Rotina iniciada ainda na adolescência levou um jovem do interior da Bahia a atravessar empregos, mudança de estado e jornadas noturnas enquanto mantinha os estudos, numa trajetória marcada por dificuldades financeiras, preparação disciplinada e sucessivas provas até alcançar uma vaga no serviço público federal.
Ainda adolescente, João Lucas Silva Costa começou a trabalhar no interior da Bahia vendendo picolé e atuando como cobrador de dívidas para custear os próprios gastos, enquanto dividia a rotina com responsabilidades familiares e, posteriormente, com o objetivo de ingressar no serviço público.
Alguns anos mais tarde, a busca por melhores oportunidades o levou de Santana, sua cidade natal, até Brasília, onde chegou aos 18 anos com apenas R$ 500 e passou a conciliar diferentes empregos com uma preparação cada vez mais direcionada aos concursos públicos.
Relatada pelo próprio João Lucas em entrevista publicada pelo Estratégia Concursos, a trajetória começou em uma família descrita por ele como humilde e sem estrutura financeira, contexto no qual assumiu responsabilidades domésticas ainda aos 13 anos, depois da separação dos pais.
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Naquela fase, além de preparar comida, ele também cuidava dos irmãos mais novos, tarefas que antecederam sua entrada precoce no mercado de trabalho e ajudaram a moldar uma rotina na qual responsabilidades pessoais, necessidade de renda e estudos passariam a ocupar o mesmo espaço.
Trabalho na adolescência antecedeu a preparação para concursos
Quando completou 14 anos, João Lucas passou a vender picolé e também a trabalhar com cobrança de dívidas, atividades que, conforme relatou, permitiam pagar suas próprias despesas enquanto ainda vivia no interior baiano e buscava alguma independência financeira dentro das possibilidades disponíveis.
Foi aos 17 anos que os concursos públicos entraram de forma mais concreta em seus planos, embora ele afirmasse não ter, naquele momento, referências próximas de pessoas que já seguissem esse caminho ou pudessem orientá-lo sobre como estruturar a preparação.
Sem condições de se dedicar exclusivamente aos estudos, o jovem iniciou a preparação enquanto continuava trabalhando, adaptando horários e materiais à realidade financeira que enfrentava e construindo gradualmente uma rotina voltada às disciplinas cobradas nos processos seletivos que pretendia disputar.
R$ 500 no bolso e uma mudança para Brasília aos 18 anos
Aos 18 anos, uma mudança de estado alterou de forma decisiva sua rotina, quando João Lucas deixou a Bahia e seguiu para Brasília levando R$ 500, valor que deveria ajudá-lo a iniciar uma nova etapa longe da família e da cidade onde havia crescido.

Já no Distrito Federal, passou a dividir aluguel com um primo e conseguiu emprego em uma loja de conveniência, fonte de renda necessária para permanecer na capital enquanto mantinha o plano de conquistar estabilidade profissional por meio de uma aprovação no serviço público.
Embora o trabalho garantisse o sustento imediato, os concursos permaneceram no centro do planejamento iniciado ainda aos 17 anos, levando João Lucas a encaixar os estudos nos períodos disponíveis e a reorganizar sucessivamente sua rotina conforme surgiam novas jornadas profissionais.
Jornada de porteiro atravessava toda a madrugada
Em outra etapa dessa trajetória, surgiu uma vaga de porteiro no período noturno, função que impôs uma organização ainda mais exigente, já que o expediente começava às 19h e terminava às 7h, mantendo João Lucas trabalhando durante praticamente toda a madrugada.
Mesmo submetido a essa jornada, ele continuou estudando durante o dia e aproveitava intervalos disponíveis no próprio serviço para revisar conteúdos, estratégia que permitiu manter a preparação ativa enquanto o emprego seguia sendo necessário para financiar suas despesas em Brasília.
Segundo o relato apresentado ao Estratégia Concursos, essa combinação entre portaria noturna e preparação para provas se estendeu por aproximadamente dois anos, período em que o restante do dia precisava ser organizado em torno do descanso, das matérias estudadas e das responsabilidades pessoais.
Ao longo dessa fase, a rotina passou a exigir não apenas disciplina para permanecer acordado durante o expediente, mas também capacidade de distribuir o tempo fora do trabalho sem abandonar a preparação iniciada antes mesmo da mudança do interior da Bahia para o Distrito Federal.
Cinco horas de estudo e dezenas de questões todos os dias
Com o avanço da preparação, João Lucas estruturou um método mais definido e relatou que costumava estudar aproximadamente cinco disciplinas diferentes por dia, buscando alcançar cerca de cinco horas líquidas de estudo, mesmo enquanto precisava compatibilizar essa meta com as limitações impostas pelo emprego.
Também ganhou espaço na rotina a resolução contínua de exercícios, já que ele afirmou fazer aproximadamente 50 questões por dia, além de produzir resumos, organizar materiais de revisão e realizar simulados para acompanhar o próprio desempenho nas disciplinas exigidas pelos concursos.
Entre as matérias estudadas, língua portuguesa aparecia como uma de suas maiores dificuldades, situação que João Lucas relacionou à formação recebida em escola pública e que exigiu atenção específica durante uma preparação cada vez mais direcionada às carreiras da área de segurança.
Primeiras aprovações vieram antes do Senado Federal
Antes de alcançar o Senado, o esforço acumulado começou a produzir resultados em outras seleções, com João Lucas relatando aprovações em concursos da Polícia Penal de Minas Gerais, Polícia Penal do Distrito Federal, Polícia Militar de Goiás e Polícia Civil de Goiás.
A primeira dessas conquistas ocorreu enquanto ele ainda trabalhava como porteiro, mas o resultado não encerrou a rotina de preparação, pois o baiano permaneceu no emprego noturno e continuou direcionando os estudos às carreiras policiais que havia escolhido como objetivo profissional.
Essa sequência de provas também ampliou sua experiência com processos seletivos da área de segurança pública, ao mesmo tempo em que trabalho e preparação continuavam lado a lado, como já acontecia desde o período em que começou a estudar para concursos aos 17 anos.
Três meses de dedicação antes da prova do Senado
Na reta final do concurso do Senado Federal, João Lucas promoveu uma mudança importante na estratégia e deixou o emprego de porteiro cerca de três meses antes da prova, ampliando o tempo disponível para concentrar a preparação no processo seletivo da Polícia Legislativa.
Depois de anos conciliando renda e estudo, foi nesse certame que alcançou o resultado de maior destaque de sua trajetória: aos 20 anos, foi aprovado para Técnico Legislativo, na especialidade Policial Legislativo, do Senado Federal, com lotação prevista em Brasília.
De acordo com o resultado final do concurso, João Lucas Silva Costa obteve nota 135, formada por 75 pontos na prova objetiva e 60 pontos na discursiva, além de registrar aprovação nas demais etapas previstas para o cargo dentro do processo seletivo.
A conquista reuniu, em um mesmo percurso, a preparação iniciada no interior baiano, a mudança para Brasília com R$ 500 e os empregos usados para financiar sua permanência na capital enquanto buscava uma vaga no serviço público federal.
Distância da família acompanhou a rotina de trabalho e estudos
Durante os primeiros anos em Brasília, a distância da família também passou a fazer parte da rotina, já que João Lucas contou manter contato principalmente por telefone com os parentes que permaneceram na Bahia, enquanto as visitas à cidade natal aconteciam com pouca frequência.
Entre trabalho, estudos e deslocamentos, boa parte do tempo disponível era consumida pela preparação, cenário que acompanhou o jovem desde a chegada ao Distrito Federal e permaneceu até os meses finais que antecederam a prova para a Polícia Legislativa do Senado.
Ao explicar o motivo de seguir pelos concursos públicos, João Lucas associou a escolha ao desejo de melhorar a condição financeira da família e proporcionar melhores oportunidades aos irmãos mais novos e aos pais, objetivo que continuou orientando sua rotina ao longo da preparação.
Já aprovado e formado em Gestão Pública na época da entrevista, ele também dizia pretender continuar estudando e buscar qualificação para atuar no ensino direcionado a candidatos de concursos, ampliando uma trajetória iniciada com trabalho ainda na adolescência e mantida durante sucessivas jornadas profissionais.
Entre vender picolé aos 14 anos, chegar a Brasília aos 18 com R$ 500, trabalhar das 19h às 7h e estudar durante o dia até conquistar uma vaga no Senado Federal, qual parte dessa trajetória mais chama a sua atenção?
