Porto do Açu e Repsol Sinopec preparam o DAC-to-Sea, projeto que prevê capturar 5 mil toneladas de CO₂ do ar por ano e produzir cerca de 300 litros diários de combustível sintético para testar em rebocadores.
O Porto do Açu, em São João da Barra, no Norte Fluminense, prepara uma planta de demonstração capaz de retirar dióxido de carbono diretamente da atmosfera. O gás capturado será reaproveitado como matéria-prima para um combustível marítimo sintético. Batizado de DAC-to-Sea, o projeto reúne o complexo portuário e a Repsol Sinopec Brasil e mira um teste em escala real dentro do próprio porto.
Na configuração prevista, a unidade poderá capturar 5 mil toneladas de CO₂ por ano e produzir aproximadamente 300 litros de combustível por dia. O produto será direcionado inicialmente a embarcações de apoio e rebocadores, criando uma cadeia em que o carbono é retirado do ar, convertido em combustível e testado no mesmo ambiente portuário.
Projeto combina captura direta do ar e produção de e-MGO
O ponto central do DAC-to-Sea é juntar duas tecnologias que vinham sendo desenvolvidas separadamente. A primeira é a captura direta de carbono do ar, conhecida pela sigla DAC. A segunda é a conversão desse CO₂ em combustível sintético por uma rota de e-fuels, com uso de hidrogênio de baixo carbono e eletricidade.
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O Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás descreve o combustível do projeto como e-MGO, uma alternativa sintética ao marine gas oil usado no setor naval. A documentação do IBP aponta que a versão planejada para demonstração no Porto do Açu terá capacidade de cerca de 300 litros por dia e poderá ser usada como combustível “drop-in”, isto é, formulado para substituir o equivalente fóssil sem exigir uma mudança radical na lógica de abastecimento.
O ganho climático projetado é um dos números mais fortes da iniciativa. Segundo o material setorial do IBP, o e-MGO pode alcançar até 90% de redução de emissões em comparação com o MGO fóssil, considerando o ciclo de vida. Esse percentual é uma estimativa ligada à rota tecnológica e dependerá da forma como a energia e o hidrogênio forem produzidos na operação em escala.

Porto recebeu mais de 7 mil embarcações em um ano e quer virar campo de testes
O Porto do Açu recebeu mais de 7 mil embarcações em 2024, segundo dados divulgados pelo próprio complexo. Esse movimento ajuda a explicar por que o local foi escolhido para levar a tecnologia do laboratório a uma situação operacional: há tráfego constante de navios de apoio, rebocadores e outras embarcações que podem servir de plataforma para validação.
A parceria entre o Porto do Açu e a Repsol Sinopec Brasil foi formalizada em 2025 por meio de um memorando de entendimento. O projeto também foi selecionado em uma chamada pública da Finep e do BNDES voltada à produção de combustíveis sustentáveis para aviação e navegação. Foram 43 propostas selecionadas entre 76 inscrições.
Antes do DAC-to-Sea, a Repsol Sinopec já havia colocado em operação, em 2024, uma unidade do projeto DAC.SI com potencial para capturar 300 toneladas de CO₂ por ano diretamente do ar. Essa experiência, desenvolvida com a PUCRS e a DACMa, serve como uma das bases tecnológicas para a nova etapa no Açu. Outra frente é o CO2CHEM, voltado à transformação do carbono capturado em combustíveis renováveis.
Combustível ainda será validado em escala demonstrativa
O DAC-to-Sea não parte de uma produção comercial já estabelecida. A etapa prevista para o Porto do Açu é de demonstração e validação. A ideia é construir a planta, produzir o combustível em volume controlado e avaliar seu desempenho em embarcações de apoio antes de qualquer salto de escala.
Essa diferença é importante porque os 300 litros diários representam a capacidade de demonstração projetada, não uma oferta comercial para abastecer grandes frotas. O objetivo é comprovar a integração entre captura do ar, conversão química, produção do combustível e uso marítimo em condições reais.
A própria escolha dos rebocadores reduz a distância entre pesquisa e operação. Essas embarcações trabalham continuamente dentro do complexo e permitem acompanhar consumo, desempenho e logística de abastecimento sem depender, numa primeira fase, de uma rede externa de distribuição.
Porto do Açu já testa outras rotas para reduzir diesel e emissões
O combustível sintético se soma a outras experiências de descarbonização no complexo. Em 2025, empresas que operam no Açu avançaram em testes de HVO, o chamado diesel renovável, também em rebocadores. A iniciativa tinha autorização da ANP e buscava medir eficiência, manutenção e redução de gases de efeito estufa em comparação com o diesel marítimo convencional.

O porto também vem ampliando projetos de eletrificação e de infraestrutura para combustíveis de baixo carbono. O movimento mostra que a estratégia não depende de uma única solução: HVO, eletrificação no cais e e-fuels podem atender situações operacionais diferentes enquanto a indústria marítima busca reduzir a intensidade de carbono.
A pressão é global. A Repsol Sinopec cita que o combustível usado no transporte marítimo responde por cerca de 3% das emissões globais de CO₂. Tecnologias capazes de aproveitar a infraestrutura existente e reduzir emissões sem exigir a substituição imediata de toda a frota ganham interesse comercial e regulatório.
Próximo passo é provar se a rota funciona técnica e economicamente
Se a planta de demonstração entregar os resultados esperados, o Porto do Açu poderá reunir no mesmo complexo três etapas que normalmente ficam separadas: captura de carbono, produção de combustível e consumo em embarcações. Essa integração tende a facilitar a medição do desempenho e a identificação dos custos reais da rota.
O desafio seguinte será transformar uma produção de centenas de litros por dia em volumes compatíveis com o consumo marítimo sem perder o benefício ambiental projetado. Eficiência energética, custo do hidrogênio, disponibilidade de eletricidade de baixo carbono e investimento em equipamentos de captura serão decisivos para a escala.
Por enquanto, o dado mais concreto é o tamanho da experiência planejada: 5 mil toneladas de CO₂ capturadas por ano, cerca de 300 litros de combustível por dia e testes em embarcações de apoio dentro de um porto que recebe milhares de navios. É nesse ambiente que o DAC-to-Sea terá de mostrar se consegue sair do laboratório e se tornar uma alternativa viável para o transporte marítimo brasileiro.
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