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Astronauta registra do espaço uma das maiores cicatrizes ambientais do planeta: antigo Mar de Aral, que já foi o 4º maior lago do mundo, encolheu para cerca de 10% da área original e deixou no lugar da água um deserto de 62 mil km²

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 25/08/2026 às 17:34
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Astronauta olha para o antigo Mar de Aral e registra do espaço dunas onde antes havia água
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Astronauta da ISS registrou o Mar de Aral do espaço e revelou dunas ocupando o antigo fundo do lago, que perdeu cerca de 90% de sua área e originou um deserto de 62 mil km².

Em 17 de outubro de 2023, um astronauta da tripulação da Expedição 70 da Estação Espacial Internacional apontou uma câmera Nikon D5 para a superfície da Ásia Central enquanto a ISS passava sobre o Cazaquistão. A imagem registrada parecia mostrar apenas alguns fragmentos de água cercados por uma imensa extensão cinza e bege. Mas aquela paisagem já havia sido completamente diferente: quase toda a área visível na fotografia havia sido ocupada pelo Mar de Aral, que chegou a ser o quarto maior lago do planeta em superfície. A NASA publicou a fotografia em junho de 2024 como um dos registros mais contundentes da transformação ambiental da região.

Desde a década de 1960, o desvio dos rios Amu Darya e Syr Darya para grandes sistemas de irrigação provocou uma redução tão severa que o Mar de Aral chegou a aproximadamente 10% de sua área original. Onde antes havia água, embarcações e comunidades pesqueiras, surgiu o deserto de Aralkum, uma das formações desérticas mais jovens do planeta, atualmente espalhada por cerca de 62 mil km². Na fotografia orbital, a NASA destaca inclusive dunas construídas pelo vento sobre áreas que durante décadas permaneceram no fundo do lago.

Fotografia foi feita por um astronauta a bordo da Estação Espacial Internacional

O registro utilizado pela NASA não foi produzido por um satélite automático. A fotografia foi feita por um integrante da Expedição 70 da Estação Espacial Internacional, utilizando uma câmera digital Nikon D5 com lente de 58 milímetros.

A imagem recebeu a identificação ISS070-E-4509. Segundo a NASA, ela foi posteriormente recortada, teve o contraste aprimorado e passou por remoção de artefatos ópticos para facilitar a visualização da paisagem.

Fotografia foi feita por um astronauta a bordo da Estação Espacial Internacional
ISS070-E-4509 NASA Aral

A estação estava sobre o Cazaquistão quando a câmera foi apontada para o lago localizado na fronteira entre Cazaquistão e Uzbequistão. O resultado mostra em uma única cena aquilo que décadas de imagens de satélite já vinham documentando: uma enorme massa de água transformada em fragmentos separados por terra seca.

Quase toda a fotografia teria sido ocupada por água no passado

A dimensão da transformação fica mais clara em uma observação feita pela própria NASA. Em sua extensão máxima, o Mar de Aral teria ocupado quase toda a área registrada na fotografia do astronauta. No cenário atual, porém, apenas porções relativamente pequenas de água aparecem separadas por extensões áridas.

Antes do colapso, o lago cobria aproximadamente 68 mil km², segundo registros históricos compilados pelo Banco Mundial. Sua escala o colocava entre as maiores massas de água interiores do planeta.

Comparado com aquela referência, o que aparece atualmente visto do espaço parece pertencer a outra região geográfica.

Tudo começou a mudar com um gigantesco projeto de irrigação

Na década de 1960, a União Soviética passou a executar um enorme programa agrícola nas áreas áridas do atual Cazaquistão, Uzbequistão e Turcomenistão.

Grandes quantidades de água dos rios Amu Darya e Syr Darya começaram a ser desviadas para irrigar plantações, principalmente de algodão e outras culturas agrícolas.

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A estratégia conseguiu transformar áreas desérticas em terras cultiváveis, mas reduziu progressivamente o volume de água que chegava ao Mar de Aral.

Era uma equação simples e devastadora. O lago continuava perdendo água por evaporação, enquanto sua reposição diminuía.

O quarto maior lago do planeta começou a desaparecer

As consequências apareceram progressivamente. Imagens históricas da NASA mostram que o processo já era evidente nas décadas seguintes. Em 1989, o Mar de Aral havia começado a se separar em uma parte norte e outra sul. Posteriormente, o setor sul também se fragmentaria.

A transformação continuou durante os anos 1990 e 2000.

A NASA mantém uma série chamada World of Change justamente para permitir que as imagens de diferentes décadas sejam comparadas. O contraste revela o avanço da terra seca sobre áreas que originalmente apareciam cobertas por água.

Poucas transformações ambientais recentes possuem uma representação visual tão evidente.

O lago chegou a cerca de 10% de sua área original

Segundo a NASA, desde a década de 1960 o Mar de Aral caiu para aproximadamente 10% de sua área original.

Isso significa que cerca de nove décimos da superfície que caracterizava o antigo lago deixaram de existir na configuração histórica.

O desaparecimento não ocorreu de maneira uniforme. Algumas partes secaram completamente, outras se transformaram em pequenos corpos isolados e o setor norte passou posteriormente por um processo específico de recuperação. A fotografia da ISS registra exatamente essa fragmentação.

No fundo seco nasceu um deserto de 62 mil km²

Quando a água recuou, não ficou simplesmente uma superfície vazia. O antigo fundo do lago começou a ser submetido ao vento, à erosão e à movimentação de sedimentos. Com o tempo, surgiu o Aralkum, classificado pela NASA como um dos desertos mais jovens do mundo.

Sua extensão chega a aproximadamente 62 mil km², área próxima da dimensão de alguns países.

O número produz um contraste impressionante: em poucas décadas, uma região mundialmente conhecida pela presença de um enorme lago passou a abrigar uma das mais recentes formações desérticas da Terra.

Astronauta conseguiu fotografar dunas sobre o antigo fundo do lago

Na parte inferior central da imagem feita em 2023, a NASA identifica claramente dunas de areia.

Elas foram construídas pelo transporte de sedimentos promovido pelos ventos que atravessam o fundo seco. Esse detalhe transforma a fotografia em algo particularmente simbólico.

Dunes and Desert Replace the Aral Sea
Dunes and Desert Replace the Aral Sea

Não se trata apenas de enxergar que a margem recuou. O processo chegou ao ponto de permitir que dunas se desenvolvessem em locais que anteriormente estavam submersos.

Água foi substituída por areia em escala suficientemente grande para ser reconhecida da órbita terrestre.

Tempestades passaram a carregar areia e poeira para outras regiões

O surgimento do Aralkum também criou um novo problema ambiental. A superfície seca fornece enormes quantidades de sedimentos que podem ser levantados pelos ventos. A NASA documenta tempestades de areia e poeira originadas no antigo fundo do Mar de Aral, com impactos sobre a qualidade do ar regional.

O fenômeno é especialmente problemático porque o sedimento não é composto apenas por areia comum.

Décadas de atividade agrícola na bacia deixaram resíduos de sais e contaminantes no sistema. Quando a água desaparece e o material fica exposto, parte desses componentes pode ser redistribuída pelo vento.

Assim, a crise hídrica produziu consequências que ultrapassam os limites da antiga margem.

O desaparecimento da água também destruiu uma economia pesqueira

O Mar de Aral não era apenas uma massa d’água geograficamente impressionante.

Cidades e comunidades construíram economias ligadas diretamente à pesca. Segundo registros históricos da NASA, a indústria comercial empregava aproximadamente 60 mil pessoas no início da década de 1960.

Com a redução da água, a salinidade aumentou e a população de peixes despencou. Até o começo dos anos 1980, a antiga indústria pesqueira comercial havia praticamente desaparecido.

Alguns antigos portos ficaram tão distantes da nova margem que embarcações abandonadas passaram a aparecer no meio da paisagem árida, criando algumas das imagens mais conhecidas da tragédia do Aral.

Plantar vegetação no antigo fundo virou estratégia contra a poeira

Uma das respostas à desertificação consiste em tentar fixar os sedimentos.

A NASA informa que arbustos conhecidos como saxaul-negro passaram a ser plantados em partes do antigo fundo para ajudar a estabilizar o solo e reduzir a quantidade de material carregado pelo vento.

A vegetação funciona como uma barreira física. Suas raízes ajudam a manter sedimentos no lugar, enquanto a parte aérea reduz a velocidade do vento junto à superfície.

A estratégia não recria o antigo Mar de Aral, mas pode reduzir alguns dos efeitos produzidos pela criação do novo deserto.

Uma única fotografia resume seis décadas de transformação

Quando o astronauta da Expedição 70 apertou o obturador em outubro de 2023, registrou muito mais que uma paisagem incomum.

Na mesma fotografia aparecem fragmentos do antigo lago, o novo deserto de Aralkum, dunas construídas pelo vento e territórios que décadas antes seriam invisíveis sob a água.

A NASA estima que o Mar de Aral tenha chegado a aproximadamente 10% da área original, enquanto o deserto formado sobre seu antigo leito alcança 62 mil km².

Há poucas décadas, praticamente toda aquela cena teria outra cor.

Do espaço, o desaparecimento de um dos maiores lagos do planeta fica impossível de esconder

No solo, é difícil compreender completamente a escala da transformação. Uma pessoa pode caminhar sobre o fundo seco, observar dunas ou percorrer quilômetros entre antigos portos e a água atual, mas continuará enxergando apenas uma pequena fração da área afetada.

Da Estação Espacial Internacional, a perspectiva muda.

A fotografia feita a centenas de quilômetros acima da superfície mostra de uma só vez o que aconteceu quando dois rios fundamentais foram desviados e o equilíbrio hídrico do sistema se rompeu.

Onde existia um lago de aproximadamente 68 mil km², surgiram grandes extensões de areia e sal. Onde havia centenas de ilhas, antigas áreas insulares passaram a fazer parte do continente. Onde barcos pescavam, hoje o vento constrói dunas.

O Mar de Aral continua existindo em partes, e o setor norte apresenta sinais concretos de recuperação. Mas a imagem registrada pela tripulação da ISS permanece como um retrato brutal da escala da mudança: um astronauta olhou para uma região que já abrigou o quarto maior lago do mundo e fotografou, no lugar de grande parte da água, um novo deserto suficientemente grande para ser visto com clareza do espaço.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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