, informa 55 metros de altura por 25 de largura. A World Record Academy, ao declarar o monumento como a maior escultura em rocha à margem de um rio no mundo, registra 42,9 metros de altura por 31,6 de largura. O jornalista Nick Thorpe, em livro sobre o Danúbio, descreve 40 metros de altura por 25 de largura. Publicações especializadas citam ainda 43 por 25 metros.

A divergência provavelmente vem do critério de medição, se contando apenas o rosto ou incluindo a base e o trecho de rocha acima da testa. O que todas as fontes sustentam é o piso: o rosto tem mais de 40 metros, o que já o coloca como a mais alta escultura em pedra da Europa e faz dele uma figura maior que muitos prédios residenciais. Para comparação, o rosto da Estátua da Liberdade mede cerca de 17 metros.

Quem foi Decébalo e por que ele ainda importa

O personagem escolhido não é decorativo. Decébalo reinou entre os anos 87 e 106 e foi o último rei da Dácia, território que corresponde em boa parte à Romênia atual. Ele unificou tribos dácias fragmentadas e travou guerras sucessivas contra o Império Romano.

A resistência dele virou símbolo nacional. Foram três guerras contra dois imperadores romanos até a derrota final diante de Trajano, em 106, quando o reino foi absorvido por Roma. A identidade nacional romena moderna continua fortemente ancorada nessa herança dácia, e é isso que explica por que um empresário bilionário decidiu gravar aquele rosto em uma parede de pedra.

Existe também um efeito colateral cultural que ninguém planejou. A silhueta do rosto barbudo emergindo do paredão do Danúbio passou a ser comparada aos Argonath, as duas estátuas gigantes que guardam o rio Anduin na obra de fantasia de J. R. R. Tolkien, comparação que ajudou a popularizar o monumento entre viajantes estrangeiros.

O que sobra de dez anos pendurado numa parede

Uma década de trabalho, doze pessoas, uma tonelada de dinamite, mais de um milhão de dólares e um rosto de mais de 40 metros que nunca foi concluído. O monumento de Decébalo é, ao mesmo tempo, façanha técnica, projeto ideológico e obra pessoal de um homem que fez questão de assinar a rocha com o próprio nome.

E você, o que acha desse tipo de obra? Um particular deveria poder esculpir a face de um penhasco natural para eternizar a própria visão de história, ou isso é intervenção agressiva demais em uma paisagem que pertence a todo mundo? A inscrição com o nome do financiador embaixo do rei é homenagem legítima a quem pagou a conta ou vaidade gravada em pedra? E mais: obra parada em 2004, com metade do projeto por fazer, deveria ser retomada ou o inacabado já virou parte da história dela? Comente sua opinião, principalmente se você já esteve nas Portas de Ferro ou trabalha com escultura, alpinismo industrial ou restauro.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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