Rodoviária de Londrina, projetada por Oscar Niemeyer, chama atenção pelo formato circular e por uma banca familiar com mais de 100 sabores de suco.
Nem todas as pessoas que entram na rodoviária de Londrina, no norte do Paraná, estão à procura de um ônibus. Parte do público chega ao terminal exclusivamente para visitar uma banca de frutas que, ao longo de décadas, transformou seus sucos em uma tradição local.
Conhecido popularmente como “o suco da rodoviária”, o estabelecimento administrado pela família Kikuchi oferece mais de 100 combinações. A fama cresceu entre moradores, passageiros, visitantes de outras regiões e até turistas estrangeiros.
O negócio funciona dentro de um terminal que também se tornou atração por outro motivo. Inaugurado em 1988, o edifício foi projetado por Oscar Niemeyer e possui uma estrutura circular frequentemente comparada a um disco voador.
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Pequena banca passou a atrair clientes sem passagem comprada
A Casa de Sucos do Renato começou com uma antiga quitanda administrada por Renato Kikuchi. No início, o comércio era concentrado na venda de frutas. A preparação das bebidas surgiu como uma forma de aproveitar melhor os produtos disponíveis. A mudança ampliou o negócio e deu origem a receitas que continuaram sendo preparadas pela família.
Com o passar do tempo, o local deixou de atender apenas passageiros durante a espera pelo embarque. Moradores passaram a incluir a rodoviária em seus trajetos exclusivamente para comprar os sucos. A banca tornou-se, assim, uma atração independente dentro do terminal. Para parte dos frequentadores, a bebida passou a ser tão importante quanto o próprio edifício.
O cardápio reúne combinações desenvolvidas ao longo dos anos. Muitas delas surgiram a partir de testes feitos pelo próprio fundador, que utilizava seu paladar para decidir quais frutas poderiam ser misturadas. A família atribui a qualidade das bebidas à seleção cuidadosa dos ingredientes. Renato mantém uma relação antiga com fornecedores da Ceasa e procura frutas específicas para cada preparo.
Outro elemento destacado pelos proprietários é a concentração utilizada nas receitas. A família evita diminuir a quantidade e a qualidade dos produtos usados, preservando uma característica associada à fama da banca. O resultado é um catálogo com mais de uma centena de opções, capaz de atender desde consumidores interessados em sabores tradicionais até aqueles que procuram misturas diferentes.
Família alemã inclui suco de cupuaçu no roteiro brasileiro
A reputação da Casa de Sucos do Renato ultrapassou os limites de Londrina. Visitantes de outras regiões e estrangeiros passaram a procurar o estabelecimento durante suas passagens pela cidade. Um dos casos envolve uma família da Alemanha que visita o Brasil. Sempre que retorna ao país, o grupo faz questão de passar pelo terminal londrinense para pedir uma jarra de suco de cupuaçu.
A história mostra como uma atividade iniciada em uma pequena quitanda conseguiu criar vínculos com clientes que vivem fora do Brasil. Mesmo localizada em uma estação rodoviária, a banca adquiriu características de referência gastronômica, atraindo consumidores sem relação direta com as viagens realizadas no terminal.
Quem visita a banca também encontra um dos prédios mais reconhecidos da cidade. A forma arredondada, as linhas curvas e a cobertura diferenciada fazem com que o terminal se distancie visualmente das estações de ônibus convencionais. A comparação com um disco voador surgiu entre moradores e visitantes por causa da aparência futurista da construção.
O edifício passou a aparecer em registros fotográficos, cartões-postais e materiais de divulgação turística. Quase quatro décadas após a inauguração, continua sendo um dos símbolos de Londrina. Além das áreas destinadas aos passageiros, o espaço reúne lojas, serviços, alimentação e guichês de empresas de transporte.
Abertura no teto ilumina jardim no centro do terminal
A construção utiliza uma estrutura metálica organizada em formato circular. No centro da cobertura existe uma grande abertura, responsável por permitir a entrada de luz sobre um jardim interno. Os estabelecimentos comerciais, os serviços e os pontos de venda de passagens estão distribuídos ao redor dessa área central.

As plataformas destinadas aos ônibus ficam do lado externo do círculo. Essa disposição cria uma organização diferente daquela adotada em grande parte das rodoviárias brasileiras. O desenho permite que o interior seja estruturado em torno do jardim, enquanto as operações de embarque e desembarque acontecem na parte periférica.
Projeto precisou ser modificado por limitações financeiras
A criação de uma nova estação começou a ser planejada no final da década de 1970. A prefeitura precisava substituir a estrutura que atendia os passageiros e decidiu transformar o futuro terminal em um marco urbano. Oscar Niemeyer foi convidado para desenvolver o projeto. A proposta original utilizava curvas, integração entre os ambientes e uma estética voltada a uma visão futurista.
Durante a construção, entretanto, dificuldades financeiras impediram que todo o planejamento fosse executado da maneira inicialmente prevista. Junker Grassiotto, engenheiro envolvido com a obra e então secretário municipal de Obras, viajou ao Rio de Janeiro para apresentar as restrições orçamentárias ao arquiteto.
Depois da conversa com o engenheiro, Oscar Niemeyer concordou com alterações que permitiriam concluir a construção dentro das condições disponíveis. Mesmo com as modificações, a autoria do terminal foi preservada. As características principais do desenho também permaneceram visíveis na estrutura concluída.
A inauguração ocorreu em 25 de junho de 1988. Niemeyer não esteve presente na cerimônia, mas enviou um telegrama parabenizando Londrina pela entrega do prédio. Desde então, o terminal passou a desempenhar duas funções: atender ao transporte rodoviário e representar a cidade por meio de sua arquitetura.

Rodoviária de Londrina conecta cidades e reúne dezenas de estabelecimentos
Atualmente, a rodoviária recebe milhares de passageiros e conecta Londrina a diferentes municípios do Paraná e de outros estados. Dezenas de lojas funcionam dentro da estrutura, incluindo áreas de alimentação e outros serviços utilizados por viajantes e moradores.
A movimentação diária ajuda a manter a circulação de clientes na Casa de Sucos do Renato. Ao mesmo tempo, a fama da banca leva ao prédio pessoas que não precisam utilizar as plataformas. Essa combinação criou uma relação incomum entre o edifício e a atividade comercial desenvolvida pela família Kikuchi.
A rodoviária de Londrina tornou-se conhecida pela assinatura de Oscar Niemeyer, pelo formato que lembra uma nave e pela abertura central sobre o jardim. Dentro dessa obra, uma banca iniciada a partir da venda de frutas construiu sua própria história.
As experiências de Renato Kikuchi deram origem a mais de 100 sabores e atraíram gerações de consumidores. Hoje, o terminal pode ser visitado tanto por quem precisa viajar quanto por quem deseja conhecer sua arquitetura ou provar uma das bebidas preparadas pela família.
Fonte: Diário do Litoral

