Sementes preservadas por cerca de mil anos em lagoas formadas no fim da última era glacial, hoje secas e invisíveis na paisagem inglesa, germinaram em laboratório e revelam o potencial de restaurar espécies vegetais ancestrais desaparecidas com mudanças climáticas e uso do solo ao longo dos séculos
O The Guardian mostrou um projeto de restauração liderado por pesquisadores da University College London está trazendo de volta lagoas da era glacial em Norfolk, Inglaterra, com escavações de baixo custo que reativam sementes milenares, restauram ecossistemas e recuperam dezenas de espécies de zonas úmidas desaparecidas ao longo de dois séculos de drenagem agrícola.
Lagoas fantasmas retornam ao campo agrícola de Norfolk
Em uma pastagem de Norfolk, duas cicatrizes circulares de solo escuro indicam onde lagoas antigas estão sendo restauradas. O trabalho, que pode parecer destrutivo à primeira vista, reverte a perda histórica de áreas úmidas causada pela drenagem para cultivo ao longo dos últimos 200 anos.
Os dois lagos recém-escavados são o 25º e o 26º restaurados por uma equipe liderada pelo professor Carl Sayer, do departamento de geografia da UCL. A região de Brecks é conhecida por seus antigos lagos e “pingos”, formados pelo derretimento do gelo há cerca de 10.000 anos.
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Segundo Sayer, a aparência inicial do local engana. Em um ano, os lagos restaurados já apresentam colonização intensa por plantas aquáticas. Em dois anos, o ambiente se integra à paisagem como se nunca tivesse sido perdido.
Resultados ecológicos equivalem a reservas intactas
Levantamentos conduzidos pela equipe desde 2022 mostram que 22 lagoas fantasmas restauradas passaram a abrigar 136 espécies de plantas de zonas úmidas.
O número representa 70% da flora encontrada em mais de 400 lagoas do Thompson Common, reserva natural de importância internacional.
O Thompson Common pertence ao Norfolk Wildlife Trust, que adquiriu parte das terras onde ocorreram as restaurações. A entidade também apoiou financeiramente o projeto por meio do programa Brecks Fen Edge and Rivers Landscape Partnership, do National Lottery Heritage Fund.
Entre as espécies recuperadas estão plantas raras que haviam desaparecido dos lagos originais, como a erva-de-lago-de-folhas-variadas, hoje registrada em apenas um outro local de Norfolk. Esses resultados reforçam a equivalência ecológica entre lagoas restauradas e áreas úmidas preservadas desde a era glacial.
A camada escura que funciona como cápsula do tempo
O elemento central do método é uma camada de sedimento escuro semelhante à turfa, localizada no fundo das lagoas antigas. Esse material foi formado por séculos de decomposição de plantas aquáticas e permanece rico em sementes viáveis.
De acordo com Sayer, o sedimento é escuro, úmido, fresco e anóxico, ou seja, sem oxigênio. Essas condições preservaram sementes por centenas ou até mais de mil anos, criando um mecanismo natural de recuperação emergencial.
A restauradora Hayley McMechan estuda esse banco de sementes em seu doutorado. Amostras de sedimentos de diferentes idades estão sendo monitoradas em tanques no banco de sementes dos Royal Botanic Gardens, Kew, em Wakehurst, para avaliar taxas de germinação.
Os pesquisadores consideram provável que sementes com mais de 1.000 anos ainda possam germinar. Para McMechan, o processo não é reflorestamento nem restauração convencional, mas uma forma de ressurreição ecológica baseada em sistemas prontos, que exigem apenas a reintrodução da água.
Mapeamento histórico e escavação de precisão
A identificação das lagoas fantasmas começa com o estudo de mapas antigos conduzido pela professora Helene Burningham, também da UCL. Muitos pequenos lagos não aparecem em registros cartográficos formais, mas nomes históricos de campos frequentemente fornecem pistas.
Tecnologias como Lidar são usadas para detectar depressões no terreno, enquanto imagens de satélite revelam círculos verdes persistentes em verões secos, indicando áreas com maior umidade residual. No campo, uma broca confirma a presença do fundo original do lago.
Fragmentos brancos de conchas de caramujos aquáticos ajudam a diferenciar o sedimento lacustre do solo agrícola. Em seguida, valas são abertas para localizar o centro do lago e determinar suas dimensões exatas antes da escavação completa.
A escavadeira cria bordas suavemente inclinadas, evitando degraus artificiais e tomando cuidado para não ultrapassar a camada de sementes. O operador Dale Garnham executa o trabalho de precisão após a equipe identificar o nível correto, garantindo que o banco biológico permaneça intacto.
Achados arqueológicos e interrupção de drenagens modernas
Durante as escavações, voluntários encontram vestígios do uso humano histórico das áreas úmidas. Conchas de caracóis de rio da época romana, fragmentos de cerâmica e sílex carbonizado do final do Neolítico foram recuperados do sedimento.
Esses achados indicam que os pântanos eram locais de atividade humana contínua. O único elemento considerado indesejável pela equipe foi a presença de antigos drenos plásticos instalados durante melhorias agrícolas na década de 1980.
Sempre que um dreno é encontrado, a escavadeira o segue e o destrói. O objetivo é impedir tanto o escoamento quanto a entrada artificial de água, permitindo que o lago se encha apenas com água da chuva limpa, restabelecendo seu funcionamento natural.
Colonização rápida desafia explicações convencionais
Após o enchimento natural, os lagos são rapidamente colonizados por plantas e animais. Alguns críticos sugerem que as espécies teriam sido introduzidas por aves aquáticas, mas Sayer destaca a presença de plantas raras ausentes em áreas vizinhas.
Além da exclusividade das espécies, a quantidade de novas plantas surgidas em curto prazo reforça a origem no banco de sementes antigo. Para o pesquisador, a velocidade observada não pode ser explicada apenas pela dispersão via aves.
Mesmo sem ligação hidrológica com outros corpos d’água, o peixe espinhel de nove espinhos reapareceu rapidamente em algumas lagoas. A equipe afirma não conhecer um mecanismo biológico que explique esse retorno, mantendo o fenômeno como um mistério científico.
Custo reduzido e impacto elevado na restauração ecológica
Segundo Sayer, a restauração de lagoas oferece um impulso significativo à biodiversidade por um custo modesto. A escavação de um lago leva um dia inteiro e custa cerca de 2.000 libras, incluindo aluguel da escavadeira, caminhão e operador qualificado.
O valor é muito inferior ao custo de restaurar pradarias ou florestas antigas. Para o pesquisador, a pequena pegada ecológica da intervenção contrasta com o impacto expressivo obtido na recuperação de habitats.
Proprietários de terras particulares demonstram interesse crescente em revitalizar lagoas fantasmas e “zumbis”, mas o financiamento ainda é apontado como o principal obstáculo. Sayer observa que grandes somas são investidas na restauração de rios, apesar da complexidade desses projetos.
Na avaliação da equipe, o método aplicado em Norfolk poderia ser replicado em outras regiões do país, revertendo a perda histórica de áreas úmidas agrícolas. Para Sayer, trata-se do tipo de restauração ecológica que define uma carreira, mesmo que ainda reste algum mistéiro a ser resolvido.
Este artigo foi elaborado com base em reportagem do The Guardian, que acompanhou o trabalho de restauração de lagoas glaciais em Norfolk e entrevistou os pesquisadores e voluntários envolvidos no projeto.

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