A conta que antes era impressão virou número oficial: metade do salário vai para comer. A cesta básica subiu 8,69% em 12 meses nas capitais, custa em média R$ 779,95 e exige quase 106 horas de trabalho por mês. Em São Paulo, o peso chega a 64% da renda.
O valor médio da cesta básica nas capitais brasileiras chegou a R$ 779,95 em junho de 2026, alta de 8,69% em 12 meses, e passou a consumir 52,02% do salário mínimo líquido do trabalhador. Os dados são da Companhia Nacional de Abastecimento e do Dieese, e foram divulgados em levantamento publicado pelo portal ND Mais.
Na mesma pesquisa aparece o outro lado da conta. Para sustentar uma família de quatro pessoas, o salário mínimo necessário no país seria de R$ 8.110,92, cerca de cinco vezes o piso vigente, de R$ 1.621. Comprar apenas os alimentos básicos exige hoje 105 horas e 51 minutos de trabalho por mês, o equivalente a mais de duas semanas de expediente destinadas exclusivamente à comida.
R$ 779,95 por mês só para colocar comida na mesa

A média nacional é o número que resume o problema. Em junho de 2026, o conjunto de alimentos essenciais custou R$ 779,95 nas capitais pesquisadas, resultado de uma alta acumulada de 8,69% nos 12 meses anteriores. É o valor de uma despesa que não pode ser adiada nem parcelada.
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O tempo de trabalho traduz melhor esse peso do que o valor em reais. São 105 horas e 51 minutos por mês dedicados apenas a pagar a cesta básica, considerando a jornada e o salário mínimo líquido. Em um mês de trabalho, mais de cem horas vão embora antes de qualquer outra conta ser paga. Aluguel, transporte, energia e remédio entram na fila depois disso.
O que significa comprometer 52% da renda líquida
O percentual de 52,02% precisa ser lido com atenção a uma palavra: líquida. O cálculo não usa o valor cheio do salário mínimo, e sim o que sobra depois dos descontos obrigatórios, que é o dinheiro que realmente chega à conta do trabalhador no fim do mês.
A própria conta permite estimar de quanto se fala. Se R$ 779,95 correspondem a 52,02% da renda líquida, o valor que sobra no bolso do trabalhador que ganha o mínimo gira em torno de R$ 1.499, contra os R$ 1.621 do piso bruto. A diferença entre um número e outro é o desconto obrigatório que sai antes de o salário cair na conta.
Essa diferença muda a percepção do problema. Quando mais da metade do que efetivamente entra na conta vai para alimentação básica, o restante do orçamento precisa caber na metade que sobrou. A cesta básica deixou de ser um item do orçamento e passou a ser o orçamento. É por isso que a sensação relatada por tanta gente, de que o salário some no supermercado, aparece agora sustentada por estatística.
São Paulo tem a cesta básica mais cara e a jornada mais longa
Entre as capitais, São Paulo lidera com folga. O valor médio da cesta básica na cidade chegou a R$ 965,47 em junho de 2026, com alta de 9,37% em um ano. É o teto nacional da pesquisa e puxa a média para cima.
O impacto sobre a renda também é o maior do país. O trabalhador paulistano precisa de 131 horas e 2 minutos de trabalho mensal para comprar os itens básicos, o que consome 64,39% do salário mínimo líquido. Quase dois terços do que sobra no contracheque vão para o mercado. Em uma cidade onde aluguel e transporte pesam, essa fatia deixa margem estreita para o resto.
Aracaju tem a mais barata e mesmo assim subiu 13%
O outro extremo fica no Nordeste. Aracaju registrou a cesta básica mais barata entre as capitais, com custo de R$ 630,40. A diferença para São Paulo passa de R$ 335 no mesmo conjunto de alimentos.
O detalhe que impede a comemoração é a variação. Mesmo sendo a mais barata do país, a cesta da capital sergipana subiu 13,12% em 12 meses, ritmo bem acima da média nacional de 8,69%. Ser a capital mais barata não significa estar protegida da alta. Em horas de trabalho, o morador de Aracaju gasta 85 horas e 34 minutos por mês, mais de 45 horas a menos que o paulistano para comprar a mesma coisa.
Cuiabá lidera a alta e São Luís é a única exceção do país
A maior pressão do período apareceu em Mato Grosso. Cuiabá registrou a maior alta anual entre as capitais, de 14,71%, com a cesta básica chegando a R$ 937,93, valor que coloca a cidade entre as mais caras do levantamento mesmo sem ocupar o topo.
No sentido contrário, uma única capital escapou. São Luís foi a exceção nacional, com queda de 0,09% no período. É uma variação praticamente nula, mas é a única cidade da lista que não terminou o ano com a cesta mais cara. O contraste entre Cuiabá e São Luís mostra que o mesmo país registrou trajetórias opostas de preço no mesmo intervalo de tempo.
De 85 a 131 horas: o mapa da desigualdade dentro do próprio país
Um dado atravessa toda a pesquisa e costuma passar despercebido: o tempo de trabalho necessário varia de 85 a 131 horas mensais entre as capitais, dependendo do custo local dos alimentos. É uma diferença de mais de 45 horas para comprar exatamente o mesmo conjunto de produtos.
O salário mínimo, porém, é o mesmo em todo o território nacional, enquanto o preço da cesta básica muda de capital para capital. O piso é único, o preço da comida não é, e o resultado é que o poder de compra do trabalhador brasileiro depende do endereço. Quem ganha o mínimo em São Paulo e quem ganha o mínimo em Aracaju recebem o mesmo valor, mas enfrentam realidades diferentes na hora de encher o carrinho.
Quantos dias de trabalho a cesta básica engole por mês
Traduzir as horas em dias ajuda a enxergar o tamanho da despesa. Considerando uma jornada de oito horas, as 105 horas e 51 minutos da média nacional equivalem a aproximadamente 13 dias inteiros de trabalho por mês só para pagar os alimentos essenciais. É praticamente metade dos dias úteis de um mês comercial.
Em São Paulo, a conta fica mais dura. As 131 horas e 2 minutos correspondem a cerca de 16 dias de expediente, enquanto em Aracaju as 85 horas e 34 minutos ficam perto de 11 dias. A diferença entre a capital mais cara e a mais barata chega a cinco dias de trabalho por mês para comprar o mesmo conjunto de itens. Ao longo de um ano, esse intervalo se acumula em centenas de horas de trabalho a mais para o morador de São Paulo.
Por que a cesta sobe mais do que a inflação dos alimentos
Existe um descompasso entre dois números do próprio levantamento. Enquanto a cesta básica subiu 8,69% em 12 meses, o IPCA, índice oficial de inflação do país, apontou alta de 3,82% no grupo de alimentos e bebidas no mesmo período.
A diferença entre os dois indicadores tem explicação simples de entender: eles não medem a mesma coisa. O IPCA acompanha uma cesta ampla de consumo das famílias, com produtos variados, enquanto o levantamento da cesta básica olha para um conjunto restrito de itens essenciais. Quando os básicos sobem mais que a média, quem ganha menos sente primeiro, porque é justamente essa faixa de renda que concentra os gastos nos produtos que mais encareceram.
O salário mínimo necessário: R$ 8.110,92 pela conta do Dieese
O número que fecha a matemática do levantamento é o do salário mínimo necessário. Segundo Conab e Dieese, o piso capaz de sustentar uma família de quatro pessoas no Brasil deveria ser de R$ 8.110,92. O valor vigente é de R$ 1.621, ou seja, cerca de cinco vezes menos.
Vale entender o que esse número representa. Ele não é o custo da cesta básica, é o valor considerado suficiente para manter uma família inteira, comida incluída. Para efeito de comparação, o salário considerado necessário equivale a mais de oito vezes o valor da cesta básica mais cara do país, a de São Paulo. É a distância entre o que se paga e o que, pela conta das instituições, seria preciso pagar.
O piso, a média nacional e o valor considerado necessário
Colocar os três números lado a lado deixa o quadro mais claro. O salário mínimo é de R$ 1.621. O rendimento médio do brasileiro, apontado pelo IBGE, está em R$ 3.726. E o valor tido como necessário para sustentar uma família de quatro pessoas é de R$ 8.110,92.
Em proporção, o rendimento médio nacional corresponde a cerca de 46% do valor considerado necessário, e o piso vigente fica em torno de 20% dele. Já a cesta básica média, de R$ 779,95, consome quase metade do salário mínimo bruto e mais da metade do líquido. A conclusão que salta da comparação é incômoda. Nem mesmo o rendimento médio nacional, que já é bem superior ao piso, chega perto do valor considerado necessário, ficando abaixo da metade dele. Isso significa que o descompasso não atinge apenas quem recebe o mínimo, mas alcança boa parte da população assalariada do país.
E na sua casa, quanto pesa a cesta básica
Os números do levantamento descrevem uma média, e média sempre esconde diferenças. Há famílias que gastam menos porque compram em atacado, cortam itens ou dividem despesas com mais gente na mesma casa. Há também quem gaste bem mais que os R$ 779,95 da média nacional, principalmente em cidades onde o custo dos alimentos já passou dos R$ 900.
Agora queremos ouvir você. Quanto está custando o mercado do mês na sua casa e quanto isso representa do que você ganha? Você já cortou algum item da lista por causa do preço ou mudou de marca e de mercado para conseguir fechar a conta? E a pergunta que mais divide opinião: você acha que um salário mínimo de R$ 8.110 seria possível na prática ou apenas encareceria tudo de novo? Comenta aqui embaixo.
