A carroceria, as portas, o capô, o painel e até o volante saíram de madeira de árvore frutífera cortada na própria região. Michel Robillard levou cinco anos para terminar o carro, dirigiu ele pelas ruas da cidade em 2017 e o vendeu seis anos depois pelo maior valor já pago por um 2CV.
Michel Robillard passou a vida tocando uma serraria perto de Loches, no departamento de Indre e Loire, no centro da França, e se aposentou fazendo maquetes de madeira, algumas delas encomendadas pela Ferrari. Em 2011, aos 62 anos, decidiu executar um plano que carregava havia mais de três décadas: construir em tamanho real, à mão, um Citroën 2CV de madeira.
Foram cinco anos de trabalho e cerca de 5.000 horas de oficina, segundo o próprio marceneiro em entrevista à agência France Presse. O carro saiu do ateliê rodando em setembro de 2017 e, em 4 de junho de 2023, foi a leilão em Montbazon, perto de Tours, onde alcançou 210 mil euros com as taxas, equivalentes a 224.440 dólares na conversão feita pela CBS News. É o maior valor já registrado na venda de um 2CV.
Cinco anos, 5 mil horas e um sonho de trinta anos

O projeto não nasceu de encomenda nem de patrocínio. Robillard trabalhou sozinho, no próprio ateliê, sem equipe, sem molde industrial e sem prazo de cliente. Antes do carro em tamanho real, ele já era conhecido na região pelas maquetes em madeira, incluindo modelos feitos para a Ferrari.
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A ideia de reproduzir um 2CV vinha de longe. Segundo relatos publicados na imprensa regional francesa, era um desejo que ele alimentava havia mais de trinta anos, e que só virou obra quando a aposentadoria liberou o tempo necessário.
O ritmo de trabalho ele mesmo descreveu. Foram cinco anos de vida dedicados ao projeto, de dia e às vezes de madrugada, movidos por paixão e não por encomenda, conforme contou à France Presse. Quando a peça foi vendida, admitiu ter sentido um aperto no peito ao se separar dela.
O carro ganhou nome próprio: La Belle Lochoise, algo como a bela de Loches. A escolha não é decorativa. O apelido amarra a peça ao lugar onde ela foi feita e à madeira que saiu dos pomares da mesma região.
Quais madeiras entraram no carro
A seleção de madeira seguiu a função de cada peça, e todas vieram de árvores frutíferas ou nobres da região. As asas dianteiras e traseiras, aquelas curvas que dão o desenho característico do 2CV, foram feitas em nogueira. A carroceria e a estrutura levaram pereira, macieira e cerejeira.
O painel de instrumentos recebeu tratamento diferente. Foi executado em olmo, na parte do tronco onde a fibra se enrola e forma desenho irregular, valorizada em marcenaria fina justamente pelo veio. O volante também é de madeira.
Nada disso é revestimento aplicado sobre chapa. A madeira é a estrutura, e não um acabamento colado por cima de metal, o que muda completamente o grau de dificuldade da execução e explica por que o conjunto pesa 600 quilos só na parte de madeira.
O capô esculpido em um bloco só

A peça mais comentada é o capô. No 2CV original, ele tem ondulações longitudinais, aquelas nervuras que qualquer pessoa reconhece de longe. Robillard esculpiu o conjunto a partir de um bloco único e trabalhou as 22 nervuras com formão e lixa, sem prensa e sem estampagem.
As asas foram o outro ponto crítico. A curvatura tridimensional dessas peças é o tipo de forma que a indústria resolve com matriz de aço em segundos e que, em madeira maciça, exige desbaste progressivo e paciência.
Para chegar lá, o marceneiro construiu antes 15 maquetes detalhadas do projeto, que ele manteve no ateliê. Antes de cortar a primeira peça definitiva, ele já tinha feito o carro inteiro em miniatura, mais de uma vez.
O que não é de madeira: chassi de Dyane e motor de 3CV
Aqui entra a parte que a maioria das manchetes omite. A carroceria é de madeira, mas o carro não é integralmente de madeira. A estrutura de madeira foi montada sobre o chassi de um Citroën Dyane de 1969, e o motor veio emprestado de um 3CV.
São 602 centímetros cúbicos e 32 cavalos, bloco a gasolina refrigerado a ar, o mesmo tipo de propulsor que equipava os utilitários mais simples da Citroën na época. Com esse conjunto empurrando 600 quilos de madeira, a velocidade máxima fica em 80 quilômetros por hora.
A sigla 2CV também tem explicação. Vem de deux chevaux, dois cavalos, mas não se refere à potência do motor e sim à classificação fiscal usada na França para calcular imposto sobre veículos. Na prática, o carro que ficou conhecido como o de dois cavalos sempre teve bem mais que isso debaixo do capô.
O modelo reproduzido é um 2CV do tipo AZKA, de 1955. O 2CV original estreou em 1948 como resposta francesa ao Fusca alemão, ganhou o apelido de guarda chuva sobre rodas e saiu de linha em 1990, depois de mais de quatro décadas de produção.
A bênção do padre e o desfile pelas ruas de Loches

A inauguração, em 2017, teve cerimônia. Antes de desfilar pelas ruas de Loches, o carro de madeira foi abençoado pelo pároco local, cena que a imprensa regional registrou e que ajudou a transformar a peça em assunto nacional na França.
A repercussão foi imediata. Jornais, rádios e emissoras de televisão procuraram o marceneiro, e ele passou a receber propostas de compra com frequência. Naquele momento, dizia que pretendia deixar o carro para os descendentes, a menos que aparecesse uma oferta impossível de recusar.
Vale dizer que carroceria em madeira não é invenção dele. Modelos históricos já haviam usado o material, como o Hispano Suiza Tulipwood, montado nos anos 1920. A diferença de La Belle Lochoise é ser obra individual, feita fora de qualquer estrutura industrial, e o trabalho de Robillard acabou servindo de referência para outros artistas franceses que passaram a explorar o mesmo caminho.
O reconhecimento também veio de dentro da própria marca. O Citroën Origins, acervo digital histórico da fabricante, catalogou La Belle Lochoise em seu inventário, o que colocou uma peça artesanal ao lado dos modelos oficiais da casa.
O leilão que quebrou o recorde do 2CV
A venda aconteceu em 4 de junho de 2023, conduzida pelo leiloeiro Aymeric Rouillac, em Montbazon. A estimativa prévia era de 150 mil a 200 mil euros, calibrada pelo recorde mundial anterior de um 2CV, de 172 mil euros, obtido por um carro de metal comum.
O lance inicial de 150 mil euros não encontrou comprador no salão. A disputa correu por telefone e o martelo bateu em 170 mil euros, valor que sobe para 210 mil euros quando somadas as taxas do leilão. Foi essa cifra final que a CBS News converteu para 224.440 dólares.
Rouillac deixou a última martelada para o próprio Robillard. O comprador foi Jean Paul Favand, fundador do Museu das Artes Foranas, em Paris, colecionador de objetos de parque de diversões, de cavalos de carrossel em madeira e também de exemplares de 2CV. A peça continuou na França.
Afinal, o carro pode ou não circular na rua?
Este é o ponto em que as fontes se contradizem, e vale registrar em vez de escolher a versão mais bonita. Duas semanas antes do leilão, o leiloeiro afirmou à imprensa francesa que o carro havia passado pela inspeção técnica, tinha documento de 1957, estava emplacado e segurado e, portanto, podia circular normalmente.
Depois da venda, a versão mudou. Publicação do meio especializado reproduzida no site da própria casa de leilões informou que o veículo foi vendido sem garantia de nenhuma espécie e sem documento em ordem, e que por isso só pode rodar em situações muito específicas, como eventos e exposições. A CBS News também descreve o carro como não emplacado e proibido em via pública.
As três versões não fecham, e nenhuma delas foi corrigida publicamente. O mais provável é que o status documental tenha mudado entre o anúncio do leilão e a entrega ao comprador, mas isso é leitura, não confirmação.
A próxima obra: uma DS de madeira em 27 meses
Robillard não parou. No mesmo dia da venda, anunciou o projeto seguinte: reproduzir em madeira um Citroën DS21 Cabriolet coupé Chapron, versão conversível de luxo do modelo que a Citroën lançou em 1955.
O prazo que ele estabeleceu foi de 27 meses, contados para terminar a tempo de marcar os 70 anos da DS, em outubro de 2025. É um cronograma bem mais apertado que o do 2CV, num carro de linhas mais complexas e com o desafio adicional da carroceria conversível.
Até a redação deste texto, não localizei confirmação pública de que a DS de madeira tenha sido concluída. O prazo anunciado já passou, e nenhuma das fontes consultadas registra a entrega da peça.
Um homem sozinho, com formão e lixa, levou cinco anos para fazer o que uma prensa industrial resolve em segundos, e no fim conseguiu por sua obra em madeira mais do que valia o 2CV de metal mais bem conservado do mundo. O recorde anterior era de 172 mil euros. O de madeira, feito à mão numa oficina do interior da França, custou 210 mil.
E você, pagaria mais por um carro que não sai da fábrica ou por um feito à mão, peça por peça, que quase não pode rodar na rua? Comenta aí se você considera isso um carro ou uma escultura que por acaso anda.
