1. Início
  2. Curiosidades
  3. Para atrair clientes à própria taverna no interior, um ferreiro passou mais de 50 anos construindo com sucata um parque de diversões inteiro de brinquedos movidos só pela gravidade e pela força de quem brinca
Faça um comentário 8 min de leitura

Para atrair clientes à própria taverna no interior, um ferreiro passou mais de 50 anos construindo com sucata um parque de diversões inteiro de brinquedos movidos só pela gravidade e pela força de quem brinca

Imagem de perfil do autor Maria Heloisa Barbosa Borges
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 26/07/2026 às 18:54
Assista o vídeoNo interior da Itália, um ferreiro passou mais de 50 anos construindo à mão, com sucata, um parque de diversões de 37 brinquedos movidos só pela física.
No interior da Itália, um ferreiro passou mais de 50 anos construindo à mão, com sucata, um parque de diversões de 37 brinquedos movidos só pela física.
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Numa colina perto de Treviso, no interior da Itália, o ferreiro Bruno Ferrin passou mais de meio século erguendo à mão, com sucata de aço, um parque de diversões inteiro. São 37 brinquedos que não usam um fio de eletricidade, movidos só pela gravidade e pela força de quem pedala.

Numa colina coberta de álamos perto de Treviso, no norte da Itália, o ferreiro Bruno Ferrin transformou o quintal da própria taverna em um parque de diversões inteiro, construído à mão com sucata de aço ao longo de mais de meio século. A história da Osteria Ai Pioppi, que começou como uma simples barraca de comida e vinho e virou uma atração inusitada, foi contada em reportagem do site Atlas Obscura.

O que torna o lugar único é o funcionamento dos brinquedos. Todas as 37 atrações do parque funcionam sem eletricidade, movidas apenas pelas leis da física e pela força de quem brinca, num terreno de cerca de 6.000 metros quadrados no meio da mata. E há um detalhe que surpreende quem chega: o acesso ao parque é totalmente gratuito, bancado pelo movimento do restaurante.

Uma taverna na mata que virou parque

À primeira vista, a Osteria Ai Pioppi, aos pés da colina de Montello, às margens do rio Piave, parece um restaurante rural comum. Nas grandes mesas de madeira, os clientes pedem pratos tradicionais do Vêneto, como bacalhau com polenta, linguiça e queijo grelhado, e ao lado do estacionamento há um parquinho simples, com escorregador e balanços.

A surpresa vem de uma curta caminhada mata adentro. Ali, a vegetação se mistura aos brinquedos, com galhos retorcidos de glicínia envolvendo a estrutura de sustentação de um tobogã, sob a luz filtrada pelas copas dos álamos. Não há a cacofonia de motores e músicas de carrossel de um parque comum, apenas um silêncio pontuado pelo canto dos pássaros. O ambiente lembra um parque temático congelado no tempo misturado a uma gigantesca instalação de arte, e Ferrin, de avental e chapéu azuis e uma bengala de galho esculpido, parece saído de um livro infantil.

O gancho que mudou tudo

Burno Ferrin transforma tubos de aço usados em brinquedos artesanais para seu parque de diversões sem eletricidade, localizado em uma floresta perto de Treviso, na Itália. 
Todas as fotos: Gianmarco Maraviglia para Atlas Obscura.
Burno Ferrin transforma tubos de aço usados em brinquedos artesanais para seu parque de diversões sem eletricidade, localizado em uma floresta perto de Treviso, na Itália. 
Todas as fotos: Gianmarco Maraviglia para Atlas Obscura.

A história começa muito antes do parque. Ferrin nasceu em 1937, em Treviso, e cresceu imerso nos rituais da vida rural pré-industrial, quando o trigo era colhido com foice e os campos arados com carroças de bois. Terminou a escolaridade obrigatória aos 10 anos, trabalhou em fazendas e, no início dos 30 anos, foi vendedor de farinha, começando o expediente às quatro da manhã. Foi buscando um trabalho de meio período que ele e a esposa, Marisa, abriram a barraca de comida e vinho naquele pedaço da colina, no fim dos anos 1960.

Poucos meses depois, veio o episódio que mudaria tudo. Para atrair famílias, Ferrin decidiu instalar um balanço, mas faltavam dois ganchos, e o ferreiro local disse que não tinha tempo para um serviço tão pequeno, apontando para uma máquina de solda e sugerindo que ele mesmo tentasse. Ferrin passou as três horas seguintes fazendo os ganchos e voltou para casa com os olhos vermelhos, algumas queimaduras leves e uma paixão nova pela sensação de criar algo a partir de um pedaço de metal. Estava plantada a semente do parque.

Como um brinquedo virou 37

Todas as atrações do Ai Pioppi funcionam sem eletricidade, aproveitando as leis da física e o esforço humano.
Todas as fotos: Gianmarco Maraviglia para Atlas Obscura.
Todas as atrações do Ai Pioppi funcionam sem eletricidade, aproveitando as leis da física e o esforço humano.
Todas as fotos: Gianmarco Maraviglia para Atlas Obscura.

O que veio depois foi crescendo sem plano nenhum. Um escorregador recém-instalado fez sucesso, depois vieram os cavalinhos de balanço, e Ferrin começou a perceber que as pessoas iam ao lugar mais pelos brinquedos do que pela comida. Animado com a procura, ele passou um tempo aprimorando a técnica de forja com ferreiros profissionais.

Nunca houve um grande projeto por trás disso, e foi o acaso que ditou o ritmo. Ele fazia um brinquedo, depois outro, e outro, até o parque ocupar os atuais 6.000 metros quadrados com 37 atrações. Hoje, Ferrin passa várias horas por dia na oficina, soldando, furando e pintando, e cada peça pode levar semanas ou meses para ficar pronta. Não é uma linha de produção, e sim a manifestação de uma vocação que apareceu por acaso e nunca mais parou.

Movidos só pela física e pela força de quem brinca

O coração do parque está no fato de nada ali depender de energia elétrica. Uma das atrações é uma centrífuga, uma estrutura cilíndrica de quase quatro metros de altura feita de tubos de aço coloridos, cercada por quatro estações de pedal. A força gerada por quem pedala gira o cilindro tão rápido que prende as pessoas contra a parede, e, para funcionar, é preciso ter quatro amigos pedalando com vontade.

Muitas ideias nasceram da observação, e não de estudo formal, já que Ferrin não tem formação em física ou engenharia. Uma de suas atrações mais populares imita o recuo das cordas dos sinos da igreja, que, quando criança, o erguiam vários metros no ar, enquanto a centrífuga foi inspirada em uma reportagem de TV sobre a máquina usada pela NASA em Cabo Canaveral para treinar astronautas. As criações vão de um tobogã de 17 metros a um pêndulo de 55 toneladas, e Ferrin atribui tudo à intuição e a anotações em um caderno. Por segurança, cada atração é avaliada anualmente por um engenheiro credenciado pelo governo.

Sucata, natureza e uma filosofia de tempo

Fiel à origem, Ferrin constrói tudo reaproveitando tubos de aço antigos coletados com ferreiros locais. Ele brinca que os jovens o elogiam por ser sustentável, mas que reutilizar material velho é simplesmente tudo o que ele sempre soube fazer. O respeito pela mata é levado a sério: antes de cortar uma raiz para abrir caminho a um brinquedo, ele diz pensar no assunto durante uma semana inteira.

Há ainda um perigo inesperado quando ele cava o solo, ligado à história do lugar. A estrada mais próxima marcava a linha de frente dos soldados italianos na Primeira Guerra Mundial, e toda a área ao redor do Piave foi palco de batalhas cruciais entre a Itália e a Áustria-Hungria, o que faz Ferrin encontrar de tudo ao escavar, de túneis a munição antiga. Sua relação com o trabalho é de liberdade total. Ele conta não ter relógio nem celular e diz perceber a passagem do tempo pela mudança da luz do sol, trabalhando no que quer e quando quer.

Um parque gratuito que virou fenômeno

De acordo com Ferrin, em nosso mundo tecnológico acelerado, as crianças precisam de brincadeiras ao ar livre mais do que nunca.Todas as fotos: Gianmarco Maraviglia para Atlas Obscura.
De acordo com Ferrin, em nosso mundo tecnológico acelerado, as crianças precisam de brincadeiras ao ar livre mais do que nunca.
Todas as fotos: Gianmarco Maraviglia para Atlas Obscura.

A decisão de manter o parque de graça é uma escolha de vida. O que sustenta as atrações é o movimento da osteria, que tem capacidade para 1.500 pessoas e, aos domingos, chega a ter filas de até duas horas para o almoço. Ao longo de décadas, amigos sugeriram cobrar uma taxa simbólica, de um ou dois euros, mas Ferrin resiste, dizendo que hoje tudo parece ter um preço e que ele quer que as pessoas venham, comam, aproveitem o ar fresco e brinquem.

A fama chegou pelas redes sociais. Depois de ser descoberto no Instagram e no TikTok, o Ai Pioppi virou uma sensação, frequentemente descrito como um parque de diversões ecológico, e visitantes da Alemanha e da Áustria passaram a incluir uma parada ali a caminho de Veneza, sobretudo após um documentário exibido na TV alemã. A força desse vínculo apareceu na pandemia, quando o local ficou fechado por quase dois anos. Na reabertura, em 27 de março de 2022, a fila de carros foi tão grande que o prefeito da cidade vizinha ligou para reclamar.

Aos 89 anos, ainda soldando

Ferrin não possui formação formal em física ou engenharia. Cada atração é verificada por um engenheiro credenciado pelo governo.
Todas as fotos: Gianmarco Maraviglia para Atlas Obscura.
Ferrin não possui formação formal em física ou engenharia. Cada atração é verificada por um engenheiro credenciado pelo governo.
Todas as fotos: Gianmarco Maraviglia para Atlas Obscura.

Mesmo depois de tudo isso, Ferrin não pensa em parar. Hoje com 89 anos, ele mantém o entusiasmo de criança e diz que a mente não para de lhe dar ideias de como tornar o lugar mais divertido, a ponto de, às vezes, desejar poder voltar a ser criança para brincar ali. Sua maior satisfação é ver gente de todas as idades gritando ao descer um escorregador.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

A continuidade do parque já tem um herdeiro em formação. Nos últimos anos, Ferrin vem passando a paixão pelos brinquedos ao neto Francesco, que cuida da presença digital do local e aprende os segredos da profissão com o avô. Ainda assim, ele não tem pressa de entregar o bastão, afirmando que se diverte demais fazendo o que faz. Para Ferrin, num mundo tecnológico acelerado, as crianças precisam desse tipo de experiência ao ar livre mais do que nunca.

Meio século de brinquedos feitos à mão

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

O que Bruno Ferrin ergueu na colina de Montello não foi só um parque de diversões, e sim a prova de que uma vocação descoberta por acaso pode virar obra de uma vida inteira. São mais de 50 anos soldando sucata, 37 brinquedos movidos apenas pela física e pela força humana, um parque gratuito no meio da mata e um ferreiro que, aos 89 anos, ainda acorda com vontade de inventar.

E aí fica a pergunta que rende conversa de verdade. Você levaria as crianças, ou iria você mesmo, para brincar num parque de diversões todo movido a pedalada e gravidade, sem nenhuma tela ou motor, ou acha que hoje em dia é difícil competir com a diversão eletrônica? Comenta aqui embaixo qual brinquedo da sua infância você adoraria reencontrar por aí.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
Ir para o vídeo em destaque
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x