O The Line foi anunciado como uma cidade de 170 quilômetros sem carros, ruas ou emissões, erguida entre duas paredes espelhadas no deserto saudita. As obras avançaram em terraplanagem e fundações de um trecho inicial, enquanto custos e revisão governamental reduziram a ambição original.
A promessa era cortar montanhas e desertos da Arábia Saudita com duas paredes espelhadas gigantescas e abrigar até 9 milhões de moradores dentro delas. A cidade de 170 quilômetros batizada de The Line foi apresentada como um lugar sem carros, sem ruas e sem emissões operacionais, conforme reportagem publicada pela redação de O Antagonista em 7 de agosto de 2026.
O que existe no terreno é outra coisa. As atividades se concentraram em terraplanagem, fundações, túneis, alojamentos de trabalhadores e infraestrutura para um trecho inicial. Em 2026, o próprio site da NEOM passou a definir a construção como um desenvolvimento de várias gerações, executado em fases e conforme a demanda, enquanto fontes ligadas à revisão governamental indicaram que a cidade seria redesenhada em escala muito menor.
Os números que saíram do render

A proposta original tinha medidas precisas e todas elas sem precedente. Comprimento de 170 quilômetros, largura de apenas 200 metros entre as paredes externas e edifícios alcançando 500 metros de altura. Dentro desse volume caberiam até 9 milhões de moradores, com serviços essenciais a poucos minutos de caminhada e um sistema de transporte rápido no lugar dos automóveis.
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O custo anunciado acompanhou a escala. As estimativas divulgadas para a construção integral ultrapassaram US$ 1 trilhão. Nenhuma cidade do mundo foi erguida com esse desenho, e é isso que torna qualquer previsão de orçamento pouco confiável. Não existe obra anterior comparável para servir de parâmetro de custo, prazo ou manutenção.
O que aparece de fato no canteiro
A imagem que circulou pelo mundo mostrava uma estrutura única atravessando o deserto até o Mar Vermelho. A execução, porém, é modular, e cada módulo exige escavações profundas, milhares de fundações, redes de água e energia, transporte de materiais, sistemas de refrigeração e conexões com outras regiões da NEOM.
Foi exatamente isso que avançou até agora, e em área limitada. Escavação, fundação, túnel e alojamento não produzem a fachada espelhada que aparece nas simulações, mas consomem tempo e dinheiro em volume alto. A distância entre a imagem digital e o canteiro não é uma questão estética, é uma questão de escala física. Um vídeo publicado pelo canal MegaBuilds compara as representações digitais com o que aparece no terreno e analisa o trecho escavado, as fundações e as mudanças anunciadas para 2026.
Por que o projeto encolheu antes de ganhar altura
O problema apareceu quando a ambição arquitetônica encontrou o custo de uma cidade que precisaria nascer praticamente do zero em uma região distante dos grandes centros urbanos. Não bastava erguer as torres. Era necessário construir usinas, redes de dessalinização, sistemas de esgoto, túneis, ferrovias, centros logísticos, moradias temporárias e estradas de abastecimento.
O recuo foi documentado em dois momentos por veículos internacionais. Em novembro de 2024, a Reuters informou que a Arábia Saudita havia priorizado partes da NEOM ligadas a eventos esportivos e a projetos com entregas mais próximas, enquanto os custos da primeira fase já eram estimados em centenas de bilhões de dólares. Em janeiro de 2026, o Financial Times relatou que o governo preparava uma redução e um redesenho significativos da NEOM, incluindo uma versão muito menor da cidade linear. A revisão começou antes de a estrutura sair do nível do solo.
Morar entre duas paredes tem um custo de engenharia

A geometria linear reduz distâncias horizontais dentro de cada módulo, mas cria dependência de elevadores, corredores verticais e transporte subterrâneo. Uma pessoa poderia viver perto de mercados e escolas no próprio módulo, só que qualquer deslocamento entre pontos afastados dependeria de um sistema ferroviário rápido, estações eficientes e conexões que ainda não operam em escala comparável.
Os desafios técnicos se acumulam em quatro frentes. O calor do deserto exige refrigeração contínua de grandes espaços, com demanda elevada de energia e água. O formato linear concentra o transporte em poucos corredores principais. As fachadas gigantes precisam de limpeza, vedação e manutenção constantes, com custo operacional difícil de estimar. E a construção remota depende de fluxo contínuo de materiais e trabalhadores, pressionando portos, estradas e alojamentos.
Uma estrutura de 500 metros ainda enfrentaria ventos fortes, expansão provocada pelo calor, entrada de areia e diferenças de temperatura entre áreas ensolaradas e sombreadas. Nenhum desses fatores torna a obra fisicamente impossível, mas a soma deles aumenta custos, exige manutenção permanente e complica a promessa de uma cidade simples, sustentável e eficiente.
O espelho no caminho das aves migratórias
As fachadas refletoras levantaram preocupação específica sobre colisões de aves. A região fica próxima de rotas migratórias que ligam Europa, Ásia e África, o que colocaria uma barreira espelhada de 170 quilômetros no meio de um corredor natural de passagem.
Documentos internos noticiados em 2024 indicaram que profissionais ligados ao projeto temiam a morte de uma quantidade significativa de aves caso a barreira fosse construída conforme o desenho original. A obra também pode fragmentar habitats terrestres e alterar a circulação de animais por uma faixa extensa. A NEOM afirma que pretende preservar a biodiversidade e integrar o empreendimento aos ecossistemas costeiros, montanhosos e desérticos, mas o impacto final dependerá do tamanho realmente construído, dos corredores ecológicos e das medidas adotadas para reduzir colisões e bloqueios.
Os 170 quilômetros ainda serão construídos?
A NEOM não declarou oficialmente o abandono da visão completa e segue apresentando o The Line como parte central de seu planejamento. A linguagem atual, no entanto, mudou de tom: destaca implantação gradual, orientada pela demanda e dividida em várias fases, sem calendário confirmado para a construção integral.
Fontes ouvidas pelo Financial Times afirmaram que a liderança saudita passou a considerar um empreendimento muito menor, com maior atenção a infraestrutura industrial e centros de dados. Atividade no terreno não significa que as duas paredes espelhadas completas estejam avançando como previsto em 2021. Partes da NEOM continuam, enquanto a ambição original passa por revisão profunda.
Quanto custa algo que nunca foi feito
Os valores associados ao projeto mudaram de referência ao longo do tempo, e isso explica boa parte da confusão numérica. O montante de US$ 500 bilhões apareceu inicialmente ligado a toda a região da NEOM, não apenas à cidade linear. Depois, as estimativas específicas para o The Line ultrapassaram US$ 1 trilhão, e cálculos internos divulgados pela imprensa apontaram valores ainda maiores caso todas as etapas, tecnologias e infraestruturas fossem executadas como nas primeiras imagens promocionais.
O resultado é que não existe preço final confiável para os 170 quilômetros, porque o projeto continua mudando de tamanho e configuração. A página oficial do The Line mantém a proposta como visão urbana de longo prazo, mas os relatos de 2026 mostram que financiamento, engenharia, logística e retorno econômico passaram a determinar o que sairá das imagens digitais e ganhará forma no deserto.
O The Line ocupa um lugar curioso no debate sobre grandes obras: não é um projeto abandonado nem um projeto em execução conforme o anunciado. É um desenho que continua oficialmente de pé enquanto encolhe na prática, com escavações reais em um trecho e um horizonte que ninguém consegue datar.
Conta nos comentários: você acha que uma cidade de 170 quilômetros entre duas paredes espelhadas é engenharia visionária ou marketing caro que nunca fecharia a conta? E na sua opinião, o que faz mais sentido para uma cidade do futuro, projetos monumentais como esse ou investimento pesado nas cidades que já existem?
