Rotina marcada por trabalho pesado, acesso limitado à internet, materiais de estudo improvisados e dificuldades financeiras mostra como um jovem pernambucano encontrou caminhos pouco convencionais para continuar se preparando para o ensino superior, em uma trajetória construída entre jornadas de trabalho, apoio familiar e persistência nos estudos.
Sem internet em casa, sem computador e obrigado a conciliar a preparação para o ensino superior com uma rotina de trabalho pesado, Davi Eduardo Ferreira de Brito encontrou nos livros descartados e no acesso à internet da avó uma maneira de continuar estudando.
Depois de passar os dias descarregando cargas de caminhões e enfrentar períodos em que faltava dinheiro até para o lanche no cursinho, o jovem conquistou uma vaga no bacharelado em Geografia da Universidade Federal de Pernambuco e se tornou o primeiro da família no ensino superior.
Quando recebeu a notícia da aprovação, aos 20 anos, ele acordou a mãe, o padrasto e os irmãos e correu até a casa dos avós para contar que havia sido selecionado pelo Sistema de Seleção Unificada, segundo o Jornal do Commercio.
Para a família, a entrada na UFPE representava uma conquista inédita e também aproximava o jovem de um objetivo que já fazia parte de seus planos havia algum tempo: construir uma trajetória profissional ligada à educação e, futuramente, atuar como professor.
Sem internet em casa, Wi-Fi da avó virou alternativa para estudar
A preparação para o Enem ocorreu em condições distantes de uma rotina convencional de estudos, já que a casa onde Davi vivia não tinha conexão com a internet durante a pandemia, o que limitava o acesso contínuo a aulas e materiais digitais.
Como alternativa, ele recorria ao sinal disponível na residência da avó, onde baixava videoaulas para assistir posteriormente, organizando o estudo a partir do conteúdo que conseguia armazenar e adaptar aos horários livres deixados pelo trabalho e pelas demais responsabilidades.
-
Aos 62 anos, astro de Gladiador Russell Crowe mantém um rancho de cerca de 400 hectares no interior da Austrália, onde cria gado, percorre a propriedade para conferir cercas e bebedouros e reconstruiu parte das terras após os incêndios devastadores de 2019
-
Aos 7 anos, menino de Rondônia viraliza dançando hits dos anos 1980 e 1990, supera 5 milhões de visualizações e faz a internet brincar que ele “farmou aura” antes mesmo de nascer na época das músicas
-
Encontrada com 1 ano e 10 meses em um lixão e acolhida por uma lavadeira, menina cresce em meio à pobreza, passa a vender coxinhas nas ruas aos 8 anos, constrói carreira no varejo e décadas depois chega ao comando de três negócios no setor de alimentação com projeção de R$ 8 milhões
-
Arqueólogos encontram a 6,5 quilômetros da costa uma cidade egípcia desaparecida há mais de mil anos onde templos gigantes, estátuas de 5 metros, joias de ouro e navios continuam enterrados sob o fundo do Mediterrâneo
Ao mesmo tempo, a necessidade de contribuir com a renda familiar impunha uma jornada física exigente, pois Davi passava o dia descarregando cargas de caminhões e reservava para os estudos apenas os períodos que conseguia encaixar antes ou depois do expediente.
Em determinado momento, o peso dessa rotina chegou a fazê-lo considerar a possibilidade de abandonar a preparação, conforme relatou ao Jornal do Commercio, mas o objetivo de ingressar em uma instituição pública permaneceu e continuou orientando seus esforços.
Livros encontrados no lixo passaram a fazer parte da preparação
Parte do material utilizado nessa caminhada apareceu de forma inesperada, durante um período em que ele ajudava a mãe a separar materiais recicláveis em um espaço mantido na casa da família, no bairro de Afogados, na Zona Oeste do Recife.
Entre os objetos descartados, Davi encontrou livros que haviam sido jogados fora e passou a recolhê-los para estudar, aproveitando o conteúdo disponível mesmo quando algumas obras estavam desatualizadas e não correspondiam exatamente ao material mais recente cobrado nas provas.
Essa relação com os livros recuperados se tornou uma das marcas de sua preparação, porque os exemplares encontrados entre os resíduos passaram a integrar a rotina de leitura em uma casa onde recursos para comprar materiais didáticos eram bastante limitados.
Naquele período, a mãe permanecia em casa para cuidar dos filhos mais novos, enquanto o padrasto trabalhava como motoboy, cenário que ajuda a contextualizar por que cada oportunidade de acesso gratuito a livros, internet e preparação fazia diferença no cotidiano do estudante.
Escola pública e cursinho ajudaram na preparação para o Enem
Toda a trajetória escolar de Davi ocorreu na rede pública, incluindo o ensino médio cursado na Escola de Referência em Ensino Médio Professor Moacir de Albuquerque, localizada em Cavaleiro, no município de Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife.
Buscando ampliar as chances no Enem, ele também frequentou o cursinho Carolina de Jesus, iniciativa voltada a estudantes da periferia interessados em disputar vagas no ensino superior público e que acrescentou apoio acadêmico à preparação feita com poucos recursos.
Mesmo com o acesso ao cursinho, as dificuldades financeiras não desapareceram, e Claudia Feijó de Brito, mãe de Davi, contou ao Jornal do Commercio que houve ocasiões em que o filho não tinha dinheiro sequer para comprar um lanche durante as aulas.
Nessas situações, a família ajudava dentro do que conseguia, enquanto ele seguia dividindo a rotina entre trabalho e preparação, numa combinação que exigia reorganizar constantemente os horários para aproveitar qualquer espaço disponível para leitura, videoaulas e revisão dos conteúdos.
Aprovação no Sisu abriu caminho para a UFPE
Antes da aprovação na UFPE, surgiu uma oportunidade de estudar em uma instituição particular do Recife com bolsa, mas a matrícula não chegou a ser efetivada porque o jovem não atendia a todos os requisitos exigidos para receber o benefício.
Mais tarde, a seleção pelo Sisu abriu outro caminho, desta vez para uma universidade pública, e permitiu que a preparação construída com livros descartados, internet emprestada e jornadas de trabalho resultasse efetivamente em uma vaga no ensino superior.
No processo seletivo, o bacharelado em Geografia apareceu como a segunda opção de Davi, enquanto a primeira escolha era a licenciatura na mesma área, também na UFPE, pois seu objetivo declarado era trabalhar como professor e seguir ligado à educação.
Ainda que tenha ingressado inicialmente no bacharelado, ele recebeu a vaga como uma oportunidade concreta de começar a vida universitária e se aproximar da profissão desejada, mantendo o interesse em ensinar e compartilhar conhecimento com outros jovens de sua comunidade.
Primeiro da família no ensino superior
O interesse pela docência, segundo o relato publicado pelo Jornal do Commercio, estava relacionado à intenção de incentivar estudantes da periferia a enxergar a educação como uma possibilidade de mudança e também de levar adiante a experiência construída durante sua própria preparação.
Quando a reportagem registrou sua história, Davi já trabalhava no setor de estoque de uma empresa de produtos de saúde, e o início da graduação ainda acrescentaria outro desafio à rotina: conciliar o emprego com as exigências acadêmicas da universidade.
Mesmo depois da aprovação, ele continuava sem computador e sem internet em casa, condição que evidenciava como a conquista da vaga não havia eliminado imediatamente as limitações materiais enfrentadas durante o período de preparação para o Enem.
Ao reunir livros recuperados entre materiais descartados, videoaulas baixadas com o Wi-Fi da avó, apoio de um cursinho voltado à periferia e estudos encaixados entre jornadas de trabalho, a trajetória levou Davi a uma universidade federal e ao primeiro diploma universitário da família.
Você teria conseguido manter a preparação para o Enem enfrentando a mesma combinação de trabalho pesado, falta de internet em casa, limitações financeiras e necessidade de adaptar cada etapa dos estudos aos recursos que estavam disponíveis naquele momento?

