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Porão de casarão vira sítio arqueológico: gravuras possivelmente feitas por pessoas escravizadas são encontradas em imóvel de mais de 260 anos em Ouro Preto

Publicado em 25/05/2026 às 11:48
Atualizado em 25/05/2026 às 12:09
Assista o vídeoDesenhos antigos encontrados em porão de casarão
Imagem: Ilustração artística
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Gravuras encontradas no porão de um sobrado de mais de 260 anos em Ouro Preto foram registradas pelo Iphan como sítio arqueológico e podem preservar memórias da diáspora africana em Minas Gerais

Gravuras de Ouro Preto encontradas no porão de um sobrado de mais de 260 anos foram registradas pelo Iphan como sítio arqueológico em 23 de março de 2026. Os 26 desenhos, possivelmente feitos por pessoas escravizadas entre a década de 1750 e a primeira metade do século 19, revelam marcas ligadas à diáspora africana em Minas Gerais.

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Gravuras de Ouro Preto foram achadas durante reforma em casarão histórico

A descoberta ocorreu no número 134 da Rua Conde de Bobadela, antiga Rua Direita, uma das principais vias de Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais.

O imóvel foi construído há mais de 260 anos, em uma cidade que se tornou símbolo do ciclo do ouro no século 18.

Os pais do administrador Philipe Passos compraram a casa por volta de 1980, com a intenção de abrir um restaurante. As inscrições só foram percebidas décadas depois, durante obras iniciadas em 2017.

Foi um funcionário quem notou os desenhos em um painel de argamassa sobre uma parede de pedras no porão e alertou a família.

Para Philipe, o achado ultrapassa o valor do próprio imóvel, por carregar uma mensagem ligada à violência da escravização.

Painel reúne 26 desenhos, incluindo bichos, plantas, pessoas e formas geométricas

O historiador e arqueólogo Leonardo Klink, da Universidade Federal de Minas Gerais, passou a estudar o painel após tomar conhecimento das gravuras por notícias publicadas na época.

Há quatro anos, ele dedica sua pesquisa de doutorado ao sobrado e às inscrições.

O trabalho segue uma abordagem não interventiva, voltada à preservação dos vestígios. A pesquisa identificou 26 gravuras, algumas invisíveis a olho nu, o que reforça a complexidade do painel e a necessidade de cuidado técnico.

Entre os desenhos aparecem uma embarcação com três pessoas a bordo, uma máscara com feições humanas e espécie de barba, um felino, duas aves, plantas e formas geométricas.

Uma das figuras mistura traços humanos e animais, com braços, pernas, tronco, chifres e dentes pontudos.

Também há um desenho arquitetônico com referências da África Ocidental. Segundo Klink, a imagem mostra pessoas em uma espécie de pátio e outras usando pilão, objeto comum no ambiente doméstico, cercadas por uma estrutura arquitetônica que não era encontrada na América Portuguesa.

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Grafite mineral e incisões indicam marcas feitas por várias mãos

As gravuras foram produzidas com grafite mineral e incisões na parede, possivelmente feitas com objetos como pregos e cacos de vidro. Não é possível afirmar exatamente quem desenhou nem determinar uma data precisa para cada marca.

A pesquisa indica, porém, que várias mãos, talvez até de gerações diferentes, deixaram inscrições no painel entre a década de 1750 e a primeira metade do século 19.

Para Klink, os desenhos podem preservar memórias anteriores à escravização. O pesquisador relaciona essa possibilidade ao percurso de pessoas capturadas, trazidas pela rota do Atlântico, levadas ao interior de Minas Gerais e depois a Vila Rica, atual Ouro Preto.

O contexto exato em que as inscrições foram feitas ainda não foi definido. Há relatos de que porões de sobrados eram usados como senzalas, mas essa é apenas uma das possibilidades apontadas na pesquisa.

Até meados da década de 1970, o porão era escuro, úmido, tinha piso de terra e não possuía energia elétrica. Klink considera possível que o local tenha sido associado ao cativeiro, mas também usado como espaço reservado para inscrições ligadas a lembranças e memórias.

Iphan reconhece bem de valor único e prepara diretrizes de visitação

O painel foi registrado oficialmente como sítio arqueológico e cadastrado no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão do Iphan em 23 de março de 2026. O nome dado ao sítio é “Inscrições Afrodiaspóricas”.

O parecer técnico que recomendou o reconhecimento foi assinado pelo arqueólogo Daniel Gabriel da Cruz. O documento destacou o valor único do bem e apontou que não foram localizados, na bibliografia consultada, vestígios de natureza semelhante.

Em nota, o Iphan informou que direciona esforços ao projeto de conservação do painel e à elaboração de diretrizes para visitação.

O órgão classificou o sítio arqueológico como um bem singular e de importância fundamental para a história da diáspora africana em Minas Gerais e no Brasil.

O instituto também atribuiu ao local relevância nacional, com valor informativo e memorial excepcional. A avaliação reforça a importância do painel para a reconstituição e valorização das trajetórias de pessoas submetidas ao regime de escravidão.

Philipe Passos, responsável pela restauração do imóvel, ainda não sabe qual será o destino final da casa. A ideia da família é que o porão seja destinado à contemplação do painel, seguindo as orientações de preservação, conservação e exposição definidas pelo Iphan.

Esta matéria foi elaborada com base em informações da reportagem fornecida sobre as gravuras encontradas em Ouro Preto e o reconhecimento do sítio arqueológico pelo Iphan, com dados, números e declarações preservados conforme o material consultado.

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Romário Pereira de Carvalho

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