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Tubarões com “patas”? Espécie que anda pelo fundo do mar quebra regra da reprodução e desafia padrões da biologia

Escrito por Ana Alice
Publicado em 25/01/2026 às 14:59
Assista o vídeoEstudo australiano mostra que tubarões-epaulette produzem ovos sem aumentar gasto de energia, desafiando padrões da reprodução animal. (Imagem: Reprodução/Animalia)
Estudo australiano mostra que tubarões-epaulette produzem ovos sem aumentar gasto de energia, desafiando padrões da reprodução animal. (Imagem: Reprodução/Animalia)
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Estudo australiano acompanha metabolismo de tubarões-epaulette e registra estabilidade energética durante a produção de ovos, contrariando padrões observados em outras espécies e abrindo novas frentes de pesquisa sobre fisiologia reprodutiva e adaptação ambiental em tubarões.

Um estudo com o tubarão-epaulette, conhecido como “tubarão-andador” por se deslocar em águas rasas com o apoio das nadadeiras, identificou um resultado incomum na biologia reprodutiva animal.

De acordo com medições feitas por pesquisadores australianos, as fêmeas da espécie conseguem formar e botar ovos sem apresentar aumento mensurável no gasto de energia durante o processo.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade James Cook, na Austrália, e acompanhou de forma contínua o metabolismo de tubarões ovíparos ao longo do ciclo reprodutivo.

Os dados indicam que, diferentemente do observado em muitas espécies animais, a produção dos ovos não esteve associada a uma elevação da demanda energética.

Os resultados foram publicados na revista Biology Open e fazem parte de um trabalho coordenado pela equipe de fisiologia de tubarões da universidade.

Segundo os autores, trata-se de uma das primeiras análises que medem diretamente o custo metabólico da postura de ovos em tubarões ovíparos, grupo ainda pouco estudado sob esse aspecto.

Expectativa científica sobre o custo energético da reprodução

Antes do início do monitoramento, a expectativa dos pesquisadores era registrar um aumento no metabolismo no período de formação da cápsula do ovo, estrutura que envolve o embrião.

Esse tipo de produção costuma ser descrito na literatura científica como energeticamente exigente.

“A reprodução é o investimento máximo… você literalmente está construindo uma nova vida do zero”, afirmou a professora Jodie Rummer, coordenadora do estudo, em material divulgado pela universidade.

A projeção inicial era de que o gasto energético crescesse nesse intervalo.

Os dados coletados, porém, não confirmaram essa hipótese.

“Esperávamos que, quando os tubarões produzissem esse ovo complexo, o uso de energia disparasse. Mas não houve nenhum aumento no gasto energético; ele permaneceu completamente estável”, disse a pesquisadora.

A constatação foi baseada em medições repetidas ao longo de todo o ciclo reprodutivo das fêmeas acompanhadas.

Características do tubarão-epaulette analisado no estudo

O tubarão-epaulette é uma espécie de pequeno porte associada a ambientes recifais e águas rasas.

O apelido de “tubarão-andador” vem da forma como se movimenta pelo fundo, utilizando as nadadeiras para avançar em locais de pouca profundidade.

(Imagem: Universidade Atlântica da Flórida/Divulgação)
(Imagem: Universidade Atlântica da Flórida/Divulgação)

Além do comportamento de locomoção, a espécie chama atenção por ser ovípara, ou seja, por produzir cápsulas de ovos depositadas no ambiente.

Essa característica permitiu aos cientistas acompanhar com mais precisão o intervalo entre a formação do ovo e a postura.

Como os pesquisadores mediram o metabolismo dos tubarões

Para avaliar o gasto energético, os pesquisadores utilizaram a taxa de consumo de oxigênio como indicador da taxa metabólica.

Esse método é amplamente empregado em estudos fisiológicos por refletir a quantidade de energia utilizada pelo organismo.

“Medimos as taxas de consumo de oxigênio, que são um indicativo da taxa metabólica… quanto mais oxigênio você consome, mais energia você usa”, explicou Rummer.

As medições foram feitas em diferentes fases do ciclo reprodutivo.

As fêmeas foram mantidas em grandes tanques com temperatura controlada na Unidade de Pesquisa em Aquicultura e Marinha da universidade, localizada em Townsville.

O ambiente controlado permitiu reduzir interferências externas e comparar os dados ao longo do tempo.

Ao todo, cinco fêmeas foram monitoradas antes, durante e após a formação das cápsulas de ovos.

Segundo a descrição do estudo, a espécie costuma produzir dois ovos a cada ciclo de aproximadamente três semanas, com maior frequência de posturas entre setembro e dezembro.

Resultados sobre hormônios e composição do sangue

Além do consumo de oxigênio, a equipe analisou a química do sangue e os níveis hormonais das fêmeas ao longo do processo reprodutivo.

De acordo com a autora principal do estudo, a pesquisadora Carolyn Wheeler, essas variáveis também não apresentaram alterações significativas.

“Tudo se manteve notavelmente estável, então esta pesquisa desafia nossas suposições fundamentais sobre os peixes condrictes”, afirmou Wheeler.

O grupo inclui tubarões, raias, patins e quimeras.

Segundo os pesquisadores, a estabilidade metabólica, sanguínea e hormonal sugere uma distribuição do custo reprodutivo ao longo do tempo, sem concentração em um único período.

O estudo, no entanto, se limita às condições testadas em laboratório.

Relação entre reprodução e estresse ambiental

Os resultados também foram discutidos no contexto de pesquisas sobre estresse ambiental em ambientes marinhos.

Segundo Rummer, os dados obtidos “desafiam a narrativa de que, quando algo dá errado — como o aquecimento dos oceanos — a reprodução é a primeira função a ser comprometida”.

Ainda assim, a pesquisadora destacou que os achados não eliminam a necessidade de cautela.

“Os tubarões-epaulette parecem muito resilientes, mas é importante determinar até que ponto essas espécies conseguem resistir ao aquecimento dos oceanos”, afirmou.

Wheeler observou que, em diversas espécies, situações de estresse ambiental levam os animais a priorizar a sobrevivência em detrimento da reprodução.

No caso do tubarão-epaulette, segundo ela, os dados indicam que a produção de ovos pode continuar mesmo sob determinados estressores.

“Isso é encorajador, porque tubarões saudáveis significam recifes saudáveis”, disse, ao comentar possíveis implicações ecológicas.

Com base nos resultados, os autores defendem a ampliação de estudos sobre os custos reprodutivos em diferentes espécies de condrictes, especialmente para entender os mecanismos fisiológicos envolvidos nesse padrão metabólico observado.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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