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Porto Rico importou mangustos da Índia para acabar com ratos nos canaviais, mas esqueceu um detalhe: as pragas eram noturnas e os predadores caçavam de dia; 150 anos depois, a espécie invasora virou o principal reservatório de raiva da ilha

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Escrito por Carla Teles Publicado em 26/08/2026 às 11:22 Atualizado em 26/08/2026 às 11:28
Porto Rico importou mangustos da Índia para acabar com ratos nos canaviais, mas esqueceu um detalhe_ as pragas eram noturnas e os predadores caçavam de dia; 150 anos depois, a
Mangustos levados a Porto Rico para combater ratos viraram espécie invasora e hoje são o principal reservatório de raiva da ilha.
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Introduzidos no século XIX como controle biológico das plantações de cana-de-açúcar, os mangustos nunca eliminaram os ratos e se espalharam por Porto Rico. Hoje, são espécie invasora, afetam a fauna nativa e respondem por grande parte dos casos animais de raiva registrados, segundo dados históricos do CDC e pesquisadores norte-americanos.

Os mangustos chegaram a Porto Rico como uma solução para um problema agrícola e acabaram criando outro que atravessou gerações. Na década de 1870, pequenos mangustos indianos foram introduzidos na ilha para atacar ratos que danificavam plantações de cana-de-açúcar. A ideia parecia simples: colocar um predador nos canaviais e deixar que ele reduzisse a praga.

Cerca de 150 anos depois, o resultado é muito diferente daquele esperado. A estratégia não eliminou os ratos, os animais importados se estabeleceram como espécie invasora e hoje constituem o principal reservatório de raiva em Porto Rico. O caso foi retomado pelo Xataka em 23 de agosto de 2026 e é sustentado por registros do CDC e por pesquisas conduzidas sobre a população de mangustos na ilha. O CDC confirma que esses animais foram levados da Índia ao Caribe no século XIX para controlar ratos em plantações de cana.

Mangustos chegaram aos canaviais como uma forma de controle biológico

Durante o século XIX, a cana-de-açúcar ocupava papel econômico central em diferentes ilhas caribenhas. Ratos consumiam e danificavam parte das plantações, criando uma pressão constante sobre os produtores. Em vez de depender apenas de métodos diretos de combate, proprietários passaram a introduzir predadores capazes de caçar os roedores.

Porto Rico adotou essa estratégia na década de 1870. Os mangustos eram vistos como agentes de controle biológico: em teoria, bastaria colocá-los no mesmo ambiente dos ratos para que a predação reduzisse a população da praga. O CDC registra que a introdução ocorreu durante o século XIX justamente com esse objetivo agrícola.

Predador caçava de dia enquanto os ratos se movimentavam principalmente à noite

O plano carregava uma incompatibilidade fundamental. Conforme a reconstrução apresentada pelo Xataka, os pequenos mangustos indianos são predominantemente diurnos, enquanto os ratos que deveriam combater apresentam maior atividade noturna.

Na prática, predador e presa podiam ocupar os mesmos canaviais sem manter contato intenso durante boa parte de seus respectivos períodos de atividade. O simples fato de colocar uma espécie predadora no ambiente, portanto, não significava que ela encontraria os ratos na frequência necessária para resolver o problema.

Ratos permaneceram e mangustos encontraram outras fontes de alimento

A população introduzida não desapareceu quando o controle dos ratos mostrou resultados limitados. Os mangustos conseguiram sobreviver utilizando outras fontes de alimento disponíveis nos ecossistemas onde haviam sido soltos.

A dieta passou a incluir pequenos vertebrados e outros animais. O predador importado encontrou condições suficientes para se estabelecer sem depender dos ratos que justificaram originalmente sua introdução, transformando uma tentativa agrícola em um problema ecológico permanente.

Espécie invasora passou a pressionar animais nativos

O impacto deixou de estar restrito às plantações. Mangustos são predadores generalistas e podem consumir aves, répteis, anfíbios e pequenos mamíferos, inclusive espécies que evoluíram em ambientes insulares sem enfrentar esse tipo de predador terrestre.

A consequência foi a consolidação dos mangustos como espécie invasora em diferentes ilhas caribenhas. Pesquisas sobre a espécie descrevem efeitos sobre répteis nativos e aves que nidificam no solo, demonstrando que o problema se expandiu muito além da agricultura.

Raiva acrescentou uma dimensão sanitária ao problema ecológico

Décadas depois da introdução surgiu outro problema. Segundo informações reunidas pela Wildlife Society, um grande episódio de raiva confirmado laboratorialmente entre mangustos em Porto Rico foi registrado em 1950.

A partir daí, o vírus permaneceu associado à população desses animais. O que havia começado como uma intervenção para proteger canaviais tornou-se também uma questão de saúde pública, porque os mangustos passaram a atuar como reservatório capaz de manter a circulação da raiva na ilha.

Mangustos chegaram a responder por quase 75% dos casos animais de raiva

Um relatório do CDC publicado em 2017 classificou os mangustos como o principal reservatório de raiva em Porto Rico e informou que eles respondiam historicamente por quase 75% dos casos de raiva registrados em animais.

A Wildlife Society apresenta proporção semelhante, acima de 70% dos casos notificados. Esses números não significam que três quartos de todos os mangustos da ilha tenham raiva, mas indicam a importância desproporcional da espécie entre os animais diagnosticados com a doença.

Anticorpos foram encontrados em 39% dos animais de áreas estudadas

Pesquisadores também avaliaram sinais de exposição ao vírus em populações de vida livre. Em trabalhos realizados na Floresta Nacional El Yunque e no Refúgio Nacional de Vida Silvestre de Cabo Rojo, 39% dos mangustos examinados apresentaram evidências sorológicas de exposição à raiva.

Há uma distinção importante: encontrar anticorpos neutralizantes não equivale a diagnosticar raiva ativa em 39% dos animais. O resultado indica exposição ao vírus e ajuda pesquisadores a compreender a circulação da doença, enquanto levantamentos realizados em outros locais podem produzir taxas diferentes.

Mordidas transformaram a espécie invasora em risco direto para pessoas

O problema também chega ao contato entre animais e seres humanos. A Wildlife Society informou uma estimativa média de aproximadamente 280 porto-riquenhos mordidos por mangustos por ano, número utilizado por pesquisadores para dimensionar o risco de exposição.

O CDC trata mordidas desses animais em Porto Rico como situações que exigem avaliação médica. Uma página atual da agência destaca que mangustos são reservatórios de raiva na ilha e representam uma exposição de alto risco quando entram em contato com pessoas ou animais domésticos.

Morte humana mostrou consequência de uma mordida não tratada

Um dos episódios mais graves envolveu um homem de 54 anos que havia sido mordido por um mangusto no sudeste de Porto Rico em outubro de 2015 e não procurou atendimento imediatamente após o ataque.

Semanas depois, ele apresentou sintomas compatíveis com raiva, teve piora clínica e morreu. Testes realizados posteriormente confirmaram infecção pela variante caribenha associada aos mangustos. O CDC classificou o episódio como o primeiro caso conhecido nos Estados Unidos ou em seus territórios em que uma pessoa adquiriu raiva diretamente pela mordida de um mangusto.

Controle mudou de ratos para a própria espécie importada

O paradoxo ficou completo: pesquisadores passaram a estudar como controlar o animal que havia sido introduzido para controlar outro. Levantamentos analisaram densidade populacional, deslocamentos, níveis de anticorpos e formas de oferecer iscas aos mangustos.

O objetivo de parte dessas pesquisas é desenvolver estratégias que possam apoiar programas de vacinação oral contra a raiva, semelhantes aos empregados com outras espécies silvestres. A questão já não é usar os mangustos para reduzir uma praga agrícola, mas diminuir os riscos produzidos pela própria população introduzida.

Pesquisadores chegaram a testar sabores de iscas para vacinação

Os estudos incluíram experimentos bastante específicos. Pesquisadores testaram diferentes formulações de iscas para descobrir quais seriam mais atraentes aos animais caso uma estratégia de vacinação oral pudesse ser implantada.

Nos testes relatados pela Wildlife Society, os mangustos demonstraram preferência por iscas com sabor de queijo em comparação com opções de coco e peixe. Esse tipo de informação é relevante porque uma campanha de vacinação de fauna depende de conseguir que o animal-alvo encontre e consuma a dose.

Açúcar perdeu espaço, mas mangustos permaneceram em Porto Rico

A agricultura que motivou a introdução mudou profundamente ao longo de mais de um século. A atividade açucareira perdeu a dimensão que possuía quando os animais foram trazidos ao Caribe, mas a espécie invasora permaneceu estabelecida.

Os mangustos sobreviveram ao problema agrícola que deveriam resolver. Hoje, sua presença exige monitoramento ecológico, vigilância sanitária, atendimento de pessoas expostas e pesquisas voltadas à prevenção da raiva, mostrando como uma intervenção sobre um ecossistema pode produzir consequências muito mais duradouras que o objetivo original.

Experimento de 150 anos atrás ainda exige resposta de cientistas e autoridades

A sequência é incomum: Porto Rico introduziu um predador estrangeiro para eliminar ratos, descobriu que os horários de atividade das duas espécies reduziam a eficiência da estratégia, viu o animal buscar outras presas e, décadas depois, passou a enfrentar uma população invasora capaz de manter a circulação da raiva.

Cerca de 150 anos depois, a solução criada para um problema nos canaviais tornou-se ela própria um problema ecológico e sanitário. Na sua opinião, decisões de controle biológico com espécies estrangeiras deveriam passar por regras mais rígidas mesmo quando parecem oferecer uma solução rápida para uma praga? Conte nos comentários.

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Carla Teles

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