Expedições realizadas em 2025 e 2026 localizaram milhares de recipientes a 4.700 metros de profundidade, alguns corroídos, enquanto pesquisadores analisam radionuclídeos, sedimentos e organismos para medir possíveis efeitos no ambiente marinho do Atlântico Nordeste profundo
Mais de 200 mil barris radioativos foram descartados no Atlântico Nordeste durante o século XX, e pesquisadores agora investigam o que aconteceu com esse material. Expedições realizadas em 2025 e 2026 localizaram milhares de recipientes a cerca de 4.700 metros de profundidade, incluindo unidades corroídas e com material espalhado pelo fundo oceânico.
Mais de 200 mil barris radioativos foram descartados no Atlântico
Os recipientes encontrados fazem parte de operações realizadas durante décadas por diferentes países europeus.
Segundo o Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), os resíduos eram colocados em barris metálicos de aproximadamente 200 litros.
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Normalmente, o conteúdo era misturado com concreto ou betume. Esses materiais ajudavam os recipientes a suportar o impacto contra a água no momento em que eram lançados ao oceano.
Os registros históricos apontam que o Reino Unido descartou mais de 140 mil barris, enquanto a Bélgica depositou cerca de 55 mil. A França também realizou operações de descarte no Atlântico.
Quando as primeiras operações ocorreram, esse tipo de descarte em águas internacionais não era ilegal. Posteriormente, regras internacionais passaram a restringir a prática até que ela fosse proibida.
Os pesquisadores destacam que não há indicação de descarte de combustível nuclear ou de resíduos de alta atividade e longa duração nesses recipientes.
Os barris estavam associados principalmente a materiais radioativos de níveis inferiores de atividade.

Robô encontrou milhares de recipientes no fundo do oceano
A investigação ganhou uma nova dimensão com o projeto NODSSUM, liderado pelo CNRS e desenvolvido com participação de diferentes instituições científicas.
Em 2025, o veículo submarino autônomo UlyX foi enviado às planícies abissais do Atlântico Nordeste para localizar e mapear os recipientes.
Durante aproximadamente um mês, a missão localizou e mapeou 3.355 barris. Também foram coletados 5 mil litros de água, realizadas 345 amostragens do fundo oceânico e capturados 34 exemplares de peixes e crustáceos.
A área investigada, entretanto, representa apenas uma pequena parcela da região utilizada para os descartes. Dados dos pesquisadores apontam que essa zona ocupa aproximadamente 14,5 mil km².
O UlyX conseguiu mapear cerca de 165 km², menos de 2% da região total. Nessa parcela, os pesquisadores já identificaram mais de 3,5 mil recipientes.
As imagens registradas durante a missão mostraram ainda que alguns barris radioativos já não permaneciam completamente intactos, informação que ajudou a definir os locais examinados na campanha seguinte.
Cientistas chegaram aos barris a 4.700 metros em 2026
Em 2026, os pesquisadores retornaram ao Atlântico utilizando o Nautile, um submersível tripulado capaz de alcançar diretamente as áreas onde os recipientes estavam concentrados.
A equipe inspecionou visualmente dezenas de barris e encontrou diferentes estágios de degradação. Alguns apresentavam corrosão avançada.
Em determinados pontos, os cientistas observaram material saindo dos recipientes e acumulado sobre o sedimento próximo.
Cinco áreas foram selecionadas para análises detalhadas. O Nautile coletou amostras de água, sedimentos, organismos e comunidades microbianas nas proximidades dos barris.
Ambientes rochosos vizinhos também foram analisados. O objetivo foi permitir a comparação entre a vida marinha encontrada naturalmente nesses locais e aquela presente ao redor dos resíduos.
Radionuclídeos são detectados e animais vivem sobre os barris
Equipamentos usados durante a expedição identificaram sinais significativos de radionuclídeos relacionados aos resíduos, entre eles cobalto-60 e nióbio-94.
Também foram detectados césio-137 e amerício-241. Segundo os pesquisadores, esses elementos exigem análise mais cuidadosa porque também podem estar relacionados a testes de armas nucleares e acidentes registrados ao longo das últimas décadas.
As medições feitas durante a missão não apontaram níveis capazes de representar grandes problemas de radioproteção para pesquisadores ou equipamentos. A principal questão ambiental, porém, ainda está sendo investigada.
Anêmonas, esponjas, caranguejos e outros organismos foram encontrados vivendo sobre os próprios recipientes ou perto deles. Em uma área dominada por sedimentos, os barris passaram a oferecer superfícies rígidas que podem ser colonizadas por espécies das profundezas.
Agora, as análises procuram determinar se radionuclídeos liberados dos recipientes passaram da água ou dos sedimentos para esses organismos e em quais concentrações.
As duas campanhas produziram centenas de amostras de sedimentos, milhares de litros de água filtrada, imagens de alta resolução e dezenas de animais para análise.
O trabalho deverá ajudar os cientistas a reconstruir como as substâncias radioativas se deslocaram dos barris radioativos para o ambiente ao redor e verificar se foram incorporadas por animais ou microrganismos.
Esta matéria foi elaborada com base em informações do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS) e no material fornecido sobre as expedições do projeto NODSSUM, com dados, números e informações preservados conforme o material consultado.

