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Poucos imaginam, mas aquilo que milhões jogam fora toda vez que dão descarga concentra nutrientes valiosos e já está sendo transformado em fertilizante sem cheiro

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Escrito por Fabio Lucas Carvalho Publicado em 12/08/2026 às 06:12 Atualizado em 12/08/2026 às 06:17
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Estudo com urina humana real mostrou que a osmose direta pode concentrar nutrientes importantes para fertilizantes, enquanto sistemas já instalados em edifícios europeus transformam o material separado dos banheiros em fertilizante líquido.

A urina corresponde a apenas uma pequena parcela do esgoto, mas concentra substâncias importantes para a agricultura e para o tratamento de águas residuais. Pesquisadores e empresas europeias agora tentam transformar esse fluxo desperdiçado em recurso.

Apenas 1% das águas residuais concentra uma parcela enorme do que precisa ser tratado

O contraste ajuda a explicar por que pesquisadores estão interessados em separar a urina antes que ela se misture ao restante do esgoto.

Segundo a Agência Espacial Europeia (ESA), a urina representa aproximadamente 1% do volume das águas residuais, mas pode concentrar até 80% dos compostos que precisam ser tratados em estações de tratamento.

Entre essas substâncias estão nitrogênio e fósforo, além de compostos farmacêuticos. Em vez de diluir todo esse material em grandes volumes de água e tratá-lo posteriormente, uma alternativa é separar a urina diretamente nos edifícios.

O interesse também está relacionado aos nutrientes presentes nesse fluxo. Nitrogênio, fósforo e potássio são importantes para a produção agrícola e normalmente acabam seguindo para sistemas convencionais de esgoto quando a urina é descartada nos vasos sanitários.

É justamente essa concentração de nutrientes que motivou pesquisadores da Universidade de Surrey, no Reino Unido, a estudar uma maneira de retirar parte da água da urina e manter os componentes de interesse concentrados.

Pesquisadores usaram urina humana real em sistema de osmose direta

O trabalho foi publicado em 2026 no Journal of Environmental Chemical Engineering com o título “Fouling dynamics of forward osmosis membrane during multi-cycle concentration of hydrolysed and stabilized real human urine”.

No estudo original, identificado pelo DOI 10.1016/j.jece.2026.122325, os pesquisadores analisaram a concentração de urina humana real usando uma tecnologia conhecida como osmose direta.

Os experimentos compararam três condições: urina hidrolisada previamente filtrada, urina hidrolisada sem filtragem e urina estabilizada com ácido cítrico.

Um dos principais obstáculos estudados foi a incrustação ou formação de depósitos sobre a membrana, fenômeno conhecido como fouling. Com o uso repetido, materiais orgânicos e biológicos podem se acumular e reduzir o desempenho do sistema.

A diferença provocada por um pré-tratamento relativamente simples foi significativa. Na urina hidrolisada filtrada, a queda de fluxo ficou em 37%. Na amostra que não passou pela filtragem, a perda chegou a 60%.

Os testes mostraram ainda que as membranas retiveram pelo menos 90% a 95% de fosfato, cálcio, magnésio e demanda química de oxigênio. Potássio e amônio tiveram passagem moderada pela membrana.

Depois dos ciclos de utilização, procedimentos sequenciais de limpeza conseguiram recuperar entre 91% e 98% do fluxo. Os pesquisadores observaram, porém, resíduos que indicam que uma parcela da incrustação pode permanecer.

Os resultados não significam que o equipamento experimental já entregue diretamente um fertilizante comercial pronto. O estudo se concentra na capacidade de concentrar urina, recuperar nutrientes e entender como a membrana se comporta durante operações repetidas.

O objetivo técnico é tornar esse tipo de tratamento mais viável para utilização prolongada, especialmente porque o desempenho da membrana é uma das barreiras para ampliar sistemas baseados em osmose direta.

Em Paris, urina de funcionários da ESA já segue para uma pequena estação de tratamento

Enquanto a Universidade de Surrey estuda a osmose direta, outra tecnologia de recuperação de nutrientes da urina já funciona dentro de edifícios.

A suíça VunaNexus instalou um sistema na sede da Agência Espacial Europeia, em Paris. De acordo com a ESA, o terceiro reator piloto da empresa começou a operar no local em novembro de 2023.

Banheiros preparados para separar a urina direcionam o líquido por tubulações específicas até um tanque central, evitando que o material seja imediatamente misturado ao restante das águas residuais.

O tratamento utilizado pela VunaNexus é diferente da osmose direta pesquisada em Surrey.

Primeiro ocorre uma estabilização biológica por nitrificação. Bactérias convertem amônia em nitrato durante um processo com aeração. Depois, o líquido passa por um filtro de carvão ativado destinado à remoção de micropoluentes.

Na etapa seguinte, o material estabilizado e filtrado passa por destilação a vácuo. O processo retira água, aumenta a concentração dos minerais e realiza a pasteurização.

Ao final, o sistema produz dois fluxos: água destilada, que pode ser reutilizada, e um fertilizante líquido chamado Aurin.

Sistemas já reciclam cerca de 3 milhões de litros de urina por ano

O projeto deixou de ficar restrito a uma única demonstração.

Em reportagem publicada em 4 de junho de 2026, o The Guardian informou que sistemas da VunaNexus estavam instalados em vários grandes edifícios comerciais e residenciais e reciclavam cerca de 3 milhões de litros de urina por ano.

Entre as instalações mencionadas estão a sede da ESA em Paris e um dos maiores bancos privados da Suíça, em Genebra. A tecnologia também está sendo implantada em um novo bairro ecológico em Paris.

Na sede da agência espacial, vasos e urinóis adaptados conduzem a urina sem grande diluição até uma pequena instalação de tratamento localizada no próprio edifício.

Após passar pelos tanques, filtragem e concentração, o líquido é pasteurizado. A reportagem descreve uma temperatura de 90 °C nessa etapa, destinada a eliminar possíveis vírus e outros agentes patogênicos.

O fertilizante resultante é o Aurin. Segundo a reportagem, o produto é aprovado pelas autoridades da Suíça e da França para utilização em todos os tipos de plantas e é vendido para agricultores, jardins e plantas domésticas. Também vinha sendo testado por autoridades municipais em Paris, Lausanne e Zurique.

Separar a urina antes do esgoto é a peça central das duas abordagens

A pesquisa acadêmica e o sistema comercial não utilizam a mesma tecnologia, mas partem de uma lógica semelhante: evitar diluir um fluxo pequeno e rico em nutrientes dentro de volumes muito maiores de águas residuais.

No estudo de Surrey, a osmose direta foi utilizada para retirar água e concentrar componentes da urina, enquanto os pesquisadores avaliaram especialmente a perda de desempenho causada pelo acúmulo de material na membrana.

Na VunaNexus, a separação ocorre já nos banheiros. O tratamento envolve nitrificação, carvão ativado, destilação a vácuo e pasteurização antes da obtenção do fertilizante.

A escala comercial ainda enfrenta dificuldades. David de Chambrier, executivo-chefe da VunaNexus, afirmou ao Guardian que, em uma pequena instalação, produzir um quilo de nitrogênio recuperado da urina ainda pode custar 40 a 50 vezes mais do que obtê-lo por meio de fertilizantes sintéticos.

A empresa considera que ampliar a produção e remunerar também o serviço de tratamento de águas residuais será necessário para melhorar a competitividade econômica da tecnologia.

Mesmo com essa limitação, os números mostram como um material que representa aproximadamente 1% das águas residuais pode ganhar importância quando separado na origem.

De um lado, experimentos com urina humana real demonstram que membranas podem concentrar nutrientes e recuperar grande parte do desempenho depois da limpeza. Do outro, sistemas instalados em edifícios já processam, em conjunto, aproximadamente 3 milhões de litros por ano, transformando parte desse fluxo em água reutilizável e fertilizante líquido.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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