Professora acolheu em 10 dias aluno com doença falciforme retirado da família e, quase quatro anos após conhecê-lo, tornou-se sua mãe definitiva.
Em dezembro de 2018, a professora Jenna Riccio conheceu Nate, um novo aluno do 1º ano que havia acabado de chegar à Walsh Elementary School, em Waterbury, Connecticut, nos Estados Unidos. O menino usava cadeira de rodas, era extremamente tímido e convivia com complicações graves da doença falciforme. Meses depois, ao descobrir que Nate estava internado e havia sido retirado da casa da família biológica, Jenna foi visitá-lo no hospital.
Diante da possibilidade de ele seguir para outro lar temporário, tomou uma decisão que mudaria os dois: passou por cursos, verificações de antecedentes e inspeção residencial em cerca de 10 dias para poder recebê-lo em casa quando tivesse alta.
O acolhimento, inicialmente pensado como temporário, atravessou anos. Jenna se casou com Tim Riccio, professor de artes da mesma escola e também antigo professor de Nate, e o menino participou da cerimônia como pajem.
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Depois que a possibilidade de reunificação com os pais biológicos deixou de existir, Jenna e Tim adotaram oficialmente Nate em 18 de novembro de 2022, no National Adoption Day, quase quatro anos depois do primeiro encontro na sala de aula. Naquele momento, a relação já havia deixado há muito tempo de ser simplesmente entre professora e aluno.
Nate chegou à escola no meio do ano letivo e quase não falava com os colegas
Quando Nate entrou na turma de Jenna Riccio, em dezembro de 2018, sua situação chamava atenção por vários motivos.
Ele havia sido transferido no meio do ano letivo e era o único aluno da sala que utilizava cadeira de rodas. Segundo Jenna contou ao Good Morning America, o menino era doce, mas muito quieto, tinha dificuldade para se abrir e às vezes começava a chorar aparentemente sem motivo.
Para uma criança que chegava a uma escola nova carregando uma história médica complexa, a adaptação não aconteceu imediatamente.
Jenna começou a construir uma relação com o aluno dentro da rotina escolar, sem imaginar que alguns meses depois seria obrigada a decidir se estava disposta a transformar aquela proximidade profissional em responsabilidade familiar permanente.
A situação de Nate também era muito mais complexa do que aquilo que aparecia inicialmente dentro da sala de aula.
Doença falciforme já havia provocado complicações extremamente graves
Nate nasceu com anemia falciforme do tipo HbSS, uma das formas mais graves da doença falciforme. Segundo o relato de Jenna ao Good Morning America, uma infecção sanguínea sofrida pelo menino quando era mais novo levou médicos a realizar amputações de partes das pernas, parte do braço esquerdo, três dedos e parte de uma orelha.
A doença falciforme é uma condição genética que altera os glóbulos vermelhos. De acordo com os Centers for Disease Control and Prevention, essas células podem se tornar rígidas e adquirir uma forma semelhante a uma foice, ficando presas em pequenos vasos sanguíneos e restringindo o fluxo de sangue.
Entre as consequências possíveis estão crises intensas de dor, anemia, infecções, acidente vascular cerebral e danos a diferentes órgãos. O CDC estima que aproximadamente 100 mil pessoas vivam com doença falciforme nos Estados Unidos.
No caso de Nate, as necessidades médicas seriam determinantes para tudo o que aconteceu depois.
Uma nova internação levou Jenna até o hospital em 2019
Em 2019, Nate precisou ser hospitalizado novamente.
A essa altura, Jenna já sabia que o Departamento de Crianças e Famílias de Connecticut, o DCF, havia retirado o menino da casa de sua família biológica e o colocado no sistema de acolhimento temporário.
Segundo reportagem do Washington Post, Nate tinha 7 anos quando precisou passar por uma cirurgia de emergência em setembro daquele ano. Jenna decidiu visitá-lo no Connecticut Children’s Medical Center.
A visita foi decisiva.
Ela sabia que o aluno estava internado sem a presença cotidiana da mãe e do irmão e começou a pensar sobre o que aconteceria quando ele tivesse alta.
Jenna posteriormente contou que ficou particularmente incomodada ao imaginar a criança enfrentando mais um período hospitalar e depois retornando a uma situação instável.
Foi naquele ambiente que surgiu uma ideia que, até então, não fazia parte de seus planos.
Ela poderia se tornar a mãe acolhedora do próprio aluno.
Estado havia retirado Nate de casa por preocupação com seus cuidados médicos
A situação de acolhimento não estava relacionada simplesmente à condição econômica da família. Ken Mysogland, então representante do DCF de Connecticut, explicou ao Washington Post que Nate era uma criança com necessidades médicas extremamente complexas e que essas necessidades não estavam sendo atendidas regularmente.
O jornal informou que, após uma série de consultas médicas perdidas, o Departamento de Crianças e Famílias retirou o menino da residência da família biológica.
Uma reportagem do Connecticut Insider também relatou que as autoridades estavam preocupadas com a possibilidade de Nate não receber os acompanhamentos médicos necessários.
Quando Jenna o visitou no hospital, estava previsto que, depois da alta, o menino fosse para um lar temporário localizado a cerca de uma hora de distância.
A professora então perguntou o que precisaria fazer para que Nate pudesse morar com ela.
Em cerca de 10 dias, professora fez cursos, passou por verificações e abriu a própria casa
O que normalmente poderia parecer uma decisão impulsiva precisou rapidamente se transformar em procedimentos formais.
Jenna não podia simplesmente retirar o aluno do hospital e levá-lo para sua residência.
Ela precisou completar cursos, workshops, verificações de antecedentes e inspeções na casa, enquanto profissionais responsáveis pelo processo avaliavam se o imóvel oferecia condições adequadas para Nate.

O processo emergencial foi concluído em aproximadamente 10 dias, segundo a própria professora.
O então namorado de Jenna, Tim Riccio, participou da decisão.
A coincidência tornava a história ainda mais incomum: Tim também trabalhava na Walsh Elementary School e havia ensinado Nate nas aulas de artes.
Quando Jenna contou que havia se oferecido para acolher o menino, Tim apoiou a ideia.
Em 3 de outubro de 2019, Nate saiu do hospital diretamente para a casa da professora
A mudança aconteceu em uma data específica.
Em 3 de outubro de 2019, Nate recebeu alta do hospital e, em vez de retornar ao lar temporário anterior, foi levado para a casa de Jenna.
O menino também precisou se adaptar.

Ao Connecticut Insider, Nate contou posteriormente que ficou nervoso e animado ao mesmo tempo. Para uma criança que já havia enfrentado mudanças familiares, hospitalizações e diferentes ambientes, morar com uma nova pessoa era estranho.
Jenna, por sua vez, também precisou aprender rapidamente tarefas que iam muito além do trabalho de professora.
Ela e Tim tiveram de aprender, por exemplo, como colocar corretamente as próteses das pernas do menino e como lidar com suas necessidades médicas diárias.
O acolhimento modificava a rotina de todos.
O primeiro ano trouxe experiências que Nate ainda não havia vivido
A estabilidade da nova casa abriu espaço para experiências comuns para muitas crianças, mas que eram novidade para Nate.
Segundo o Connecticut Insider, durante o primeiro ano vivendo com os Riccio, ele teve seu primeiro Halloween, primeiro Thanksgiving, primeiro Natal, primeira viagem à praia e primeira experiência nadando.
A família planejava ainda realizar sua primeira grande festa de aniversário em março de 2020.
A pandemia de Covid-19 interrompeu o plano.
Ainda assim, a relação entre Nate e os professores que haviam assumido seu cuidado continuava se aprofundando.
O que inicialmente era um lar temporário começava a formar uma estrutura familiar permanente, embora naquele momento a adoção ainda não fosse o objetivo oficial.
Decisão de adotá-lo praticamente não exigiu discussão entre o casal
Jenna contou que, quando a adoção foi colocada como possibilidade, ela e Tim não precisaram passar por uma longa discussão.
Depois de anos cuidando de Nate, ambos entendiam que aquele era o lugar onde o menino deveria permanecer.

A transformação jurídica apenas formalizaria uma relação construída desde 2019.
O processo finalmente chegou ao tribunal em 18 de novembro de 2022.
A data tinha um significado adicional nos Estados Unidos: naquele ano, coincidia com o National Adoption Day, iniciativa dedicada à adoção de crianças que vivem em acolhimento temporário.
Naquele dia, Nate Innocent Riccio tornou-se oficialmente filho de Jenna e Tim Riccio.
Irmão biológico que ajudou a cuidar de Nate acompanhou a adoção
A adoção não significou apagar os vínculos anteriores do menino.
No tribunal estava também Giovhany, irmão biológico mais velho de Nate.
A diferença de idade entre os dois era de aproximadamente 11 anos, e Jenna fez questão de reconhecer a importância dele na infância do novo filho.
Quando Jenna conheceu Nate no 1º ano, Giovhany já havia desempenhado um papel significativo em seus cuidados, apesar de também ser muito jovem.
Jenna afirmou que dava grande crédito ao rapaz pelo esforço feito para garantir que o irmão estivesse bem antes da chegada dos Riccio.
Assim, a adoção não foi apresentada pela família como substituição de toda a história anterior de Nate, mas como a construção de uma estrutura permanente depois de anos marcados por instabilidade e necessidades médicas complexas.
Menino passou de aluno tímido a integrante de coral, conselho estudantil e teatro
Quando a história ganhou repercussão nacional em 2023, Nate tinha 10 anos e cursava o 5º ano.
A descrição feita por Jenna era praticamente o oposto daquela do garoto que havia entrado silencioso em sua sala em dezembro de 2018.
Ela o descreveu como extrovertido, energético e dono de uma atitude positiva, apesar dos inúmeros procedimentos médicos enfrentados durante a infância.
O Connecticut Insider registrou que Nate participava de diferentes atividades escolares, entre elas coral, bucket band e conselho estudantil.
Também começou a fazer aulas de atuação e participou de uma peça interpretando um zumbi.
Seu objetivo declarado naquele período era tornar-se ator.
Saúde continuou exigindo acompanhamento mesmo depois da adoção
A nova estrutura familiar não eliminou os desafios médicos.
A doença falciforme é uma condição crônica e pode produzir complicações graves ao longo de toda a vida. O CDC aponta que episódios de dor estão entre suas manifestações mais comuns e uma das principais razões para idas de pacientes a emergências e hospitais.
Jenna afirmou que Nate continuaria precisando de acompanhamento e de outros procedimentos médicos conforme crescesse.
Ao Connecticut Insider, ela disse em 2022 que o filho estava naquele momento mais saudável do que jamais estivera, embora ainda houvesse cirurgias previstas e possíveis necessidades médicas futuras.
A família também buscou dar visibilidade à doença falciforme, que até conhecer Nate era pouco compreendida pela própria Jenna.
Uma visita de professora ao hospital terminou com uma família quatro anos depois
A sequência que levou à adoção não começou com um casal procurando uma criança para adotar.
Começou em uma sala do 1º ano, com um aluno recém-transferido, tímido, em cadeira de rodas e enfrentando uma condição médica grave.
Depois veio uma hospitalização.
Jenna foi visitá-lo imaginando apenas oferecer companhia a um estudante que conhecia. Saiu do hospital considerando a possibilidade de assumir sua guarda temporária.
Em aproximadamente 10 dias, transformou essa ideia em autorização formal para acolhê-lo. Em 3 de outubro de 2019, levou Nate para casa.
Tim, o professor de artes que também havia ensinado o garoto, tornou-se parte da estrutura familiar. Nate carregou as alianças no casamento dos dois, acompanhou o nascimento da irmã e permaneceu com eles enquanto sua situação jurídica era definida.
Finalmente, em 18 de novembro de 2022, aquilo que havia começado como acolhimento temporário tornou-se permanente no tribunal.
Quase quatro anos depois de entrar na escola como aluno de Jenna, Nate saiu de uma longa sequência de incertezas com dois de seus antigos professores oficialmente registrados como mãe e pai.

